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15 Dezembro 2014

Dois milênios depois de seu surgimento, o cristianismo se fez presente em todos os continentes, transformou culturas e foi integrado a muitas delas, ajudando a moldar o mundo da forma como ele é hoje. Apesar do tempo transcorrido, porém, a doutrina, em suas várias vertentes - o catolicismo, a ortodoxia oriental e o protestantismo - continua a se disseminar, especialmente no Hemisfério Sul.

A reportagem é de Paulo Brito, publicada pelo jornal Valor, 12-12-2014.

Pesquisa sobre religiões no mundo, publicada em 2011 pelo Pew Research Center, confirmou que o cristianismo continua sendo o maior grupo religioso do planeta: são 2,2 bilhões de pessoas, praticamente 1/3 da população mundial. Metade são católicos, perto de 37% são protestantes (incluindo-se os anglicanos) e 12% são ortodoxos, representados principalmente por gregos e russos. O restante - mórmons, testemunhas de Jeová e cientistas cristãos - somam 1%.

O estudo do Pew Research Center mostra que, em 1910, cerca de 2/3 dos cristãos estavam na Europa, mas isso mudou: o crescimento da população e as migrações transformaram esse cenário de tal modo que, cem anos depois, em 2010, a Europa contava com apenas 25,9% dos cristãos, 36,8% estavam nas Américas e 23,6%, na África - continente que em 1910 era inexpressivo, com apenas 1,4% dos cristãos. Essas estatísticas apontam o Brasil como um destaque: é o segundo colocado em número de cristãos, com 175,7 milhões de fiéis, perdendo apenas para os EUA, que têm 246,7 milhões. Na América Latina e Caribe, o total chegava a 531 milhões de cristãos em 2010.

O trajeto dessa expansão - de uma dúzia de crentes na Palestina até o número atual - é o tema do livro "O Mundo Cristão: uma História Global" (Objetiva, 235 páginas, tradução de Daniel Estill), escrito pelo pastor luterano e pesquisador americano Martin Marty, hoje com 86 anos, dos quais 35 como professor na Divinity School da Universidade de Chicago. Ele é considerado um dos mais competentes especialistas em história da religião em todo o mundo. O livro é, segundo o autor, apenas um panorama, dada a dimensão inviável de uma obra que pretendesse enquadrar por completo uma história de 20 séculos.

"Muitos dos livros que escrevi foram mais difíceis do que este. Dei aulas sobre a história da igreja cristã durante 40 anos e aprendi muito sobre o amplo contexto internacional - me especializei em Estados Unidos e Europa Ocidental -, ao editar cinco volumes sobre o fundamentalismo no mundo. Claro que todos os livros são difíceis de escrever, porque escrever dá trabalho, mas é um trabalho prazeroso e compensador", disse Marty ao Valor.

Em seu livro, Marty considera as experiências cristãs em um ambiente intercontinental, de alcance global, que, como diz na introdução, "ajudará a fundamentar a compreensão do passado e as abordagens futuras dos fiéis de todo e qualquer lugar".

Na passagem sobre "A Igreja estabelecida e ameaçada", encontra-se uma menção ao que ocorreu no princípio do século XIX, quando as filosofias e os movimentos seculares na Europa ganharam seguidores de influência na América do Sul, sobretudo no Brasil, que privaram o clero de muitos de seus direitos e privilégios. Já no século XX, a disseminação da Teologia da Libertação é colocada no contexto de posicionamentos antimarxistas do Vaticano que terminaram por induzir uma certa transferência do público católico para o protestantismo. "Os protestantes também estavam presentes há séculos [nas Américas do Sul e Central, no Caribe e no México]. Por exemplo, "alemães que imigraram para a Argentina e o Brasil criaram uma presença luterana duradoura". Marty também observa que "figuras políticas liberais, reconhecendo que deveriam dar atenção às necessidades do espírito, favoreceram explicitamente o protestantismo no Brasil, na Venezuela e na Guatemala nas décadas finais do século XIX".

A cristandade tem sido um grande agente do crescimento econômico, segundo Marty. "Em parte, porque motiva as pessoas a servirem a Deus respeitando o próximo, planejando, trabalhando, sendo responsáveis e vendo a si próprias como parceiras, com Deus."

Marty também assinala conexões entre a cristandade e o desenvolvimento da política e das leis no mundo ocidental. "Há correlações. O Iluminismo do século XVIII na Europa e na América do Norte trouxe princípios de igualdade e justiça, por exemplo, os quais a cristandade não havia adotado muito bem por si mesma. Assim, não aboliu a escravidão em seu mundo, até encarar e adotar as modernas ideias de igualdade que vieram com o Iluminismo."

Nas pesquisas que fez para escrever "O Mundo Cristão", a descoberta mais importante, segundo Marty, foi a trajetória da cristandade em direção ao sul. "Isso significa que, enquanto ela se mantém estagnada ou decrescendo no Hemisfério Norte, cresce no sul e em outros lugares onde já havia dominado." Embora registre essa dinâmica, Marty não se permite dizer o que poderá ocorrer no futuro: "Como historiador, não devo arriscar sobre o futuro, mas minha expectativa é que o crescimento do cristianismo no sul continue a superar o do norte e que em seus antigos territórios a cristandade enfrente novos problemas, com os quais está apenas aprendendo a lidar".

Se tivesse que reescrever "O Mundo Cristão" (lançado nos Estados Unidos em 2008), Marty não lhe daria forma muito diferente, mas "tentaria fazer mais justiça ao mundo dos pobres, dos oprimidos, e trabalharia mais para retratar a vida diária, a luta e tudo o mais dos cristãos no mundo não ocidental. Ocidental, aqui, se refere à herança europeia que ficou no norte, na Euroamérica".

A maior contribuição da cristandade para o mundo, segundo Marty, é seu potencial, sua força, "graças aos profetas hebreus e às pessoas proféticas, que, continuamente, têm conquistado a libertação e lutado por ela. Mas ainda há muito caminho pela frente".

O livro está dividido em episódios, cada um dedicado a uma região. O ponto de partida são os primórdios judaicos, prosseguindo depois pela Ásia, África, Europa, América Latina, América do Norte, e finalizando com o que ele chama de "episódios inacabados" - movimentos que ocorrem ainda hoje e que continuarão transformando o perfil da cristandade.

Marty nasceu em West Point, Nebraska, em fevereiro de 1928, é casado com a musicista Harriet Marty e tem sete filhos naturais, além de dois adotivos. Ao longo de sua carreira, escreveu perto de 5 mil artigos, mais de 60 livros, aparece como coautor de centenas de outros e continua pesquisando, dando palestras e aulas.