Estudo prevê Amazônia mais quente e mais seca

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11 Mai 2011

Análise do Inpe e do centro inglês MetOffice avalia o impacto das mudanças climáticas e do desmatamemto na Floresta Amazônica. Elevação da temperatura em 2ºC significaria 11% menos de chuva.

A reportagem é de Nádia Pontes e publicada pelo sítio Deutsche Welle, 11-05-2011.

Por baixo de toda aquela imensidão verde, a Amazônia esconde uma vulnerabilidade preocupante. Um novo estudo publicado pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e pelo MetOffice Hadley Centre confirma previsões pessimistas anteriores já feitas pelo instituto brasileiro. Se as emissões dos gases do efeito estufa continuarem nos níveis atuais, a Amazônia poderá sofrer um aumento significativo da temperatura e uma diminuição das chuvas acima da variação global média.

As modelagens não são o mundo real, mas podemos obter informações muito úteis em suas aplicações. Mas, em todas as nossas projeções, podemos dizer que haverá um forte aquecimento na Amazônia e potencial queda das chuvas. E quanto maior for a concentração de gases estufa na atmosfera, maior será o aquecimento e a seca na Amazônia", disse Gillian Kay, pesquisadora do MetOffice, à Deutsche Welle.

Essa é a principal conclusão do projeto Riscos das Mudanças Climáticas no Brasil, fruto da parceria entre o renomado centro de pesquisa climática do Reino Unido e o Inpe. Ao longo de três anos, os cientistas elaboraram projeções de alta precisão sobre as mudanças climáticas em regiões do Brasil.

Com o ar mais quente e menos chuva, os efeitos sobre a floresta são devastadores – e os impactos negativos não se restringem à região. A Amazônia é importante para o mundo inteiro porque captura e armazena o carbono da atmosfera. Ela também exerce um papel fundamental no clima da América do Sul, além de ajudar a regular a umidade dentro da Bacia Amazônica.

Nos últimos 50 anos, a temperatura média no Brasil subiu cerca de 0,7ºC e a tendência é que essa elevação continue devido às emissões de gases do efeito estufa. Segundo as projeções do estudo, se o aumento nos próximos anos for de 2º C, o total de chuvas na região amazônica será 11% menor. Mas se a elevação bater os 7ºC, pode chover até 41% menos.

Só no Brasil, os efeitos econômicos seriam imediatos: uma redução na precipitação pluviométrica afeta o volume dos rios e, consequentemente, pode limitar o fornecimento de eletricidade no país, que gera 70% de sua energia em usinas hidrelétricas.

O risco da derrubada de árvores

Os efeitos das mudanças climáticas serão sentidos a longo prazo. A preocupação mais imediata e que produz efeitos semelhantes é o desmatamento. "O que acontece com o futuro da Floresta Amazônica é de grande interesse para todo o mundo. Se perdermos alguma parte da floresta, e isso pode acontecer, isso muda a concentração de dióxido de carbono na atmosfera. E isso pode mudar o nível de aquecimento global e mudar o clima em todo o mundo", comenta Gillian Kay.

O desmatamento é a terceira maior causa de emissão de gases do efeito estufa, atrás da produção de energia e da indústria. Os resultados dos modelos sugerem que o desmatamento também pode causar elevação das temperaturas na Amazônia e provocar queda do volume de chuvas, tornando a região mais seca do que atualmente.

Cientistas do Inpe, que se dedicam ao estudo do clima na Amazônia desde a década de 1980, acreditam que se o desmatamento atingir mais de 40% da extensão original da floresta, os efeitos seriam irreversíveis. "Poderia provocar um aquecimento de mais de 4ºC no leste da Amazônia e as chuvas de julho a novembro poderiam diminuir em até 40%. E, o que é mais importante, essas mudanças viriam somar-se a qualquer mudança decorrente do aquecimento global", diz o texto.

Segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia caiu de 27 mil quilômetros quadrados em 2004 para 6.500 quilômetros quadrados em 2010. Em Copenhague, durante a Conferência do Clima de 2009, o governo brasileiro prometeu que, até 2020, o corte de árvores na região cairia para 80%, com base nos números de 2005.

Tão grande, tão vulnerável

Só nos últimos cinco anos, a região sofreu com duas grandes secas, em 2005 e 2010, e uma das piores enchentes já vistas na Amazônia, em 2009. E a ocorrência desses chamados eventos extremos pode ficar cada vez mais comum.

"Os impactos foram fortes e se estenderam em várias esferas da vida e subsistência humana, afetando inclusive os ecossistemas de apoio. Agricultura, transporte, energia hídrica e saúde pública foram alguns dos setores afetados, com consequências significativas para a economia", diz o relatório.

Os riscos que Amazônia enfrenta, no entanto, não podem ser evitados apenas com a ação do governo brasileiro. "Se as nações desenvolvidas não assumirem suas responsabilidades históricas e reduzirem suas emissões per capita de gases de efeito estufa, os ecossistemas amazônicos podem se colapsar", alerta o projeto.