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18 Dezembro 2014

No dia de aniversário do Papa Francisco, no dia 17 de dezembro, alegre com o tango dançado na Praça São Pedro por milhares de “aficionados”, o “L‘Osservatore Romano” publicou uma página de um livro saído na Argentina, ao qual Jorge Maria Bergoglio tem particular afeição e em cuja confecção ele mesmo voluntariamente colaborou.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no seu blog Settimo Cielo, 17-12-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

Intitulado “Aquele Francisco”, escrito por Javier Cámara e Sebastián Pfaffen, dois jornalistas de Córdoba e editado por Raíz de Dios, uma editora daquela mesma cidade, o livro reconstitui acuradamente e com grande quantidade de testemunhos diretos os dois períodos cruciais da atual vida do Papa, transcorridos precisamente em Córdoba: os dois anos do noviciado, entre 1958 e 1960 e, sobretudo os outros dois anos em que ele foi liberado de todo encargo na Companhia de Jesus, entre 1990 e 1992, naquela espécie de exílio que ele hoje gosta de definir como “purificação interior”.

Informado em 2013 pelo arcebispo de Córdoba, em visita a Roma, que os dois jornalistas estavam escrevendo um livro sobre aquele duplo período de sua vida, o Papa Francisco os chamou ao telefone não uma, porém várias vezes e não reduziu mais a pressa. Iniciou com eles uma rápida correspondência via email. Foi fundo em suas recordações e transformou o livro numa espécie de autobiografia cordobense, com numerosas opiniões suas e contos entre aspas. E há pelo menos dois pontos que despertam a curiosidade neste livro.

O primeiro tem a ver com os reais motivos que provocaram a queda em desgraça de Bergoglio dentro da Companhia de Jesus, depois que nos anos setenta tinha sido ele o número um argentino. A colocá-lo em exílio na Argentina foi um jesuíta que o conhecia muito de perto, o padre Victor Zorzin, que tinha sido “sócio”, isto é, vice de Bergoglio, quando este chefiava a província argentina, e que em 1986 se tornara ele o provincial, permanecendo no cargo até 1991.

Entre Zorzin e Bergoglio havia forte desacordo sobre os métodos de governo, como também entre Bergoglio e o sucessor de Zorzin, o padre Ignacio García-Mata, provincial de 1991 a 1997. Tal desacordo se concretizou – como documentam os autores do livro – numa martelada “campanha de descrédito” contra Bergoglio, que encontrou sensível em Roma o próprio prepósito geral da Companhia de Jesus, na época o holandês Peter Hans Kolvenbach.

Foi feito circular a fala, - como atesta entre outros o padre Ángel Rossi, atual superior da residência cordobense para a qual Bergoglio foi exilado, - que aquele ex-provincial dos jesuítas, antes “tão brilhante”, tinha sido enviado ao isolamento em Córdoba, “porque enfermo, louco”.

Aquele que em 1979 substituíra Bergoglio como provincial permanecendo-lhe amigo, o padre Andrés Swinnen, fornece, no entanto, hoje uma explicação mais substancial. A “culpa” de Bergoglio foi a de continuar exercendo uma forte liderança pessoal sobre uma fração da Companhia também depois que não tinha mais papéis de dirigente. Tinha-o tornado antes Reitor do Colégio Máximo de São Miguel, depois o havia enviado a fazer um doutorado na Alemanha, em Frankfurt, de onde, no entanto, retornou rapidíssimo à Argentina, e depois ainda o havia transferido para ensinar teologia no Colégio de El Salvador. No entanto continuava por toda parte a agir – diz o padre Swinnen – “com um superior paralelo”, influindo sobre muitos jesuítas, sobretudo jovens, numa década na qual mais de uma centena deles deixaram a ordem e o sacerdócio. E também este êxodo lhe foi imputado, não obstante “a maior parte dos que saíram pertencesse ao grupo daqueles que não estavam do lado de Bergoglio, mas antes quisessem libertar-se dele”.

Outra revelação interessante do livro refere-se ao que Bergoglio escreveu durante o biênio de exílio em Córdoba.

Naquela cidade Bergoglio conta ter escrito dois livros: “Reflexões sobre esperança” e principalmente “Corrupção e pecado”, este último pensado a partir de um episódio dramático de 1990, o assassinato de um jovem de dezessete anos por pessoas expoentes da sociedade. O tema da “corrupção” é um tema que retorna continuamente na pregação de Francisco. Mas, há também outro escrito seu do período de Córdoba que reaparece com força no seu magistério de Papa.

“Em Córdoba – revela Bergoglio em “Aquele Francisco’ – voltei a estudar para ver se podia avançar um pouco na elaboração da tese de doutorado sobre Romano Guardini. Não consegui ultimá-la, mas aquele estudo me ajudou muito para o que me aconteceu depois, incluída a elaboração por escrito da exortação apostólica “Evangelii gaudium cuja secção sobre critérios sociais é toda retomada de minha tese sobre Romano Guardini”.

E é precisamente assim. Na “Evangelii Gaudium” há uma citação de Guardini, do seu ensaio “O fim da época moderna”. E esta se encontra no interior da secção (nn. 217-237), na qual o Papa Francisco ilustra os quatro critérios que a seu juízo devem promover o bem comum e a paz social. 1. O tempo é superior ao espaço; 2. A unidade prevalece sobre o conflito; 3. A realidade é mais importante do que a idéia; 4. O todo é superior à parte.

Também estes critérios estão continuamente presentes na visão do Papa Francisco. Não só na sua pregação, mas também no seu modo de governar a Igreja.