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Por: Jonas | 06 Novembro 2014

"Praticando a máxima coerência é a maneira como eu acredito que o PODEMOS poderá alcançar o poder político e, o que é mais importante e difícil, exercê-lo a favor das classes populares, da grande maioria social. O desafio é enorme, mas factível”, escreve José López, em artigo publicado por Rebelión, 04-11-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Segundo uma pesquisa surgida recentemente no jornal El País, PODEMOS seria o partido político mais votado, ainda que, no momento, seguido de perto pelo PSOE. Embora seja necessário ter muita precaução na hora de confiar nas pesquisas, o que parece bastante claro é que a possibilidade de que a nova formação PODEMOS se torne a primeira força política da Espanha é cada vez maior. Mesmo assim, nunca se deve confiar, é preciso continuar avançando na intenção de voto até vencer as eleições gerais (o grande objetivo a curto prazo) por goleada. O primeiro desafio do PODEMOS é alcançar o poder político com um amplo apoio cidadão.

Apesar do colapso do regime de 78 estar lhe ajudando muito (segundo tal pesquisa muita gente apoiaria PODEMOS, sobretudo como forma de punir o PPSOE), as coisas serão cada vez mais difíceis. O objetivo não deve ser apenas vencer, mas, sim, vencer para mudar radicalmente as coisas. Para isso, as pessoas devem votar no PODEMOS não apenas para punir os partidos da casta, mas também porque acreditam que é possível mudar as coisas. Também é necessário convencer, é preciso procurar a colaboração ativa da maioria social para mudar a sociedade. A Revolução social só será possível se as pessoas participarem massiva e ativamente dela. A luta ideológica se intensificará notavelmente nos próximos meses. A casta não ficará de braços cruzados. Mais do que nunca PODEMOS deve se cuidar para não cometer erros, pois qualquer erro (por pequeno que seja) será aproveitado ao máximo por seus inimigos.

Mesmo assim, em caso de cometer erros acredito que é imprescindível que PODEMOS os reconheça abertamente e os corrija o quanto antes. Esta nova formação política deve se diferenciar, tanto pela questão de fundo como pelas formas, tanto pelo que disser como pela maneira de dizer e, sobretudo, pelo que fizer.

O mais importante é que as pessoas vejam que aqueles fazem parte deste partido são cidadãos normais com as melhores intenções, imperfeitos, mas com clara vontade de fazer as coisas bem e beneficiar a maioria social. Cidadãos normais e indignados, mas que também estão respaldados por pessoas preparadas para governar.

As pessoas têm que ver que por trás dos porta-vozes há especialistas que, desde há certo tempo, propõem outras políticas. Cedo ou tarde, estes especialistas deverão falar com os cidadãos. PODEMOS deve transmitir a imagem de que está preparado para assumir responsabilidades de governo. Fazer política não significa saber de tudo, significa assumir o máximo protagonismo possível naquilo que nos diz respeito, e também saber ser rodeado por aquelas pessoas que possuem conhecimentos técnicos necessários para realizar certo programa político. As pessoas precisam ver o PODEMOS, insisto, como composto por cidadãos normais bem-intencionados, rodeados por técnicos preparados. Assim que o PODEMOS termine de se estruturar internamente, também precisará dar visibilidade pública para esses técnicos. A casta irá procurar de todas as formas os meios possíveis para combater o PODEMOS, apresentando-o diante da opinião pública como bem-intencionado (se não restar outro remédio, uma vez que a estratégia de demonização não funcionou), mas não preparado, com um programa político irrealizável. É quase o único cartucho que resta para dispararem. A estratégia na luta política deve se readaptar continuamente em função dos próprios erros ou êxitos, mas também em função da estratégia do inimigo.

O mais importante é conquistar a confiança da maioria dos cidadãos, que está farta de corrupção, de cortes, de sem-vergonhices, de enganos, de traições,... Uma maioria cidadã, não esqueçamos, que em geral desconfia muito dos políticos, o que é compreensível. Isto quer dizer que PODEMOS deve transmitir credibilidade (de que deseja e pode mudar as coisas), pois qualquer indício de que se torne mais um partido da casta pode ser mortal para esta formação. Tão rápido como está subindo, pode cair, caso os cidadãos comecem a ver coisas semelhantes às ocorridas com os partidos “tradicionais”. As pessoas (e não apenas a casta) olharão com a lupa o que o PODEMOS disser ou fizer. Deste partido será muito mais exigido do que do restante. Acredito que seus líderes estão perfeitamente conscientes desse fato.

