Em tempos de narcisismo religioso, o testemunho da humildade de João Batista

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11 Dezembro 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 3º Domingo do Advento, 13 de dezembro de 2020 (João 1,6-8.19-28). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No tempo do Advento, João Batista e Maria de Nazaré nos acompanham com a sua espera perseverante, a sua fé sólida e a sua obediência resoluta ao Senhor que vem. A presença de João no quarto Evangelho se caracteriza sobretudo como a de quem anuncia a vinda do Reino e do Messias, e esse seu ministério é qualificado como “testemunho”: João aparece como a testemunha enviada por Deus “para dar testemunho da luz” (Jo 1,7) e para levar os filhos de Israel a reconhecerem o Messias.

Diante da acolhida da sua pregação por parte de muitos judeus, a autoridade religiosa legítima de Israel – representada pelos sacerdotes e pelos levitas de Jerusalém – vai ao encontro de João no deserto e lhe pede contas da sua missão: “Quem és? És o Cristo, o Messias que esperamos? És o Elias anunciado pelo profeta Malaquias para os últimos tempos (cf. Mal 3,23-24)? És o profeta escatológico igual a Moisés que nos foi prometido (cf. Dt 18,18; 34,10)?”.

E João responde por três vezes: “Não! Não sou!”, confessando que não é aquilo que os outros pensam dele. Ele não olha para si mesmo, não exige atenção para a sua própria pessoa; é apenas alguém que faz um sinal, um dedo esticado para apontar para outro.

Não por acaso, quando usa a expressão “Eu sou”, ele o faz apenas para se definir como “voz”: “Voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” (cf. Is 40,3), uma voz que deve testemunhar aquilo que vê, uma voz que deve obedecer sem demora, uma voz emprestada a quem o enviou. Nada de atentado ao senhorio de Jesus: é ele o Messias, é ele o Profeta!

Nos Evangelhos sinóticos, é o próprio Jesus quem afirma que João Batista era “o Elias que veio e não foi reconhecido” (cf. Mt 17,12-13), enquanto aqui João não proclama de si mesmo sequer aquilo que ele é na realidade. Sim, João é uma voz obediente às Sagradas Escrituras, à profecia de Isaías que ele cumpre pontualmente, por meio do pedido de conversão (cf. Mt 3,8), isto é, um compromisso ativo a endireitar os caminhos para ir ao encontro do Senhor que vem (cf. Mc 1,3 e par.). João sequer tem uma mensagem própria: ele renova o convite profético e antecipa a pregação daquele à frente do qual ele foi enviado por Deus.

E quando sacerdotes e levitas, insistindo na interrogação, lhe pedem contas do seu gesto profético, a imersão na água de quem quer se converter, ele responde que o seu gesto prepara a vinda já iminente ou, melhor, a aparição de alguém que já está presente no mundo, mas não é conhecido. É aquele que está no seu seguimento, caminha atrás dele como um discípulo, mas João não é digno de desamarrar o laço das suas sandálias.

Eis o testemunho de João, a revelação do mistério: o Messias que vem já está presente, de forma oculta, mas está prestes a ser manifestado precisamente por ele, que, no entanto, não é digno nem de fazer o serviço do escravo: aqui está a grandeza de João, na sua capacidade de se fazer pequeno, de “diminuir para que Cristo cresça” (cf. Jo 3,30).

Ainda hoje é necessário olhar para a humildade autêntica de João: a isso são chamados em particular aqueles que, como ele, têm a missão de anunciar Jesus Cristo: João adverte a Igreja e todos os evangelizadores a não exigirem olhares sobre si mesmos, a não falarem de si mesmos, a não reterem junto de si aqueles que devem ser conduzidos apenas a Cristo!

Neste tempo de narcisismo religioso, um tempo em que abundam aqueles que “falam de si mesmos para dar testemunho’ ou que, em nome dos carismas recebidos, ostentam sem pudor a sua própria pessoa aos olhos do mundo, João Batista é uma memória que interroga e julga sem trégua...

 

 

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