Inclinações e silêncios. O Papa conquista os corações de Istambul

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01 Dezembro 2014

A segunda jornada de Francisco na Turquia é contada por duas imagens simbólicas.

A primeira: o Papa dentro da Mesquita Azul de Istambul está em silêncio, sem sapatos, com a cabeça inclinada e as mãos juntas, junto ao Gran Mufti Rahmi Yaran que reza recitando palavras em língua árabe, com as palmas das mãos voltadas para o céu. Se há dois dias Bergoglio havia convidado os fiéis a serem solidários contra o fundamentalismo e o terrorismo, ontem aquele momento de “silenciosa adoração”, como a definiu o porta-voz vaticano Padre Federico Lombardi, ofereceu um exemplo fortemente evocador desta amizade.

A segunda: o Papa que faz uma profunda inclinação diante do Patriarca ecumênico de Constantinopla Bartolomeu, e pede a sua bênção. O Patriarca, por sua vez, lhe beija a cabeça. Duas imagens, dois gestos de fraternidade.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 30-11-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

De manhã, quando o Mufti e Bergoglio chegaram diante do “mirhab”, a escadaria com o nicho que indica a direção de Meca, o dignitário islâmico explicou primeiro o significado do lugar, e então convidou o Pontífice a um momento de recolhimento. E sob as volutas da mesquita Sultan Ahmet, chamada Mesquita Azul pelas pilastras de cerâmica turquesa que revestem as paredes da cúpula, Francisco disse: “Não só devemos glorificar e louvar a Deus, mas devemos também adorá-lo. Eis a primeira coisa”.

O gesto do Papa argentino não é inédito. Acontecera a mesma coisa aos 30 de novembro de 2006, com Bento XVI. Então foram dois minutos destinados a fechar definitivamente polêmicas e instrumentalizações seguidas ao discurso de Ratisbona. O Papa Ratzinger tinha os olhos semicerrados e rezava em silêncio, com a face distendida, movendo de tanto em tanto, quase imperceptivelmente, os lábios. O Mufti de então havia dito ao Papa: “Aqui a gente para a fim de rezar para adquirir serenidade”. Depois havia começado uma oração em voz alta, em árabe. Bento então havia fechado os olhos, e unindo os braços se recolhera em prece. Enfim, em sinal de respeito, havia inclinado levemente a cabeça em direção do nicho, e havia dito ao Mufti: “Obrigado por este momento de prece”. “O Papa permaneceu em meditação e certamente dirigiu a Deus o seu pensamento”, havia confessado então o padre Lombardi. O cotidiano “Millihyet”, um dos mais difundidos da Turquia, havia intitulado a edição on line daquela tarde: “Como um muçulmano”.

A mesma imagem, oito anos após, relança também visivelmente aquele respeito recíproco e aquela amizade entre fiéis de fé diversa, distante anos luz das guerras de religião e dos conflitos de civilizações. Após a visita à Mesquita Azul, o Papa Bergoglio se deslocou de automóvel ao próximo museu de Santa Sofia. A grande basílica bizantina, transformada em mesquita por Maomé II, desde 1935, por vontade do fundador da República Atatürk se tornou um museu.

Ao entardecer, vigília da festa de santo André, o Papa atravessou o limiar do Fanar, a sede do patriarcado ecumênico. Bartolomeu acolheu-o com amizade e em sua saudação solicitou” a intercessão dos Padres da Igreja” para se possa reencontrar a unidade como no primeiro milênio”. Francisco falou da alegria de encontrarem-se juntos confessando a fé em Cristo. E antes de sair da igreja se curvou em religioso silêncio ante o Patriarca para ser abençoado.

Há expectativa sobre o que dirão Francisco e Bartolomeu. Ontem o Patriarca fez aceno à unidade vivenciada até o cisma do Oriente, em 1054. Há anos, o então cardeal Ratzinger havia dito a propósito que, ao fazer a unidade, a Igreja ortodoxa e os católicos não teriam solicitado nada além de quanto tinha sido formulado e vivenciado conjuntamente no primeiro milênio.