''Chega de escândalos. Agora a Igreja não tem mais medo da transparência.'' Entrevista com Walter Kasper

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10 Março 2015

Ele conta que, apesar de não ser um especialista em coisas financeiras, pode dizer sem problemas que a decisão do Vaticano de ir rumo à meta de uma transparência mais ampla e completa e da troca de informações para fins fiscais "não é apenas importante, mas também é um passo decisivo porque, caso contrário, não somos críveis".

O cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, um dos purpurados mais próximos do Papa Francisco, acredita que a palavra transparência não é secundária. "É um elemento-chave, se quisermos viver neste mundo e não em outro lugar", diz.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 08-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, a decisão vem a partir de um novo impulso posto em campo sobre as finanças vaticanas por parte de Francisco?

Certamente, esse passo positivo se deve a ele. Mas não nos esqueçamos de que Bento XVI também fez muito antes de renunciar ao pontificado. E aqueles que o ajudavam no governo da Igreja. Certamente, Jorge Mario Bergoglio trouxe uma coragem renovada, e todos devemos ser-lhe gratos por isso.

O IOR, até poucos tempo atrás – e, mais em geral, as finanças vaticanas – era um lugar obscuro, inescrutável, às vezes fonte de escândalos.

Para julgar, é preciso conhecer. E, mesmo assim, quando se ouvia falar do IOR apenas de um certo modo, teria sido oportuno conhecer melhor. Por isso, considero que a transparência é necessária. Ela tira as sombras e permite julgar o que é a realidade dos fatos. Não é preciso ter medo de tudo isso.

Até antes do Concílio, a Igreja fazia muita apologética. Defendia-se e custava a propor. Mas ainda hoje muitas vezes é assim, e sobre as finanças, ao menos até poucos meses atrás, o leitmotiv era o mesmo. Por que tanto medo?

Não acredito que se trate, aqui, de uma visão pré-conciliar, mas sim de uma mudança de visão à qual a Igreja chegou um pouco mais atrasada do que as outras instituições seculares. São 10, 20 anos desde que vem dos bancos um impulso maior à transparência. A Igreja compreendeu tudo um pouco atrasada, mas o importante é que hoje ela compreendeu que esse desenvolvimento natural também faz parte do seu percurso, é uma estrada que ela também não pode evitar.

O senhor, há pouco tempo, publicou pela editora Queriniana o livro Papa Francesco. La rivoluzione della tenerezza e dell’amore [Papa Francisco. A revolução da ternura e do amor]. Das finanças à eclesiologia, até a relação entre doutrina e práxis, o senhor acredita que Francisco é um revolucionário?

Eu acho que ele é um papa corajoso e confiante no mundo. Ele não tem desconfiança com relação ao mundo e pede que toda a Igreja não a tenha. Ele pede que ela se abra ao século para amar a pessoa toda inteira. Fechamentos preconcebidos não servem a ninguém. Portanto, eu diria que são duas as palavras que mais bem o caracterizam: coragem e confiança.

Mas nem tudo é bom, assim como nem tudo é lícito para a Igreja. Como conjugar o impulso a se abrir com essa constatação?

Nem tudo é bom no mundo. Assim como nem tudo em nós é bom. Mas isso não significa que, então, seja lícito se encastelar, fechar-se. As pessoas devem ver uma atitude positiva da Igreja em relação a elas. Francisco é bispo de Roma, que conhece as pessoas. E também os seus pequenos ou grandes problemas. É um pastor verdadeiro, que tem confiança nas pessoas, embora as situações nas quais a humanidade está imersa às vezes sejam difíceis e complexas.

Em uma entrevista aos jornalistas Tornielli e Galeazzi (Questa economia uccide [Esta economia mata], Ed. Piemme), o papa criticou o atual sistema financeiro que premia poucos em detrimento de muitos, especialmente dos pobres. O impulso para renovar as finanças internas também vem da necessidade de dar testemunho de como se deveria fazer?

O impulso vem de uma visão realista. Em relação à realidade assim como ela é, além de recordar o que não está certo nela, ele leva amor e esperança. E pede que todos ajam assim, lembrando que não é tanto com o dinheiro que somos felizes, mas se soubermos oferecer amor. Certamente, a crítica a um uso egoísta do dinheiro é poderosa e não deve ser esquecida. O papa sabe muito bem que, por exemplo, para nos limitar aos católicos, dois terços deles são pobres. Vivem no Sul do mundo, com pouco ou nada, mas são irmãos nossos. É preciso agir por eles. E a transparência das finanças vaticanas é um início, mas não é pouco.