As sociedades de controle e a iminência de um “panóptico global”

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24 Outubro 2014

A sociedade da disciplina teorizada por Michel Foucault se converteu em sociedade do controle, conforme anos mais tarde havia previsto Gilles Deleuze. Nesse novo modelo social o que é importante não é mais a assinatura ou o número que dizem respeito ao indivíduo, mas o código que lhe é correspondente. “O controle é feito por códigos de linguagem numérica. Não mais nos encontramos na dualidade massa-indivíduo que caracterizava a economia de fabricação fordista.

Conforme Deleuze, as pessoas se tornaram ‘divíduos’”, destacou o filósofo norte-americano Timothy Lenoir em sua conferência na manhã de quarta-feira, 23-10-2014. A atividade é integrante da programação do XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU de 21 a 23-10-2014. A reportagem é de Márcia Junges.

Os métodos de controle se tornaram eletrônicos, através de códigos que monitoram estados de afeto, desejo e sentimento, abaixo do nível do indivíduo consciente. Isso é central para as formas de controle que Deleuze imaginou. Trata-se de uma mutação no capitalismo que sai do fordismo e vai para uma modalidade que não focaliza mais tanto a produção, mas compra de produtos acabados. “A fábrica cedeu lugar à corporação global, e nesse cenário o marketing se tornou indispensável”, disse o pesquisador. Retomando outra afirmação de Deleuze em 1990, Lenoir mencionou que a operação dos mercados é o instrumento social de controle e a forma impudente dos nossos “manda chuvas”.

Neurogravação

Nos últimos 25 anos uma série de ferramentas em bioengenharia e neuroengenharia, redes sem fio, analítica de banco de dados em larga escala e tecnologias de vigilância apareceram e conseguem converter indivíduos em um conjunto de ‘divíduos’, gerando a transição da sociedade disciplinar para a de controle deleuziana.

A interface direta entre cérebros e máquinas já acontece, e Lenoir deixa isso evidente em sua exposição. “Somos montagens de ‘divíduos’ para sermos coerentes com esse referencial de pensamento”, acrescentou. Implantes óticos e cocleares (de ouvidos), por exemplo, são uma realidade, e outras formas de implantes neurais também já são feitos para ajudar o aspecto sensorial da existência. “Uma série de desenvolvimentos científicos estão levando essa área a um ponto impensado antigamente”.

Contudo, as mudanças que Lenoir discutiu fundamentalmente começam com o desenvolvimento no final dos anos 1990 de novas técnicas de neurogravação. Até o final dos anos 1980 a teoria principal sobre o cérebro tratava da localização de áreas que estão dedicadas a certas funções cognitivas como a visão. Contudo, é preciso pensar não somente nas mudanças práticas trazidas pela técnica, mas o que a revolução tecnocientífica representa como um todo, observou.

Mente coletiva

Lenoir relembrou que Miguel Nicolelis, o neurocientista brasileiro que pesquisa na Universidade de Duke, EUA, se tornou mundialmente famoso pelos experimentos conduzidos para que um macaco movimente objetos com o comando da mente. Essa técnica demonstra que é possível criar corpos expandidos a partir da interação entre cérebro e máquina. Outra descoberta é que é possível, também, compartilhar estados cerebrais, algo que já se dá em laboratório com experiências realizadas com ratos. O rato que tem somente a experiência da exploração irá passar a cooperar com o rato decodificador do mecanismo, segundo o protocolo colocado em prática por Nicolelis. Com esse conjunto de experiências, que pode ser feito em vários ratos e cobaias em circuito fechado, pode-se falar, inclusive, sobre uma mente coletiva. Há colaboração entre os ratos para que todos façam a mesma coisa, de modo simultâneo.

Simuladores de voo e direção de carros já são ativados pelo impulso cerebral. Extrair imagens da mente também é algo que já é possível realizar. Lenoir compartilhou inúmeras imagens que foram mapeadas a partir do cérebro dos voluntários na pesquisa. Evidentemente, há impasses éticos em todos os experimentos, e no momento da abertura às perguntas, a plateia se mostrou muito incomodada com esses limites, como na questão da subjetividade das pessoas frente ao avanço da tecnociência, e do uso de animais não humanos em pesquisas.

