A última reviravolta de Francisco: a Igreja legitima a Teologia da Libertação

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

05 Setembro 2013

Irrompe a paz entre o Vaticano e a Teologia da Libertação. Depois das condenações dos anos 1980, dos excessos e das incompreensões, a Teologia da Libertação obtém plena cidadania na Igreja. A "desobstrução" se insere no novo clima trazido pela eleição do primeiro papa latino-americano e pela retomada do processo de beatificação do bispo mártir Oscar Romero.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A última prova disso é o amplo espaço que o L'Osservatore Romano dá nessa quarta-feira aos escritos do teólogo peruano padre Gustavo Gutiérrez, o dominicano considerado fundador da Teologia da Libertação.

Na realidade, o processo já nasce no último tempo do pontificado de Bento XVI: de fato, foi Ratzinger que quis como seu segundo sucessor à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício, o arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller. Um prelado bem conhecido dele, que por muitos anos passou as férias indo trabalhar com os "campesinos" latino-americanos e manteve um diálogo aprofundado com o mais importante e renomado teólogo da libertação, Gutiérrez.

Em 2004, ambos assinaram um livro publicado na Alemanha. Mas, à época, Müller era apenas um bispo alemão, e não o "guardião" da ortodoxia católica. O fato de que esse livro seja agora publicado na Itália (Dalla parte dei poveri. Teologia della liberazione, teologia della chiesa, coedição Edizioni Messaggero Padova – Editrice Missionaria Italiana, 192 páginas, a partir do dia 9 de setembro nas livrarias) e seja apresentado no próximo domingo pelos dois autores no Festivaletteratura de Mântua, significa que o prefeito Müller, hoje à frente daquela Congregação que condenou nos anos 1980 alguns excessos da Teologia da Libertação, considera essas suas contribuições ainda plenamente válidas e atuais.

Não se trata apenas de um acidente de percurso, mas sim de uma saída pensada e sopesada, destinada a encerrar, ao menos nas intenções, o capítulo das guerras teológicas do passado. As obras de Gutiérrez, com Ratzinger como prefeito do ex-Santo Ofício, foram submetidas a exames por um longo tempo, sem nunca terem sido censuradas ou condenadas.

Na realidade, a Santa Sé condenou apenas a Teologia da Libertação que usa a análise marxista, e não toda a Teologia da Libertação. E, em um dos artigos publicados no livro, Müller, justamente, descreve os fatores políticos e geopolíticos que acabaram condicionando, ao longo dos anos, algumas acusações contra a Teologia da Libertação, em uma época em que um certo capitalismo se sentia "definitivamente vitorioso".

Sem falar do documento secreto, igualmente citado pelo sucessor de Ratzinger no livro e preparado para o presidente Ronald Reagan pelo "Comitê de Santa Fé" em 1980, isto é, quatro anos antes da primeira instrução vaticana sobre a Teologia da Libertação. Nele, pedia-se ao governo norte-americano que agisse de maneira agressiva contra a Teologia da Libertação, culpada de ter transformado a Igreja Católica em "arma política contra a propriedade privada e o sistema de produção capitalista".

Com o papa que veio "do fim do mundo", que nunca foi indulgente com as ideologias, nem com a abordagem intelectual de uma certa teologia pró-marxista, mas que, como arcebispo, estava acostumado a visitar sozinho, sem escolta, as favelas de Buenos Aires e agora fala de uma "Igreja pobre e para os pobres", se realiza a reconciliação entre o Vaticano e a Teologia da Libertação.

E isso com o prefeito do ex-Santo Ofício que, em um livro, coloca a sua assinatura ao lado da do padre Gutiérrez. Para deixar claro a todos que, na Igreja, falar dos pobres não significa fazer pauperismo, e que denunciar a injustiça sofrida pelos fracos não significa ser marxista, mas apenas e simplesmente cristãos.