Deus e a bauxita em Niyamgiri

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

09 Agosto 2013

"Os Dongria Kondh vivem numa montanha chamada Niyamgiri e em outras vizinhas. O minério de bauxita estaria na parte mais alta dessas montanhas, que possuem mais de mil metros de altura. Ali cai e se recolhe naturalmente a chuva, e não é uma boa ideia realizar enormes escavações para a mineração a céu aberto. Em dezembro de 2006, eu mesmo subi essa montanha, esse era ainda no início da luta. Muitos outros acadêmicos, jornalistas, ativistas e eco-turistas têm visitado o lugar, desse que já é um conflito tipicamente "glocal" (é dizer, ao mesmo tempo local e global). A Anistia Internacional e a Survival divulgaram o problema e participaram das manifestações em Londres (onde a mineradora Vedanta Ltd. tem sua sede)", escreve em artigo Joan Martinez Alier, economista e ecologista catalão, é professor no ICTA-Universitat Autònoma de Barcelona, e publicado no seu  blog de Felipe Milanez, 07-08-2013.

Eis o artigo.

Este é um caso que parece estar chegando a um desenrolar vitorioso, mas que pode ser provisório porque o capitalismo extrativista é um monstro gigante que pisa forte e é quase imparável.

Depois de 10 anos de disputa, um caso de características especiais está sendo vencido em Odisha (um estado no leste da Índia, antes chamado de Orissa). O estado é fornecedor de carvão, minério de ferro, bauxita, hidroeletricidade. É também um estado com uma porcentagem relativamente alta de população tribal. Entre seus grupos tribais estão, nos distritos de Rayagada e Kalahandi, os Dongria Kondh.

Há mais de trinta anos que ocorrem, em Orissa, lutas rurais e populares contra a mineração de bauxita, feita por empresas estatais ou privadas. Essa resistência tem sido esplendidamente documentada em livros e vídeos de Felix Padel e Samarendra Das.

Os Dongria Kondh vivem numa montanha chamada Niyamgiri e em outras vizinhas. O minério de bauxita estaria na parte mais alta dessas montanhas, que possuem mais de mil metros de altura. Ali cai e se recolhe naturalmente a chuva, e não é uma boa ideia realizar enormes escavações para a mineração a céu aberto. Em dezembro de 2006, eu mesmo subi essa montanha, esse era ainda no início da luta. Muitos outros acadêmicos, jornalistas, ativistas e eco-turistas têm visitado o lugar, desse que já é um conflito tipicamente "glocal" (é dizer, ao mesmo tempo local e global). A Anistia Internacional e a Survival divulgaram o problema e participaram das manifestações em Londres (onde a mineradora Vedanta Ltd. tem sua sede).

Uma vez por ano os ativistas visitam em Londres os acionistas, quando eles se reúnem em assembleia geral para fazer a distribuição dos lucros e os novos planos de investimento. Os ativistas os recebem com buzinas e panfletos. Nesse ano, 2013, a assembléia de acionistas da Vedanta Ltd. ocorreu na quinta-feira 1 de agosto, no Hotel Mariott, em Mayfair, em Londres. Houve protesto. E as notícias que chegaram de Odisha foram ruins para os acionistas.

Após longos processos administrativos e judiciais, no dia 10 de agosto de 2010, o Ministério de Florestas e Meio Ambiente suspendeu a licença para extrair bauxita que havia conseguido Vedanta Ltc. A montanha Niyamgiri fornece sustento para várias aldeias dos Dongria Kondh. Além de ser uma montanha sagrada. Mais do que isso, essa montanha é uma divindade, um deus no panteão local. É, além de tudo, um lugar bonito, com árvores chamadas "sal" (shorea robusta) e de grande biodiversidade.

Há muita bauxita nessa montanha. Vedanta Ltd. construiu, já faz seis anos, uma refinaria em Lanjigarh, aos pés da montanha, para fabricar alumínio. O resíduo é o que se chama de lama roxa, e é muito tóxico. Nesse processo, a Vedanta Ltd. cometeu algumas infrações à legislação florestal que acabaram lhe saindo caras. Essa fábrica, de um milhão de toneladas anuais, tem funcionado intermitentemente com bauxita de outros lugares, localizados bastante distantes para o minério ser trazido por trem e por estrada. Isso é caro, e também muito poluente. Construir a fábrica só teria sentido se fosse possível dispor rápido de uma bauxita próxima. Para isso, a Vedanta Ltd. construiu prematuramente a fábrica em Lanjigarh, eliminando alguns pequenos povoados e investindo muito dinheiro.

A Vedanta Ltd. afirma: como se vai desperdiçar tanto investimento em uma economia sedenta de alumínio como a da Índia? Como se atrevem vocês a afirmar que o morro de onde chegaria a bauxita por minérioduto não é nada menos do que "Deus"?

A decisão do Ministério de 2010 não se baseou em questões sacras, mas em infrações administrativas à legislação especial de florestas e para grupos tribais (adivasis, na Índia), também protegidos pela Constituição. A longa luta judicial terminou, no momento, em abril de 2013, quando a Corte Suprema decidiu que a mina só poderia seguir adiante se os próprios Dongria Kondh, nas suas assembleias locais, estivessem de acordo.

Esse procedimento de consulta aos Dongria Kondh está sendo realizado entre julho e agosto de 2013. No final de julho, as oito primeiras aldeias consultadas (com cerca de dez a 20 famílias cada aldeia) recusaram a mineração diante de oficiais de justiça, funcionários administrativos, jornalistas e ativistas. E essa é a tônica geral. Eles falam seu idioma, Kui. Mas nessas assembleias também se fala Oriya (idioma de Odisha), Hindi e sem dúvida um pouco de inglês.

E nas discussões locais, nacionais e globais se apresentam, nestes e em outros conflitos, e em muitos idiomas, as diversas linguagens de valoração: o dinheiro e as compensações materiais que as empresas dariam; as obrigações legais, os direitos territoriais indígenas, até os Direitos da Natureza; o sustento dos humanos no mercado ou fora do mercado, o valor para a vida da água, da madeira, das plantas medicinais, dos alimentos silvestres ou cultivados; os valores ecológicos, as espécies protegidas.

Também intervém políticos, logicamente interessados em conseguir votos, incluindo Rahul Gandhi que defende os Dongria Kondh. E com toda a complexidade geológica, técnica, econômica, biológica, e sócio-política do caso, porque também não falar da importância dos deuses? Como a montanha Wirikuta, no México, ou a cachoeira Joropari Kõbie, no rio Tapajós, sagrada para o povo Munduruku, e onde o governo do Brasil quer instalar uma usina hidrelétrica? Podemos concluir que, ao menos desta vez, a justiça ambiental e o ecologismo dos pobres e indígenas está conseguindo obter uma importante vitória.