A idolatria do PIB

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Julho 2014

"Em vez de concentrar esforços na melhoria do transporte coletivo, optou-se por medidas de estímulo à venda de automóveis: isenções tributárias, crédito farto e gasolina subsidiada. Entre 2003 e 2013, a frota de carros particulares passou de 23,6 milhões para 43,4 milhões de veículos", escreve Eduardo Giannetti, economista, em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 18-07-2014.

Segundo o economista, "a idolatria do PIB tem causado graves prejuízos ao bem-estar humano".

Eis o artigo.

O PIB é uma invenção recente. A ideia de medir a variação do valor monetário dos bens e serviços produzidos a cada ano surgiu no período entreguerras, mas foi só nos anos 50 que os órgãos oficiais passaram a publicar dados de PIB para os diferentes países. Adam Smith, Ricardo, Marx e Mill jamais foram instados a prever o PIB do ano ou trimestre seguintes.

De lá para cá, o culto do PIB como métrica de sucesso ou fracasso das nações virou uma espécie de religião do nosso tempo. O crescimento é o objetivo supremo em nome do qual governos são eleitos ou rejeitados nas urnas e um antropólogo marciano poderia até imaginar que a sigla PIB nomeia a nossa divindade-mor na vida pública enquanto o consumo dá sentido à existência na esfera privada.

Além do passivo ambiental, a idolatria do PIB tem causado graves prejuízos ao bem-estar humano. Dois exemplos recentes ilustram isso.

Uma pesquisa pioneira, publicada no periódico "Proceedings of the National Academy of Sciences" em 2013, comparou populações sujeitas a diferentes níveis de poluição do ar nas regiões norte e sul da China e avaliou o seu impacto de longo prazo (décadas) sobre a saúde (doenças cardiovasculares e câncer de pulmão).

O estudo mostra que uma elevação de 100 microgramas de matéria particulada por metro cúbico de ar corresponde a uma redução de três anos na expectativa média de vida ao nascer. Como a diferença entre o norte e o sul da China é de 185 microgramas por metro cúbico, isso significou uma perda de cinco anos e meio de vida per capita para os habitantes do norte em relação ao sul.

Some-se a isso o fato de que 10% da terra cultivável na China está contaminada por poluentes químicos e metais pesados, e que metade da água suprida nas cidades é imprópria para banho, e se verá que o espetáculo do PIB chinês, como um Otelo sem Iago, oculta um elemento crucial da trama.

No Brasil, o afã de acelerar o crescimento no curto prazo levou o governo a tomar um atalho. Em vez de concentrar esforços na melhoria do transporte coletivo, optou-se por medidas de estímulo à venda de automóveis: isenções tributárias, crédito farto e gasolina subsidiada. Entre 2003 e 2013, a frota de carros particulares passou de 23,6 milhões para 43,4 milhões de veículos.

O resultado do erro pode ser medido em tempo de vida. Um cidadão que gaste três horas por dia em média para ir e vir do seu local de trabalho ou estudo passará cerca de quatro anos e meio da sua vida encalacrado no inferno urbano das nossas metrópoles. O PIB silencia, mas o bem-estar acusa.

Pior que crescer pouco ou crescer mal, só mesmo uma combinação judiciosa das duas coisas. E não é que o Brasil tem conseguido!