Sim à teologia da libertação

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05 Setembro 2013

O Vaticano faz as pazes com a teologia da libertação. Esse é o coração pulsante do livro escrito a quatro mãos por um dos fundadores da mesma teologia, o sacerdote e teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, e Gerhard Ludwig Müller, o alemão prefeito do ex-Santo Ofício, o "ministério" vaticano do qual Joseph Ratzinger foi o cão de guarda da fé.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 04-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O livro se intitula Dalla parte dei poveri. Teologia della liberazione, teologia della Chiesa (Pádua-Bolonha, Edizioni Messaggero - Editrice Missionaria Italiana, 2013, 192 páginas). Uma obra que sanciona uma rendição histórica, não por acaso celebrada na edição dessa quarta-feira do L'Osservatore Romano, com um amplo trecho do livro e um artigo.

O padre Ugo Sartorio, diretor da revista Il Messaggero di Sant'Antonio, escreve no jornal vaticano que, "com um papa latino-americano, a teologia da libertação não podia permanecer por muito tempo no cone de sombra ao qual foi relegada há alguns anos, ao menos na Europa. Posta de fora do jogo por um duplo preconceito: aquele de que ela ainda não metabolizou a fase conflituosa de meados dos anos 1980, muito enfatizada pela mídia, e faz dela uma vítima do Magistério romano; e o preconceito engessado na rejeição de uma teologia considerada muito de esquerda e, portanto, tendenciosa".

Na verdade, Karol Wojtyla não foi sempre clemente com a teologia da libertação. Coube a ele dizer a sua opinião contra uma visão da teologia que, a seu ver, era politizada demais, porque corria o risco de reduzir a Igreja a atividades terrenas. Em 1979, no México, ele declarou que "a concepção de Cristo como político, revolucionário, como o subversivo de Nazaré, não se compagina com a catequese da Igreja".

O prefeito Ratzinger tinha a mesma visão de Wojtyla. Mas também é verdade que, como diz Müller, os documentos saídos da sua pena, quando era prefeito do ex-Santo Ofício (Libertatis Nuntius, de 1984, e Libertatis coscientiae, de 1986), não continham apenas críticas.

Segundo Müller, esses textos prepararam o caminho para uma "verdadeira teologia da libertação que está intimamente ligada à doutrina social da Igreja e que, no mundo de hoje, deve levantar a sua voz. Uma visão que, partindo da fé, realiza a realidade inteira, histórica, do homem como indivíduo e como sociedade, oferece orientações comportamentais não só aos cristãos individuais, mas também no plano das decisões políticas e econômicas".

No livro, também há uma resposta indireta de Müller a Vittorio Messori, que defendeu que a teologia da libertação nasceu artificialmente nas faculdades teológicas alemãs. Uma tese não totalmente ilógica, porque, por exemplo, um dos monstros sagrados da mesma teologia, Leonardo Boff, formou-se em Munique.

Mas, diz Müller: "É evidente que a teologia da libertação não é uma construção teórica nascida abstratamente. As grandes conferências do episcopado latino-americano de Medellín, Puebla e Santo Domingo entenderam a si mesmas como realização do desenvolvimento da teologia católica do século XX no contexto do subcontinente latino-americano".