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16 Abril 2012

Que efeito tem ler hoje o livro Mística da feminilidade para aquelas que cresceram nos anos 1970 e 1980?

A reflexão é da escritora italiana Elena Stancanelli, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 13-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu e a A mística da feminilidade somos menos ou menos coetâneas. Mas enquanto eu envelheço com inexorável regularidade, o livro de Betty Friedan, que chegou perto do 40º ano de idade, volta a ser novamente muito jovem, vital e sedutor. Mais do que era há 20 anos atrás, por exemplo, quando a minha geração o esnobava por motivos estranhos ao seu conteúdo.

Era 1963 quando essa jovem estudiosa norte-americana publicou o livro que propunha os resultados de um teste enviado às suas ex-colegas de faculdade (classe 1942) por ocasião dos 15 anos da sua formatura. Ela queria demonstrar que a educação não enfraquece o instinto materno e que uma mulher culta pode ser feliz mesmo sendo apenas uma boa esposa. Errado. As respostas que ela obteve revelaram o contrário: a dona de casa norte-americana, rainha da casa com jardim, estava desesperada, dilacerada e incapaz de aderir a um modelo de feminilidade que justamente alavancava um improvável e fictício misticismo.

Não sabendo bem como chamar essa dor multiforme, Friedan o definiu como "the problem that has no name" [o problema não tem nome]. Um pesadelo psicossomático que corresponde, grosso modo, ao que hoje chamamos de depressão.

No mesmo ano em que foi publicado A mística da feminilidade, Sylvia Plath, esposa e mãe, publica um romance intitulado A Redoma de Vidro. História de uma mulher, Esther, dividida entre aspirações pessoais e papel social. Confusa e desesperada, ela cavalga a sua doença indizível até ser desareada, até às tentativas de suicídio e de eletrochoque. Um mês depois do lançamento do livro, Plath se matou enfiando a cabeça no forno, logo depois de ter posto suas filhas para dormir e de ter lhes preparado um copo de leite e pão com manteiga para o café da manhã.

Em 1961, era publicado Foi Apenas um Sonho, de Richard Yates, cuja protagonista, April, depois de ter passado o tempo do seu casamento tentando definir a inquietação que a perpassava e a descontar a sua culpa, morreu dessangrada em sua sala de estar, depois de ter praticado um aborto insano em si mesma.

O livro de Betty Friedan teve um sucesso editorial enorme e se tornou uma pedra angular do pensamento feminino. Por alguns anos, foi a bíblia da emancipação, o surgimento de um reprimido coletivo, a resposta a uma pergunta que até então não se conseguia nem formular.

Depois tudo mudou. O feminismo se tornou mais radical, chegou a revolução sexual e, logo atrás, a raiva e a fúria destrutiva dos anos 1970. Jane Birkin e Brigitte Bardot, Kate Millett e Angela Davis, Taxi Driver e The Rocky Horror Picture Show, o punk, o movimento transgênero, Janis Joplin... A minha geração entrava na adolescência, e o mundo era uma pilha de escombros pós-qualquer coisa.

Essas mulheres das quais Betty Friedan falava não nos diziam respeito, haviam sido sepultadas pela história. O seu problema era tornar-se grandes; o nosso, permanecer pequenas. Crescemos com Pippi das Meias Altas, Heidi, Lady Oscar, decididas a não superar o limiar da adolescência, por razão alguma. Comovíamo-nos com a inocência e a candura de Vic, a protagonista de “No Tempo Dos Namorados”, copiávamos os freaks, sobretudo o marciano E.T. Pegávamos o impulso para nos tornarmos más. Nunca imaginamos que um dia nos apaixonaríamos por Mad Men. Os homens machos, as mulheres fêmeas. Vimos Longe do Paraíso, o filme de Todd Haynes, e lemos de novo e amamos Foi Apenas um Sonho e Sylvia Plath.

Em um ensaio intitulado Pornotopia, Beatriz Preciado, filósofa, explica que lá, nos Estados Unidos dos anos 1950, nasceu tudo. Que foi Hugh Hefner, fundador da Playboy, que moldou o nosso imaginário erótico, e não só esse. E que é mérito seu se conseguimos escapar daquelas gaiolas para hamsters que eram as casas com jardins. Seu e de Betty Friedan.

A emancipação da dona de casa norte-americana se realizou mediante a ação conjunta do feminismo e da pornografia. E o ponto exato onde as duas filosofias se conjugam é o tempo em que vivemos. Aquele em que nós, ex-meninas más, nos tornamos mulheres.