Tudo isso significa que para vencer o restante dos partidos, inevitavelmente, é preciso se parecer com eles em algumas coisas (pois, como bem dizem Pablo Iglesias e seus colaboradores mais imediatos, as condições do jogo político lhes são impostas exteriormente), mas também é absolutamente imprescindível se diferenciar deles o quanto for possível. Seus porta-vozes precisam, além de dizer coisas diferentes, falar de maneira diferente, devem sempre buscar o debate ideológico face a face, de igual para igual, com seus inimigos (com a diferença que estes sabem que não possuem razão e temem por isso), devem ser sempre escrupulosamente respeitosos com todos, devem praticar a humildade (mas sem complexos), devem se submeter sempre ao controle das bases, dos cidadãos. Nunca se deve cair na arrogância, nem na autocomplacência. Porém, além do importante trabalho dos porta-vozes, os círculos possuem um papel fundamental a desempenhar, tanto para controlar seus líderes, para que estes não sintam perigosas tentações, para que não acabem traindo as bases, os cidadãos que confiam neles, como para exercer um trabalho de contato direto e contínuo com as pessoas, nos bairros, nos povoados, para explicar seu programa, para ir recrutando mais e mais cidadãos, ao longo do país. Diante da propaganda anti-PODEMOS que, sem dúvida, vai recrudescer, os círculos podem desempenhar uma grande trabalho para combatê-la. O trabalho dos porta-vozes deve ser complementado com o dos círculos.

Contudo, para tudo isso, primeiro é absolutamente imprescindível refinar e concretizar o programa político em tudo o que for possível. Já é necessário pensar na séria possibilidade de que PODEMOS governe este país. A responsabilidade é enorme. Não apenas seu programa deve estar bem afinado, como também deverá ser feito um enorme trabalho pedagógico para explicá-lo, para fazer com que as pessoas vejam que aquilo que é defendido é possível, é real. Tal trabalho deve ser realizado tanto pelos porta-vozes nos grandes meios de comunicação (convidando o restante dos partidos a debater sobre as medidas propostas, desafiando a todos eles para que expliquem por que segundo eles são irrealizáveis), como pelos círculos organizados nos bairros e nos povoados, para que as pessoas tenham a oportunidade de se desintoxicar da desinformação existente (que, sem dúvidas, aumentará muito nos próximos tempos, na medida em que nos aproximarmos das disputas eleitorais). Tal programa terá que estabelecer objetivos em diferentes prazos: em curto, médio e longo prazo. As pessoas devem ter clareza de que não será possível arrumar tudo de uma vez. É importante não criar expectativas excessivas, que se não cumpridas em curto prazo, poderia fazer com que as pessoas que apoiam PODEMOS, logo o abandonassem.

Terão coisas que poderão ser feitas rápido, em um mandato, mas outras não. Será necessário deixar para mais adiante certos objetivos mais ambiciosos (como começar a superar o capitalismo). Antes de convencer os cidadãos sobre a necessidade de superar o atual modelo econômico, será necessário, entre outras coisas, implantar meios de comunicação livres, democráticos, controlados pelo povo, para que a verdade possa abrir caminho, para que todos os cidadãos possam começar a se liberar do pensamento único capitalista, incrustado em suas mentes durante décadas de monopólio oligárquico. Se as pessoas começam a perceber que existem políticas alternativas (ainda que seja apenas, no momento, para superar o neoliberalismo), então também poderão começar a ver que outro sistema alternativo é possível. A superação do neoliberalismo (que foi vendido para as massas como a única alternativa) abrirá as portas para a superação do próprio capitalismo (que também foi vendido como o único sistema possível).

