Montesinos e Romero, profetismo e política

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Dezembro 2011

"Que ideia!", alguém poderia dizer: o que tem a ver o famoso sermão de Montesinos, há 500 anos, que hoje se celebra por todas as partes, com a figura de Dom Romero, na segunda metade do século XX, que vai ficando em silêncio, até mesmo dentro da Igreja? "Profetismo e política" é um título que pode vincular essas duas figuras e, de algum modo, abre caminho para o compromisso dos cristãos em um mundo que, com seus deslumbrantes progressos, sofre a injustiça social e a exclusão dos mais fracos.

A opinião é do dominicano Jesús Espeja, professor do Instituto Teológico Pastoral da América Latina (Itepal-Celam), publicada no seu blog, La Iglesia se Hace Diálogo, 20-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O sermão de Montesinos foi a expressão de alguns missionários que, vendo as vexações desumanas dos colonos contra os índios, se deixaram impactar e levantaram sua voz: "Acaso estes não são homens? Como os tendes tão oprimidos e fatigados? Não estais obrigados a amá-los como a vós mesmos?". Logicamente, sua denúncia tinha um impacto político; exigia uma mudança de mentalidade e de estruturas na organização da sociedade. A mudança punha em perigo os interesses econômicos dos encomenderos espanhóis que reagiram tentando silenciar, por todos os meios, a voz profética.

Por muito tempo, manteve-se nos manuais de história uma lenda negra sobre aquele gesto dos dominicanos na La Española, que depois o Frei Bartolomé de Las Casas moldou em sua prática evangelizadora.

Anos atrás, foi notícia o assassinato de Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador, que, em um dia de 1980, foi premeditadamente eliminado enquanto celebrava a Eucaristia. Quando eu li suas homilias e escritos detidamente, eu já conhecia um pouco a situação em El Salvador e em outros povos da América Latina. Esse conhecimento logo me ajudou a entrar em sintonia com a preocupação e o pensamento do bispo mártir.

Impressionou-me especialmente a sua lucidez sobre a dimensão política da fé em uma conferência que ele deu na Universidade de Louvain, pouco antes de lhe arrancarem a vida. No entanto, pouco depois desse crime lamentável, eu assisti a uma conferência em que um alto cargo eclesiástico fazia este comentário: "É uma pena a morte sacrílega de Dom Romero que era um bispo. Mas o problema foi que ele se meteu na política". Eu não sei se fiz bem ficando em silêncio, mas não pude digerir aquele diagnóstico tão simplista e falso.

Passados já vários anos, vendo como tanto na América Latina quanto no próprio coração da nossa sociedade espanhola os pobres são cada vez mais irreverentemente coisificados e excluídos, vejo que a denúncia de Montesinos e a de Dom Romero, embora em uma situação histórica e cultural diferente, responde ao mesmo espírito evangélico: "Acaso estes não são homens?", gritava Montesinos. "A dignidade humana acima de tudo", "pare a repressão!", era o grito profético de Dom Romero.

A Igreja continua proclamando que "o profundo estupor com relação ao valor e à dignidade do ser humano se chama Evangelho". Mas a prática de acordo com essa convicção necessariamente deve ter uma incidência política. É verdade que a missão da Igreja não é diretamente política, mas sim religiosa. Mas como ser testemunhas do Deus revelado em Jesus Cristo, cuja imagem é todo ser humano, senão ouvindo a voz das vítimas, defendendo sua dignidade como pessoas e entrando assim em conflito com estruturas e e com aqueles que provocam a situação injusta ou não fazem o possível para mudá-la?

A Igreja, que nunca deve se identificar com nenhum partido político, não pode ficar de braços cruzados quando se nega a dignidade e os direitos fundamentais das pessoas. E a questão não é só que os bispos falem, nem que alguns cristãos, a partir de sua cadeira no Congresso, tentem gerenciar a política, buscando que todos possam gozar dessa dignidade. O desafio é para todos os batizados.

Uma conduta, desvinculada da cobiça insaciável, cujos valores máximos são a diversão e o consumo. Uma conduta que respire os sentimentos de Deus, manifestados no Natal: profundo estupor perante a dignidade do ser humano, compaixão eficaz perante o sofrimento das vítimas, atitude do bom samaritano que põe em jogo todas as seguranças para levantar os humilhados e ofendidos. Nessa conduta, é inevitável a incidência política da fé cristã.