Pandemia expõe exclusão digital e fracasso da privatização

Foto: Norton Falcão/UFC

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

01 Agosto 2020

"Tal qual hoje se promete universalização do saneamento com a entrega do serviço para o capital privado, mais de 20 atrás se fez o mesmo com as telecomunicações. E o resultado são crianças sem acesso à internet para o direito básico: a educação", escreve Wagner de Alcântara Aragão, jornalista, professor e editor da Rede Macuco, em artigo publicado por Brasil Debate, 30-07-2020.

Eis o artigo.

O ensino à distância imposto pela pandemia de covid-19 escancara a exclusão digital. Não é raro tomarmos conhecimento de professores e professoras pedalando ou caminhando por quilômetros, indo por conta própria, levar atividades a seus estudantes, já que uma boa parcela deles não dispõe de acesso à internet.

O gesto de solidariedade, de comprometimento com a função de educar, sensibiliza. É enaltecido, e assim deve ser. No entanto, a ternura com que observamos essas cenas deve vir acompanhada de indignação e cobrança por políticas públicas que efetivem o acesso à internet como um direito. Até porque foi isso que nos prometeram, mais de 20 anos atrás, com a privatização do Sistema Telebrás.

E, parênteses, é o que se promete agora com o novo “marco regulatório” do saneamento. Governo e elite política e econômica conseguiram impor a entrega da água e do esgoto ao capital privado sob o argumento de que por aí seria o caminho para a universalização desses serviços. Em 1998, quando entregaram o Sistema Telebrás, o canto da sereia era o mesmo: com “investimentos privados”, o país todo ficaria conectado.

Balela. Sabemos que, sendo da natureza da iniciativa privada a busca pelo lucro, não chegariam redes de telecomunicações às periferias, às comunidades rurais, ribeirinhas, caiçaras, quilombolas, indígenas. Pelo simples motivo de que o recurso despendido não daria retorno, lucro imediato. Alguém acha que vai ser diferente com água e saneamento?

Em 2010, ainda no Governo Lula, foi lançado o Plano Nacional de Banda Larga – um conjunto de ações para massificar o acesso à internet. Numa demonstração de que o capital privado não dá conta de universalizar, porque sai caro e é pouco rentável, é que o Plano Nacional de Banda Larga estabeleceu a retomada do papel do que restou da Telebrás. Ainda assim, o plano era baseado na atuação das operadoras privadas.

O Plano Nacional de Banda Larga previa metas para até o final de 2014. Os resultados não foram satisfatórios, conforme resumiu a jornalista Marina Cardoso, do Intervozes – coletivo de defesa da democratização das comunicações -, em artigo do comecinho de 2015, escrito a partir de um relatório elaborado pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal.

Ao término de quatro anos, dos 35 milhões de novos domicílios que, segundo o plano, deveriam estar conectados, só em 23 milhões deles a internet banda larga chegou. Os investimentos da Telebrás e, principalmente, a atuação das companhias privadas ficaram muito aquém do proposto. O artigo foi publicado na Carta Capital, disponível aqui.

Com a crise política pós eleições de 2014 e o golpe de 2016, o Plano Nacional de Banda Larga foi descontinuado. Hoje, de acordo com levantamento feito pelo NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), no país quase 5 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos não têm acesso à internet – 17% da população nessa faixa etária.

Em novembro teremos eleições municipais. O direito a conexão à internet deve estar na pauta dos postulantes a prefeituras e câmaras de vereadores. Tem de ser abordado nos debates, estar presente nos programas de governo. Acesso à internet é acesso ao ensino, à saúde, à cultura e ao lazer. Elitizá-lo é excluir a população de serviços e direitos essenciais.

 

Leia mais