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21 Junho 2015

O Papa afirma ter realizado uma "“reflexão simultaneamente jubilosa e dramática”, lembra Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, em artigo publicada por Famiglia Cristiana, 18-06-2015. Mas, "é a alegria que prevalece - e o afirmo como leitor não crente – embora os pressupostos sejam profundamente dolorosos. É a alegria de poder crer numa mudança revolucionária, e numa nova humanidade", escreve Petrini.

E recordando uma frase atribuída a São Francisco, "começai por fazer o que é necessário, depois o que é possível. E de improviso vos surpreendereis a fazer o impossível” ele conclui: "Nada nos deve amedrontar nesta tarefa à qual somos chamados, os que cremos ou os que não creem".

A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

O Papa Francisco, no final da encíclica Laudato si', antes de propor as duas preces conclusivas (belíssima e epocal a Prece pela nossa terra, no. 246), afirma ter realizado uma “reflexão simultaneamente jubilosa e dramática”. Sinto desejo de dizer, no entanto, que é a alegria que prevalece – e o afirmo como leitor não crente – embora os pressupostos sejam profundamente dolorosos. É a alegria de poder crer numa mudança revolucionária, e numa nova humanidade.

Esta encíclica, de fato, é antes de tudo uma dura, mas objetiva tomada de consciência sobre a realidade de nossa casa comum, a terra com a sua Criação. É lucidíssima na análise de quanto dano temos feito às coisas e às pessoas empostando os nossos modelos de desenvolvimento de maneira insensata, pela qual temos deixado que nossa política subjazesse à economia e a economia à tecnologia. Em sua primeira parte o escrito é uma perfeita síntese, altamente educativa, da situação na qual se encontra o mundo: poluição e mudança climática, a questão da água (a acusação contra quem privatiza este recurso é sem apelação; cf. n. 30), a perda de biodiversidade com as consequências da deterioração da qualidade da vida humana, a degradação social, o difundir-se da iniquidade num mar de indiferença e de presumida impotência.

Um quadro que não deixa espaço a dúvidas, nem mesmo científicas: “Sobre muitas questões concretas a Igreja não tem motivo de propor uma parábola definitiva e entende que deve escutar e promover um diálogo honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opinião. Basta, todavia, encarar a realidade com sinceridade para ver que existe uma grande deterioração da nossa casa comum” (n. 61). Ele nos fala da realidade e da realidade parte para as considerações subsequentes. (...)

A novidade está principalmente na mensagem realmente universal da qual Francisco se faz portador: ele pretende falar também a quem professa outra fé e aos que não creem, dirige-se a todos. (...) Na exortação a cultivar e proteger, além de um epocal senso filosófico e teológico que está todo na definição de “ecologia integral”, se entreveem também algumas prementes questões que podem ser definidas como políticas: têm tal explosividade que nos impelem, sem muitas possibilidades de escolha, a uma mudança radical que deverá renovar tanto o homem como as coisas feitas pelo homem.

No texto de Francisco não faltam referências claríssimas e transparentes a um sistema tecno-financeiro que não funciona e que demonstra a cada dia sua incompatibilidade com uma sociedade harmônica e justa.

Não só, mas a centralidade da política, entendida como a capacidade de desenhar o mundo que queremos e de fazer as escolhas necessárias para realizá-lo, é reafirmada pelo Santo Padre precisamente ante um momento histórico no qual a busca quase espasmódica do lucro impede que os governantes tomem decisões de longo alcance, capazes de imaginar um futuro além dos prazos eleitorais.

A encíclica nos solicita partirmos dos recursos, da terra, da água, da agricultura e do alimento, portanto de um sopro ecológico que, no entanto, inclui imediatamente também o homem e não pode tolerar as injustiças que perpetramos, tanto à natureza quanto aos nossos irmãos e irmãs. Uma nova ecologia que parte de muito, muito longe, também dos textos bíblicos e que hoje requer de nós uma “conversão” (n. 216).

Creio que esta encíclica descontentará muitos poderosos (por exemplo, com a referência às monoculturas, ao poder das multinacionais do alimento e das sementes, a reflexão sobre os OGM), e por isso talvez será asperamente criticada por alguns, mas é quanto uma multidão enorme de seres humanos pedia e esperava imprimir uma nova força e luz sobre a estrada da mudança.

Retornando a São Francisco, há uma frase a ele atribuída que me parece um fechamento perfeito para todo raciocínio em torno deste escrito do Santo Padre: “Começai por fazer o que é necessário, depois o que é possível. E de improviso vos surpreendereis a fazer o impossível”. Nada nos deve amedrontar nesta tarefa à qual somos chamados, os que cremos ou os que não creem.