23 Junho 2015
"Por exemplo, você não sabe o que é o tolueno." Filiberto Martinetto enviesa o olhar diante da grave falha do interlocutor. "Pois bem, pergunte aos chineses, que o usam tanto."
A reportagem é de Marco Imarisio, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O primeiro empresário chamado a falar diante do Papa Bergoglio lista os piores anos da sua vida, um para cada dedo das mãos calejadas e ainda fortes que trazem os sinais de uma juventude passada no tear. "De 2009 até hoje, eu não salvo nada. Em outubro de 2014, as minhas filhas, que trabalham todas comigo, entraram no escritório. 'Papai, não conseguimos mais levar para a frente, quem sentido tem tudo isso?'."
Filiberto quer ser chamado pelo nome, como exige dos seus empregados, aponta para o pátio da Filmar, a primeira das cinco empresas têxteis do grupo que leva o seu sobrenome, para onde iam e vinham os caminhões das entregas de matéria-prima.
"Se eu fechar o grupo", disse, "talvez continuamos respirando, mas cortaremos o ar de 200 famílias que dependem de nós, e depois de outras 200 que vivem da nossa indução."
As filhas olharam-no no rosto. Não havia nada a acrescentar. Questão fechada, a fábrica continuaria aberta. Ele confessou ao papa a sua surpresa com aquela convocação tão inesperada na Praça Real cheia de gente, ao lado de uma operária que foi demitida, a um jovem agricultor que luta contra o abandono das terras.
A "culpa" é do padre Claudio, um pároco da sua Caselle, que na Cúria contou muitas vezes a história da teimosia de não querer deslocalizar, de não cortar aqui para produzir em terras distantes, apesar de uma faturação em contração e nenhum dividendo desde 2008.
"O meu pai pedreiro e veterano de guerra me ensinou que o pão não se nega a ninguém. Todos comemos menos, mas eu não deixo os meus trabalhadores em casa."
Martinetto se define como um artesão um pouco crescido, não por causa dos seus 81 anos, mas é um industrial católico que mantém exposta no escritório a frase do laico Luigi Einaudi sobre o gosto e sobre o orgulho de ver a própria empresa prosperar, inspirar confiança, ampliar as instalações que constituem uma alavanca de progresso igualmente poderosa quanto o lucro. "Em suma", ri, "sou um perfeito produto de síntese."
Certamente, no século XIX, esta era uma região anticlerical, e Turim também era demoníaca, como lembrou o Papa Francisco no seu discurso de improviso feito na Basílica de Maria Auxiliadora, não muito longe da antiga sede do Parlamento, onde Cavour pronunciou o discurso da "Livre Igreja em livre Estado", convidando o Vaticano a se ocupar apenas do poder temporal.
Mas esta também é a cidade dos Santos Sociais, de Dom Bosco, fundador dos salesianos, do qual se celebra o bicentenário do nascimento, passando pelo padre Giuseppe Cottolengo, fundador do instituto para crianças carentes, aonde, no domingo à tarde, o Papa Francisco quis fazer uma visita privada.
E, hoje, de Ernesto Olivero, que, antes de fundar aquele Sermig [Servizio Missionario Giovani], exemplo de acolhida sustentável de migrantes e deserdados, era empregado de banco.
"Turim é sempre laica, mas ele é um jesuíta", dizia nesse domingo uma senhora durante o encontro dos jovens, como que justificando o entusiasmo generalizado com a visita do pontífice, acolhido com uma participação que vai além dos dados numéricos da Praça Vittorio tão lotada para a missa da manhã a ponto de a multidão ter que dobrar a Via Po e mais além, até a Praça Castello.
Os rótulos, incluindo o de papa rockstar, ou "de esquerda", podem servir, talvez, para explicar as bandeiras da FIOM [Federação dos Empregados Operários Metalúrgicos, na sigla em italiano] entre as muitas que ondulavam nesse domingo, ou as camisetas "Dio Che" com um Bergoglio Che Guevara que eram vendidas nas barracas.
Mas não a popularidade de um pontífice ainda "novo" em uma grande cidade do Norte italiano, onde por um longo tempo o catolicismo foi conjugado como doutrina social. As grandes conglomerações já haviam ocorrido para as últimas visitas do Papa Wojtyla. O que impressionava nesse domingo era a presença de pessoas laicas e ateus conclamados, atraídos pela curiosidade de um pontífice que, também desta vez, falou de trabalho e solidariedade com uma clareza de palavras e tons que não permitem compromissos.
Há escolhas a serem feitas, porque é justo fazê-las, como repete continuamente o senhor Filiberto com o seu rosto antigo no qual não se lê uma ruga de cinismo. No entanto, no fim desse dia, o mistério do Santo Sudário permanece como tal, mas conseguimos resolver o do tolueno, por uma gentil cortesia.
"É um solvente químico cancerígeno usado pelos chineses para tratar o velcro, a película que se cola nele. Eles a vendem a um quarto do meu preço. Eu tive que parar as máquinas, tinha colocado muito dinheiro nelas. Mas eu não faço a minha gente respirar essas coisas."