Outro tema abordado foi a descoberta pela optogenética da existência de uma proteína em algas verdes que reage com a luz azul. A proteína é extraída das plantas e, a seguir, é retirado um gene que é preso às células específicas de neurônios. Ao ligar essa luz, íons entram na célula neural de modo que esta dispare. Outro conjunto de proteína atua de forma oposta, quando a luz amarela desativa o neurônio. A partir disso, pesquisam-se que tipo de próteses cerebrais poderiam ser construídas e utilizadas para trazer resultados a enfermidades como o Mal de Parkinson. Conforme Lenoir, “várias intervenções pertinentes e importantes para a devolução da qualidade da vida das pessoas afetadas pela doença estão no horizonte dessas pesquisas”.


Panóptico global

A temática da computação onipresente trouxe outras inquietações e preocupações ao debate. Segundo Lenoir, em breve haverá chips em tudo o que compramos, e todas as coisas serão mapeadas por um código de rastreamento, o IP: “Nos EUA isso já é uma realidade que está chegando aos supermercados via internet”.

Nesse sentido, outro exemplo é a interface gestual portátil através do qual se pode utilizar todo tipo de dados com uma câmara com conexão neurológica. A ideia é se livrar da tela do computador e carregar a máquina dentro do corpo. Será possível atualizar sua passagem aérea através de uma espécie de “sexto sentido”. Empresas norte-americanas como a Mindsign e a NeuroFocus são especialistas em mapear as informações de comportamento de consumo e comercializa-las para fins de marketing e neuromarketing.

“Rastrear, mapear e projetar as coisas sobre outros tipos de superfície. O desejo de fazer com que isso aconteça é avassalador. Levantamentos mostram que 90% as pessoas querem estar online e mapear dados sobre sua saúde, compartilhando-os em seguida”, mencionou Lenoir. E acrescentou: “Sem dúvida é surpreendente que as pessoas queiram divulgar esses dados de si mesmas. Há uma codificação e rastreamento de ‘divíduos’ a serviço do capitalismo digital global. Assim, devemos estar conscientes dos pontos positivos dessas invenções e do perigo de vivermos sob um panóptico global” – uma referência ao conceito de Jerehmy Bentham, retrabalhado por Foucault em Vigiar e Punir.

Thimoty Lenoir concedeu uma entrevista pessoalmente à revista IHU On-Line, que será publicada na próxima edição.

Por sua  vez, o Cadernos IHU ideias publicará a íntegra da conferência de Timothy Lenoir.

Quem é Timothy Lenoir

É professor de História e catedrático do Programa de História e Filosofia da Ciência, autor de A Estratégia da Vida. Teleologia e Mecânica na Biologia Alemã do século XIX (Dordrecht and Boston: D. Reider, 1982); editado como brochura pela University of Chicago Press, 1989, que examina o desenvolvimento das teorias não–darwinianas da evolução, particularmente no contexto germânico durante o século XIX.

Seus outros livros incluem: Política e templo da ciência. Pesquisa e exercício do poder no Império alemão (Frankfurt/Main: Campus Verlag, 1992); Instituindo ciência. A produção cultural das disciplinas científicas (Stanford: Stanford University Press, 1997), um volume que examina a formação de disciplinas e o papel de instituições públicas na construção do conhecimento científico; um volume editado, Inscrevendo ciência: textos científicos e a materialidade da comunicação, publicado na primavera de 1998 pela Stanford Press.

Atualmente pesquisa sobre a introdução de computadores na pesquisa biomédica desde início de 1960 até 1990, particularmente o desenvolvimento de computadores gráficos, tecnologia de visualização médica, o desenvolvimento da realidade virtual e sua aplicação em cirurgia. Com fundos da Fundação Alfred P. Sloan, construiu dois projetos web sobre história da interação humana por computador e sobre história da bioinformática. Lenoir foi membro da Fundação John Simon Guggenheim e por duas vezes membro do Instituto de Estudos Avançados em Berlim. É co–fundador e editor da série da Stanford University Press Escrevendo ciência (Writing Science). Foi nomeado membro emérito [Bing Fellow] por Excelência no Ensino entre 1998–2001.