Morte feliz

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Fevereiro 2016

“Morte feliz: isso significa “eutanásia” em sua origem e etimologia, embora os nazis tenham degradado seu sentido ao utilizá-lo para designar suas práticas de extermínio, de morte infeliz. Morte feliz, ou eutanásia, significa morrer sem tristeza e sem dor, ou com o mínimo de tristeza e de dor inevitáveis. Morrer em plena consciência. Despedir-se serenamente dos seres queridos. Assumir sem angústia a pena da separação; na pena há consolo, na angústia não; a pena não impede a felicidade, a angústia sim“, escreve José Arregui, teólogo, em artigo publicado por Religión Digital, 09-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Nestes dias reli o último livro de Hans Küng, ainda não traduzido ao espanhol, um texto breve do ano de 2014 com o qual, aos seus 86 anos, afligido por um Parkinson progressivo, quis coroar sua vida e toda a sua obra. O título constitui mais do que um mero testamento vital, um programa de vida: “Morte feliz”. Contradição? Melhor, paradoxo da vida, que só pode ser feliz doando-se. Paradoxo da morte que se faz doação e se torna decisão, expressão, culminação da vida. A morte pode ser feliz, pois a vida que se dá não morre. Isso te parece um jogo de palavras vazio? Para Hans Küng é o horizonte que ilumina sua vida inteira, incluída a morte. Sabe do que fala, pois a isso consagrou suas inesgotáveis energias físicas, emocionais, intelectuais, espirituais.

Morte feliz: isso significa “eutanásia” em sua origem e etimologia, embora os nazis tenham degradado seu sentido ao utilizá-lo para designar suas práticas de extermínio, de morte infeliz. Morte feliz, ou eutanásia, significa morrer sem tristeza e sem dor, ou com o mínimo de tristeza e de dor inevitáveis. Morrer em plena consciência. Despedir-se serenamente dos seres queridos. Assumir sem angústia a pena da separação; na pena há consolo, na angústia não; a pena não impede a felicidade, a angústia sim.

Morrer em profundo assentimento a toda a vida, aceitando tudo, dizendo sim a tudo, também aos ferimentos sofridos e, o que é muito mais difícil, aos ferimentos infligidos: não tenho sido perfeito, eu o sinto, mas a isto cheguei, e assim está bem; gostaria que muitas coisas tivessem sido melhores, mas está bem assim como está; digo sim a tudo, sem justificar nada. Dizer: “Minha obra está acabada: aqui vo-la deixo”. E não faz falta que seja uma “grande obra”, como a de Hans Küng, nem ninguém pode medir a grandeza da obra pelo tamanho ou o número ou a qualidade dos livros escritos, nem pelo êxito obtido, ou o influxo exercido. Coroar a vida humildemente. Morrer em paz. Pois bem, como pessoa que crê, pensador e humanista, afirma Küng: no momento em que minha vida já não possui para mim qualidade humana suficiente, posso e devo escolher essa “morte feliz”, digna, bela, boa. Morte irmã, não inimiga. Há um tempo para viver e um tempo para morrer. E eu não posso, devo dizê-lo responsavelmente. “O ser humano tem o direito de morrer quando não tem nenhuma esperança de seguir levando o que segundo o seu entender é uma existência humana”. Recusar, prolongar indefinidamente a vida temporal faz parte da arte de viver e da fé na vida eterna. Já se havia pronunciado no mesmo sentido faz 20 anos, em 1995, em outro livro (Morrer dignamente, Trotta 1997), escrito em colaboração com seu amigo e colega Walter Jens.

Assistimos a uma mudança radical de paradigma. A legislação social dos diversos países - com contadas exceções como Holanda e Suíça – sofre ainda de um grande atraso com respeito à opinião social. E o atraso é maior no caso da hierarquia eclesial. Sustentar, como sustenta, que só é lícita a “ajuda passiva” (desconectar um aparelho de alimentação ou de respiração, por exemplo) não deixa de ser uma ficção. Há tanta diferença entre desconectar um aparelho e proporcionar uma dose maior de morfina que me levará à morte ou a descanso final? A hierarquia eclesiástica corre o risco de voltar a equivocar-se, como se equivocou a propósito dos métodos contraceptivos ou de fecundação chamados “artificiais”.

Escolher a morte de maneira humana é a forma final de escolher a vida de maneira humana. E a humanidade não está definida nem ditada por uma divindade exterior nem representada por nenhuma religião. Quem crê deveria desejar uma morte feliz como definitiva doação confiada de si à Realidade primeira e última, como trânsito à Realidade profunda, à Realidade Fonte, à Vida sem origem nem fim. Dizer que não podemos escolher a more porque não somos donos da vida é uma fraude máxima.

Não somos donos da vida nem da morte, mas somos responsáveis pela vida e, portanto, também pela morte, e aqui não é decisiva a distinção entre quem crê o descrente. Não só podemos, senão que devemos escolher responsavelmente – digo responsavelmente – quando e como morrer, sem outro limite que nosso bem-estar e o bem-estar comum, começando pelo das pessoas mais chegadas. E os médicos e as pessoas mais próximas deveriam poder atender a demanda de quem livremente lhes pede - ou de quem livremente teria deixado expressa essa demanda – uma ajuda para bem morrer. É uma exigência do cuidado da vida, e não há outro mandato divino nem outra divindade senão a Vida, o Cuidado, a Bondade e o Bem Viver.