Na economia, não há alternativa ao conservadorismo, segundo o mercado

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03 Novembro 2014

Reeleita com base em um discurso progressista, Dilma Rousseff terá de rezar na cartilha conservadora em pelo menos uma área nos próximos anos, a depender das expectativas da maioria dos analistas. Após o divórcio com o mercado durante a campanha presidencial deste ano, a presidenta deu um forte sinal nesta quarta-feira, com a elevação da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, de que está disposta a adotar medidas econômicas ortodoxas em seu segundo mandato.

A reportagem é de Rodolfo Borges, publicada pelo jornal El País30-10-2014.

Depois de quatro anos de crescimento frustrante e de taxa de inflação mais perto do teto de 6,5% do que do centro da meta, de 4,5%, o segundo governo de Dilma Rousseff dificilmente conseguirá se manter na mesma página que a campanha de reeleição de Dilma Rousseff, na qual a presidenta chegou a fazer discurso contra banqueiros e afastou a possibilidade de tomar qualquer medida “impopular” caso reeleita.

A baixa margem de lucro oferecida pelo governo nas concessões de aeroportos e estradas e a medida provisória que reduziu o retorno financeiro das empresas públicas de energia deixaram bem claras as restrições que a presidenta tem ao mercado enquanto parceiro. Mas, diante do fraco desempenho econômico do país e da evidência de que o governo pode se beneficiar do aumento do investimento privado, Rousseff não tem saída senão acenar com uma trégua, segundo os especialistas. Não por acaso, banqueiros como o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, e o ex-presidente do Banco Central e do Bank Boston Brasil Henrique Meirelles estão entre os nomes cogitados para assumir o Ministério da Fazenda no lugar do criticado Guido Mantega, que foi ‘demitido’ do posto ainda durante a campanha por Rousseff. O nome mais forte para o cargo, contudo, é o do ex-secretário do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa.

Próximo a Rousseff, Barbosa traçou em setembro do ano passado, durante fórum promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o cenário dos “desafios macroeconômicos” dos próximos quatro anos. Na lista, destacada nesta quinta-feira pelo jornal Valor Econômico, estão itens que se aproximam mais do perfil conservador, como estabilizar as transferências de renda e continuar a reduzir a folha de pagamento, além de diminuir a perda fiscal com preços regulados, especialmente energia e combustível. Desse último ponto o governo federal já deve tratar nos próximos dias, com um aumento de até 5% no preço da gasolina, que vem sendo represado há meses como parte do esforço para conter a inflação.

Com o necessário roteiro para recuperar o crescimento de um país cuja economia está em recessão técnica e com inflação no limite do aceitável, Rousseff corre o risco de perder um dos grandes trunfos de sua campanha à reeleição: a baixa taxa de desemprego, de apenas 5%. Os índices de criação de emprego já começaram a desacelerar e, segundo analistas, vão começar a ser pressionados pelos jovens que, deixando as universidades e escolas técnicas, não encontrarão postos para se estabelecer em um mercado de trabalho saturado.