Hábito não é fidelidade. Buscando entender a atitude de fechamento e hostilidade de muitos padres. Artigo de Giulio Cirignano

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Julho 2017

"O maior obstáculo que se interpõe à conversão que o Papa Francisco quer que a Igreja faça constitui-se, em certa medida, pela atitude de boa parte do clero, superior e inferior. Atitude, às vezes, de fechamento, senão de hostilidade. Como os discípulos no Jardim das Oliveiras, os seus discípulos ainda dormem. O fato é impressionante", constata artigo publicado pelo jornal L'Osservatore Romano, na edição deste final de semana.

O artigo descreve algumas causas. "A primeira, é o nível cultural modesto de parte do clero, tanto no alto, quanto embaixo".

A necessidade de uma conversão pastoral da Igreja, que muitas vezes parece despreparada para enfrentar os complexos desafios do tempo presente, é evidenciada, a partir da Evangelii gaudium, do Papa Francisco, no livro Bellezza del gaudio evangelico. Al centro della vita cristiana [Beleza da alegria evangélica. No centro da vida cristã] (Livorno, Mauro Pagliai Editore, 2017, 179 páginas). O autor do livro é Giulio Cirignano, padre italiano e professor emérito de Sagrada Escritura da Faculdade Teológica da Itália Central.

O jornal do Vaticano publica trechos do capítulo intitulado “O clero dorme”, na edição de 23-07-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o artigo, "Quando o padre está marcado demais pela mentalidade religiosa e pouco por uma fé límpida, então tudo fica mais complicado, porque ele corre o risco de se tornar vítima das muitas coisas inventadas pelo ser humano sobre Deus e sobre a sua vontade".

Eis o texto.

O maior obstáculo que se interpõe à conversão que o Papa Francisco quer que a Igreja faça constitui-se, em certa medida, pela atitude de boa parte do clero, superior e inferior. Atitude, às vezes, de fechamento, senão de hostilidade. Como os discípulos no Jardim das Oliveiras, os seus discípulos ainda dormem. O fato é impressionante.

Por essa razão, o fenômeno deve ser examinado a fundo, nas suas causas e nas suas modalidades. O clero arrasta atrás de si as comunidades, que, ao contrário, deveriam ser acompanhadas neste momento extraordinário. Grande parte dos fiéis compreendeu, apesar de tudo, o momento favorável, o kairós que o Senhor está dando à sua comunidade. Grande parte dos fiéis está em festa.

No entanto, aquela porção mais próxima de pastores pouco iluminados é mantida dentro de um horizonte velho, o horizonte das práticas habituais, da linguagem fora de moda, do pensamento repetitivo e sem vitalidade. No fundo, o Sinédrio é sempre fiel a si mesmo, rico em devoto obséquio ao passado confundido com fidelidade à tradição, pobre em profecia. Quais as razões de tudo isso?

No primeiro lugar da lista, provavelmente, é preciso colocar o nível cultural modesto de parte do clero, tanto no alto, quanto embaixo. Não podemos generalizar e, portanto, não encontramos nenhuma dificuldade em admitir que há muitas exceções a esse estado de coisas, felizmente.

Em muitos presbíteros a cultura teológica é escassa, e a preparação bíblica é ainda menor

Em muitos presbíteros, infelizmente, a cultura teológica é escassa, e a preparação bíblica é ainda menor. A causa desse deplorável estado de coisas é facilmente identificável. Quando um curso de estudos de nível universitário, apenas para dar um exemplo, não deixa no estudante a vontade de pensar, de continuar estudando, de exercer um mínimo de senso crítico, isso significa que falhou em sua tarefa.

A configuração de grande parte dos seminários não favorece a formação de uma mentalidade de trabalho e de empenho. Os anos de preparação ao presbiterado deveriam alimentar a consciência acerca da necessidade do ministério como um verdadeiro trabalho. Como qualquer pessoa, o padre também trabalha para ganhar o pão.

Pode-se objetar que, frequentemente, os padres estão sobrecarregados com muitas atividades. Isso responde à verdade. Porém, se as muitas atividades impedem que o padre desempenhe a tarefa que lhe é própria, devemos nos interrogar. Talvez pese sobre o padre uma imagem que vem do passado e que não é mais sustentável? Referimo-nos a uma imagem herdada na qual o padre era pensado como o chefe e o dono da comunidade e que, em virtude da sua condição celibatária, era como que compensado por uma espécie de papel de responsabilidade individual totalizante. Uma espécie de “protagonista” solitário. Os órgãos de sinodalidade funcionavam e funcionam pouco e mal. Nesse esquema, pensava-se que a vitalidade de uma comunidade passava do padre aos fiéis, constantemente conservados em um papel passivo. Tudo isso, hoje, não é mais aceitável.

Há ainda um fator mais grave que impede que aqueles que carregam o dom do sacerdócio ministerial interceptem as perguntas que vêm da história e acolham com alegria e entusiasmo os convites à mudança. É um fator cujo peso dificilmente pode ser medido, uma espécie de gaiola paralisante. Podemos defini-lo, substancialmente, como a modalidade de conceber a experiência religiosa em termos velhos, aqueles que amadureceram e se consolidaram no longo período da Contrarreforma. Modalidade que envolve a teologia, a espiritualidade e a prática.

Uma teologia, em primeiro lugar, sem os recursos da Palavra, sem alma, que transformou a apaixonante e misteriosa aventura do crer em religião. e religião: no imaginário comum, são quase sinônimos. Na realidade, são experiências profundamente diferentes.

A religião nasce do medo e da necessidade do ser humano que, impulsionado por esse duplo fator, encaminha-se em busca de uma mão para se agarrar. Vai em busca de uma ajuda que, muitas vezes, constrói-se, em parte, também de acordo com as suas necessidades. É uma experiência bonita, certamente, que se alimenta da consciência do mistério, que todo ser humano traz dentro de si. Porém, tem este grande limite: o Deus da religião é, em geral, projeção do ser humano, da sua mente, dos seus medos, das suas necessidades. É um deus hipotético.

A tem uma origem totalmente diferente. É acolhida de um evento humanamente impensável. Na experiência da fé, não é primariamente o ser humano que vai rumo a Deus, mas o oposto. Deus se torna experimentável ao ser humano, que é convidado a acolhê-lo. A fé é o vazio do ser humano e o pleno de Deus: nele, o ser humano encontra a sua completa dignidade.

Devemos admitir: estamos todos profundamente tecidos de religião. Todos, sem excluir ninguém. Ou, melhor, a necessidade religiosa nos acompanhará até o fim da vida. Nunca nos abandonará. Sempre teremos o instinto de buscar aquela misteriosa mão para pousar as nossas vertigens existenciais. Portanto, nenhuma desvalorização da religião, mas devemos reiterar fortemente que a fé é outra coisa.

Quando o padre está marcado demais pela mentalidade religiosa e pouco por uma fé límpida, então tudo fica mais complicado, porque ele corre o risco de se tornar vítima das muitas coisas inventadas pelo ser humano sobre Deus e sobre a sua vontade. Quando é o ser humano que fala de Deus, ele o faz como ser humano, imaginando, hipotetizando e, às vezes substituindo-se a Ele. Este, que é totalmente outro, não suporta sem encerrado em esquemas estreitos, típicos da mente humana. “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1, 18), dele sabemos só aquilo que o Filho quis revelar. Deus é amor: isso é tudo. Amor como dom de si. Assim, Ele corrige, de forma evidente, os milhares de involuções que costumamos fazer ao amor.

Leia mais