Casos de Covid-19 triplicam em São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade mais indígena do Brasil

Foto: Pixabay

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05 Novembro 2021

 

Foram registradas 178 contaminações em outubro, um salto de 313% em comparação com setembro; órgão de saúde identificou “abandono das medidas preconizadas no protocolo sanitário”.

A reportagem é de Ana Amélia Hamdan, publicada por Instituto Socioambiental - ISA, 04-11-2021.

Severamente afetada pela pandemia de Covid-19, a cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, voltou a registrar altos índices de contaminação. Em outubro, foram confirmados 178 casos, um salto de 313% em comparação com setembro, que computou 43. Em agosto, somente nove pessoas foram diagnosticadas com o coronavírus.

 

Foto: reprodução | mapa do Estado do Amazonas

 

A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas - Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) encaminhou ao município uma equipe da vigilância epidemiológica. O chefe de Departamento de Vigilância em Saúde (DVE), Alexsandro Melo, disse que, em visita no dia 21 de outubro, técnicos identificaram “o abandono das medidas preconizadas no protocolo sanitário”, como a falta de exigência do uso de máscaras e de controle da quantidade de pessoas nos estabelecimentos.

De imediato, foi recomendado à Prefeitura e à Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) aumentar a vacinação e a testagem em massa.

São Gabriel da Cachoeira é conhecida por ser a cidade com maior concentração de população indígena do país. Levantamento oficial apontou que, dos contaminados pela Covid-19 em outubro, 75% são indígenas. A situação acende o alerta também para quem vive nas comunidades, já que há trânsito intenso entre as aldeias e os núcleos urbanos.

 

Variantes

 

Entre 25 e 27 de outubro, a equipe da FVS-RCP fez testagens em quatro unidades de saúde de São Gabriel da Cachoeira, buscando alcançar uma ampla amostragem da população. O material servirá para identificar variantes em circulação na cidade.

A Fiocruz Amazônia também investiga a presença de variantes em São Gabriel. Em testagem realizada em setembro, foi confirmada a circulação da Gama (P1), uma das mais agressivas.

Desde abril, o município não registrava mortes pela Covid-19. No entanto, com a disparada recente de casos, duas pessoas faleceram. Uma delas é um indígena Baniwa, idoso, que chegou a ser internado no Hospital de Guarnição do Exército (HGu), mas não resistiu e faleceu em 9 de outubro. O óbito só foi incluído no boletim epidemiológico no dia 28 de outubro, pois, segundo a Semsa, estava sob investigação.

Logo após a morte, a família enviou uma mensagem de luto informando a causa. Inicialmente, a Semsa descartou complicações pela doença, pois o resultado do teste rápido/antígeno havia dado positivo e o exame RT-PCR, negativo. Entretanto, após investigação e orientação dos órgãos de saúde do estado – que consideram o teste antígeno para fechar o diagnóstico – se confirmou a presença da Covid-19.

O segundo óbito entrou no boletim epidemiológico em 31 de outubro, sendo de um idoso que havia tomado somente uma das doses da vacina.

 

Protocolo sanitário

 

Desde o início da pandemia, São Gabriel registrou 110 óbitos por Covid-19, sendo 61 em 2020 e 49 em 2021. Após um longo período sem internações, três pessoas estão atualmente hospitalizadas com Covid-19 no HGu.

Adelaide Amorim, secretária municipal de Saúde, afirmou que a administração municipal está seguindo as orientações da FVS-RCP e publicou, no dia 26, decreto reforçando as medidas de prevenção. Entre elas, a exigência de cartão de vacinação para eventos, a limitação de lotação em estabelecimentos e eventos e a obrigatoriedade do uso de máscaras.

“Não temos a orientação de suspender atividades, mas sim de reforçar os protocolos sanitários”, explicou. Segundo ela, equipes de saúde estão atuando no aeroporto e no porto de Camanaus – o principal da cidade – fazendo coleta e triagem. As operações de fiscalização estão sendo programadas.

 

Vacinação

 

Outro ponto sensível é a cobertura vacinal. Adelaide explicou que um dos problemas enfrentados pela Semsa é a resistência da população à vacinação. “Já utilizamos várias estratégias: horário ampliado, levamos equipes de vacinação para a feira, para o centro comercial. Ainda assim há pessoas que resistem, que não aceitam a vacinação”, disse.

A próxima estratégia da Semsa será fazer visitas presenciais. A ação já começou nos bairros Areal e Miguel Quirino, onde há concentração de casos e a adesão à imunização está baixa.

O vacinômetro da FVS-RCP indica que o índice vacinal de São Gabriel da Cachoeira, até 31 de outubro, era de 40,7%. Na data, 18.860 pessoas já haviam completado o esquema vacinal, incluindo moradores do núcleo urbano e das comunidades.

São Gabriel também já abriu a vacinação para jovens de 12 a 17 anos. Além disso, a terceira dose está sendo aplicada em idosos acima de 60 anos e profissionais de saúde.

Segundo a secretária de saúde, a imunização avançou e já atingiu cerca de 50% da população, embora os dados ainda não tenham sido atualizados. “Ainda assim, o índice é considerado baixo. Vamos trabalhar com a meta de 90%”, afirmou.

Um levantamento da Semsa apontou que, do total de 110 casos registrados até 22 de outubro, 65,45% (1 ou 2 doses) ocorreram entre pessoas vacinadas e 34,55% atingiram não vacinados. A secretária avalia que esse cenário indica a eficácia da vacina para evitar agravamento do quadro, pois as internações permanecem baixas no município.

 

Comunidades indígenas

 

A alta de casos no município acendeu o alerta também para quem vive nas comunidades indígenas. O Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro (Dsei-ARN) divulgou nota com orientação para que eventos que possam causar aglomerações sejam suspensos por tempo indeterminado, considerando a alta de casos nos núcleos urbanos – sobretudo São Gabriel – e o intenso fluxo entre as comunidades e a cidade.

Na área do Dsei-ARN, que atua em comunidades nos municípios de São Gabriel, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, foram registrados durante a pandemia, até 3 de novembro, 2.393 casos da Covid-19 e 26 óbitos. No Dsei Yanomami, foram 2.088 casos e 22 mortes registradas em comunidades no Amazonas (municípios de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro) e Roraima.

O Dsei-ARN considera como pontos de atenção a alta acentuada de casos em São Gabriel da Cachoeira e o fluxo intenso de indígenas entre a zona urbana e áreas indígenas, o que facilita a disseminação do vírus entre a população aldeada. O órgão informou que 80% dos indígenas que vivem em comunidades de sua área de atuação já receberam as duas doses da vacina, mas ressaltou que pessoas vacinadas ainda podem contrair e transmitir a doença.

 

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