A velha mídia, a internet e o papel dos leitores

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08 Julho 2014

"A comunicação enfrenta crise e rearranjo sempre que uma nova tecnologia de mídia é incorporada ao cotidiano da sociedade. Essa por sua vez também tem suas diversas relações reformuladas, por conta da expansão do alcance de informações antes restritas. O maior acesso a informações por parte da sociedade civil normalmente gera um grande abalo nos poderes vigentes", escreve Rennan Martins, blogueiro e editor do portal Desenvolvimentistas.

Eis o artigo.

Este ensaio pretende lançar luz a atual transição que incorpora a internet como meio de comunicação, as mudanças por ela trazidas na prática jornalística e a inserção do leitor na configuração destes meios.

Antes da internet, tínhamos o rádio, o jornal e a televisão como principais formas de comunicação em massa. Todos essas plataformas mantinham uma relação vertical com aqueles que consumiam seu produto, a informação. Ou seja, o leitor-cidadão lia, ouvia ou assistia aquilo que as editorias decidiam, da forma como o veículo escolhia. A possibilidade de interação era mínima, de maneira que tornar pública uma contestação a uma notícia constituía tarefa hercúlea. O público era passivo em relação ao que lhe forneciam.

Este arranjo favoreceu a consolidação de grandes grupos de comunicação. No Brasil, a maioria das iniciativas nasceu e cresceu na ditadura, sob a tutela do regime, servindo de propaganda dos militares por um lado, para do outro, receber gordas verbas publicitárias.

Tal situação pôs esses veículos em um nível considerável de conforto. A interpretação dos acontecimentos se dando de forma conveniente a seus donos homogeneizava as opiniões do público, lhes concedendo grande poder político.

A Copa do Mundo e a barriga do experiente jornalista Mario Sérgio Conti, que entrevistou Wladimir de Castro Palomo, sósia de Felipão, numa ponte aérea Rio-São Paulo é um dos vários exemplos de como a velha mídia é soberba e distante da realidade. O material passou pela editoria da Folha de São Paulo e do jornal O Globo, e mesmo assim foi publicado.

E eis que o século XXI trouxe consigo a massificação da banda larga e de dispositivos com acesso à rede. Atualmente, qualquer pessoa com um destes aparelhos pode criar conteúdo, escrever versões e comentar acontecimentos e a emissão destes tem o potencial de correr todo o planeta.

A internet como mais um meio de comunicação alterou todo o panorama do jornalismo. A grande mídia passa por problemas de financiamento e ainda por cima se vê em posição de perigo frente as outras iniciativas que a desmentem, contestam e criam uma alternativa de compromisso real com a democracia.

E é nessa transição que entra o leitor, o público que acompanha estas notícias. Minha tese é a de que não só a mídia, mas também o próprio cidadão passa por um processo de crise, transição e reformulação do seu papel.

O indivíduo que possui a postura analógica perante a internet, ou seja, se depara com uma informação mas permanece passivo perante ela, é o que é propício a ser manipulado e até a contribuir com a desinformação. A partir do momento que não a contesta, há somente a possibilidade de nela acreditar e reagir da forma como querem que ele o faça.

O atual quadro caracteriza-se pelos grandes meios em posição ainda confortável, mas perdendo influência, com uma abordagem enviesada pelo poder econômico, e a internet, onde, como define Ignacio Ramonet, há uma massa de mídias fornecendo uma infinidade de informações e versões.

Ocorre que essa massa de mídias é guiada também por seus interesses e muitas vezes os produtores difundem mentiras deliberadamente no intuito de atingir objetivos escusos.

Então, o papel do leitor-cidadão nessa nova configuração deve ser mais pró-ativo. Considerando a alta interatividade disponível e a possibilidade de ser um difusor, é necessário receber e checar a informação, e só após isso emitir opinião ou até mesmo complementar e contextualizar o fato.

Nas palavras do já citado, Ramonet:

“Hoje as redes sociais procuram novas ferramentas, que não nos deixam a sós diante dos meios de comunicação hegemônicos. Antes eu estava a sós ao me deparar com eles. Quando me passavam uma informação, eu não sabia se era verdadeira ou falsa, devia confiar neles. Agora não. Posso ir a internet e ver o que fulano disse. E talvez eles também se equivoquem, mas eu posso construir minha ideia. Em suma, informar-se é uma atividade.

Isto quer dizer que ninguém pode se informar passivamente. A pessoa não pode se sentar em frente ao televisor e esperar que lhe digam a verdade. Hoje isso já não pode ser, porque temos ferramentas, dispositivos, que estão permitindo que nos armemos. Por conseguinte, se dizemos que somos manipulados, isso não pode ser uma desculpa. É normal que queiram nos manipular. Mas hoje em dia dispomos de ferramentas que nos permitem que nos defendamos contra essa manipulação. E nós devemos ter um papel ativos em nossa própria informação.”

Trata-se de assumir uma postura digital, independente e ativa perante o que é dito.

A internet trouxe consigo a interatividade e a dita massa de mídias, com essas, é possível aprofundar a cidadania e a democracia, resta agora a sociedade como um todo adaptar-se as novas possibilidades de forma a aproveitar todo este potencial.