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26 Fevereiro 2016

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Lucas 13,1-9 que corresponde ao 3° Domingo de Quaresma, ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto.

Eis o texto

 
 James Tissot. Jesus amaldiçoando a figueira. Entre os anos 1886-1894.
Atualmente no Brooklyn Museum, em Nova Iorque.

Uns desconhecidos comunicam a Jesus a notícia da horrível matança de alguns galileus no recinto sagrado do templo. O autor foi, mais uma vez, Pilatos. O que mais os horroriza é que o sangue daqueles homens se tenha misturado com o sangue dos animais que estavam para oferecer a Deus.

Não sabemos por que recorrem a Jesus. Desejam que se solidarize com as vítimas? Querem que lhes explique que horrendo pecado foi cometido para merecer uma morte tão ignominiosa? E se não pecaram, por que Deus permitiu aquela morte sacrílega no Seu próprio templo?

Jesus responde recordando outro acontecimento dramático ocorrido em Jerusalém: a morte de dezoito pessoas esmagadas pela queda de um torreão da muralha próxima da piscina de Siloé. Pois bem, em ambas as situações Jesus faz a mesma afirmação: as vítimas não eram mais pecadoras que outros. E termina Sua intervenção com a mesma advertência: «se não vos converteis, todos perecereis».

A resposta de Jesus faz pensar. Antes de tudo, recusa a crença tradicional de que as desgraças são um castigo de Deus. Jesus não pensa num Deus «justiceiro» que vai castigando os Seus filhos e filhas repartindo aqui ou ali doenças, acidentes ou desgraças, como resposta a Seus pecados.

Depois, muda a perspectiva da situação. Não se detém em elucubrações teóricas sobre a origem última das desgraças, falando da culpa das vítimas ou da vontade de Deus. Volta o Seu olhar para os presentes e confronta-os consigo mesmos: devem escutar nestes acontecimentos a chamada de Deus à conversão e à mudança de vida.

Todavia vivemos abalados pelo trágico terremoto do Haiti. Como ler esta tragédia a partir da atitude de Jesus? Certamente, em primeiro lugar não é perguntar-nos onde está Deus, mas onde estamos nós. A pergunta que pode encaminhar-nos para uma conversão não é “por que Deus permite esta horrível desgraça?”, mas “como nós consentimos que tantos seres humanos vivam na miséria, tão indefesos ante a força da natureza?”.

Ao Deus crucificado não o encontraremos pedindo contas a uma divindade longínqua, mas identificando-nos com as vítimas. Não o descobriremos protestando da Sua indiferença ou negando a Sua existência, mas colaborando de mil formas por mitigar a dor no Haiti e no mundo inteiro. Então, talvez, possamos intuir entre luzes e sombras que Deus está nas vítimas, defendendo Sua dignidade eterna e nos que lutam contra o mal, alentando o seu combate.