Uma vez superado o derrotismo, o pensamento único, poderá ser iniciada uma dinâmica que leve até as últimas consequências a ideia de que há alternativas. A sociedade poderá começar a experimentar livremente novas formas de organização, sempre que o povo ostentar a todo o momento o poder (para o qual será preciso assegurar, entre outras coisas, o controle do poder militar, o distanciamento do fantasma dos golpes de Estado, assim como passos decisivos para controlar a economia). Mudando na prática (ainda que seja apenas um pouco, inicialmente), as pessoas se convencerão de que a mudança profunda é (além de necessária) possível. A mudança superficial, em curto prazo, abrirá as portas para a mudança radical, de raiz, em maior prazo. Porém, será preciso atravessar estas portas e se dotar do veículo adequado para isso! Tal veículo não pode ser outro a não ser a autêntica democracia, desenvolvida continuamente e levada até as últimas consequências e até todos os espaços da sociedade, especialmente a economia.

Quando PODEMOS alcançar o poder político, será prioritário um grande resgate cidadão para que as pessoas comecem a ver o quanto antes as mudanças significativas em suas vidas cotidianas (fim dos despejos, ajudas às famílias com problemas de subsistência, medidas para fomentar o pleno emprego, parar os cortes, desfazer as contrarreformas, recuperação do Estado de bem-estar,...). Ao mesmo tempo, necessitará pensar um novo processo constituinte, com a finalidade de estabelecer uma democracia que mereça tal nome. Um processo em que o povo tenha o máximo protagonismo possível. É imprescindível realizar profundas mudanças estruturais no sistema político, para que o poder seja verdadeiramente do povo. A Revolução social será um longo processo, em que primeiramente é imprescindível construir a infraestrutura necessária, ou seja, a democracia real, verdadeiramente representativa e muito mais participativa, completada pela democracia direta já, onde for possível, dando progressivamente mais prioridade para esta última. Tal infraestrutura deveria ir se aperfeiçoando com o tempo. O desenvolvimento democrático deve ser dinâmico, a democracia deve sempre ir além e ser melhor. Devem ser levadas em conta as experiências latino-americanas, adaptando-as ao nosso país, obviamente. A Revolução é um longo e complexo processo de aprendizagem, um trabalho em equipe, de homens e mulheres, de diferentes lugares e épocas.

Como podemos ver, o trabalho a ser realizado por PODEMOS é enorme (diferente dos partidos que o precederam), tanto para alcançar o poder político, como para mantê-lo e exercê-lo. Sem nos esquecermos dos mil e um obstáculos que a oligarquia colocará no caminho para que PODEMOS não possa aplicar seu programa. É imprescindível, como disse, uma estratégia adequada de propaganda, um programa político claro, com os prazos das medidas a ser implementadas, e também mostrar a justa intenção de que tal programa não será traído. Como? Dizendo claramente para a opinião pública (quantas vezes for preciso) que o programa político é irrenunciável, que não serão estabelecidas alianças a posteriori que impliquem em sua renúncia (em particular, com os partidos da casta que demonstraram mais do que com a prática que não merecem a confiança dos cidadãos), que serão feitas reformas políticas para que o povo não possa ser traído (uma obrigação de qualquer partido político em aplicar ou defender seu programa com base no voto dos cidadãos, elegibilidade e revogabilidade de todos os cargos públicos, lei eleitoral pela igualdade dos votos, separação de poderes,...).

Não se trata de conquistar a confiança dos cidadãos apenas pelos erros dos inimigos, mas também pelos próprios acertos, não apenas dizendo certas coisas, mas também fazendo, implementando mecanismos concretos que obriguem PODEMOS e qualquer outro partido político a cumprir o mandato popular e a se submeter ao seu controle em qualquer momento. A única maneira de conquistar (e manter) a confiança de cidadãos desconfiados é praticando com o exemplo. Praticando a máxima coerência é a maneira como eu acredito que o PODEMOS poderá alcançar o poder político e, o que é mais importante e difícil, exercê-lo a favor das classes populares, da grande maioria social. O desafio é enorme, mas factível. Somos em um número muito maior do que eles. Todos nós podemos contribuir com o nosso grão de areia. Juntos podemos conseguir.

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