29 Novembro 2013
Durante os quatro domingos do Advento, a Igreja nos faz voltar os olhos para um acontecimento que está muito próximo: Deus vai nos dar um Salvador! Mas, uma vez que este é “o acontecimento” do Messias, deve ser bem preparado: “Portanto, ficai atentos”, diz Jesus.
A reflexão é de Marcel Domergue, padre jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 1º Domingo do Advento Comum. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.
Eis o texto.
Leituras bíblicas:
1ª leitura: Isaías 2,1-5
2ª leitura: Romanos 13,11-14
Evangelho: Mateus 24,37-44
O tempo do desejo
A fé no Cristo gera imediatamente uma "religião" do desejo. Faz com que nos voltemos para o futuro, para o que vem; para Aquele que vem. Diante de tudo o que se passa no mundo, há os que se distanciam da confusão, pondo-se ao abrigo de qualquer choque ou contrariedade, afastando-se para uma situação privilegiada; os discípulos do Cristo recusam tal evasão. Há os que se revoltam e recorrem à violência; os discípulos do Cristo sabem que isto só serve para multiplicar a desgraça inicial. Várias outras maneiras de se esquivar poderiam ser enumeradas e a fé cristã as recusa todas. Fé que, no entanto, é o oposto da resignação e faz o nosso olhar voltar-se incessantemente para a potência que nos faz existir. Esperamos e desejamos a vinda da Vida. O Livro da Primeira Aliança é cheio desta esperança que se exprime muitas vezes por gemidos, gritos de socorro injunções vigorosas a este Deus que tarda demais. E tudo isto se resume na espera do Reino de Deus. Na Nova Aliança, esta tomada do poder por parte de Deus se exprime no tema da volta, ou melhor, da última vinda do Cristo. E, assim, aqui estamos nós, voltados para o futuro, para Aquele que vem. Claro, a uma primeira vista muitas questões se põem: uma vez que esperamos "a intervenção divina", haveria algo ainda para se fazer? Não existe aí, nesta espera, alguma coisa de mítico? Uma espécie de "deus ex machina"? Vamos buscar ver mais claro isto.
A vinda do Cristo no presente
Em primeiro lugar, é preciso conjugar este texto com outras palavras de Jesus, por exemplo, quando ele diz que o Reino de Deus já está aí, que ele está em nós, no meio de nós, ou entre nós (Mateus 5; 12,28. Lucas 17,20-21...). Assim como somos já filhos de Deus, mesmo que isto não seja ainda manifestado, da mesma forma o Reino já está aqui, desde que reine entre nós o amor assim como o Cristo o viveu. É ilusório dizer, como tantas vezes se ouve, que temos que realizar ou construir o Reino de Deus. A vinda do Cristo é um dom, mas temos o poder de recebê-lo e transmiti-lo: o amor que nos vem de Deus, e que é Deus, se deixarmos, pode nos atravessar e ir em direção aos outros. Portanto, o Reino de Deus que se confunde com a vinda do Cristo está em ação desde o início e até o fim que o revelará à plena luz. Quando, então, poderemos reler a nossa vida em função de nosso acolhimento ao Reino. O "julgamento", que pode nos fazer tremer ou nos deixar céticos, é isto: os nossos olhos que se abrem à luz. Felizmente, Paulo nos diz que "tudo o que vem à luz se torna luz" (Efésios 5,13-14). O Cristo é, pois, aquele que veio que vem e que virá. O tempo do Advento vem nos dizer de novo tudo isto, para que permaneçamos conscientes do mistério que nos envolve, desta presença que, sem cessar, torna-se de novo presença, sempre nova e imprevisível.
A espera e o encontro de Deus
Se não devemos acreditar naqueles que dizem "Ei-lo aqui! Ei-lo ali!", é porque ele está por toda parte, "do Oriente ao Ocidente". Ele vem ao nosso encontro nas alegrias, nas tristezas e nos períodos de vazio. Cada vez que o acolhemos, entramos no Reino. É preciso repetir que é pelos outros que ele vem até nós e que, se este Reino está "entre nós", é porque ele reside na qualidade dos laços que podemos estabelecer com eles. Podemos a este respeito reler Mateus 25,31-46, interpretando o final inquietante deste texto à luz de Efésios 5,13-14, já citado. Sabemos que o Novo Testamento veicula duas linhas, duas tradições contraditórias: uma que anuncia o perdão para todos, inclusive carrascos e torturadores (reler os relatos da Paixão); a outra que corrobora as antigas maldições aos "injustos". A meu ver, ainda é a Páscoa que vai dizer a última palavra: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem." De todo modo, o Evangelho nos prescreve a espera e o desejo permanentes, um desejo ardente, desde agora, de ir além do que é a nossa vida aqui, com a certeza de que Deus, incessantemente, nos vem habitar. Santo Agostinho nos explica que o desejo não precisa ser consciente, mas que pode e deve estar subjacente a todas as ocupações que a existência nos impõe. Felizes, diz Jesus, aqueles a que, na sua volta, o mestre encontrar ocupados com a sua tarefa, tarefa que deve ser recebida e vivida já como um dom de Deus.