Francisco: o primeiro papa "a partir do" Vaticano II?

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22 Março 2013

Não se pode negar que houve descontinuidades com relação ao pontificado anterior. A palavra descontinuidade não pode ser um tabu. O ponto é a unidade sobre o que é essencial e irrenunciável.

A opinião é do cientista político e leigo católico italiano Christian Albini, em artigo publicado no blog Sperare per Tutti, 21-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depois do Vaticano II, tivemos papas "do" Concílio, isto é, que dele participaram como bispos (Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II) ou como teólogos (Bento XVI). O Papa Francisco não. É outra das suas "novidades", talvez subestimada, mas que poderia ser decisiva. Poder-se-ia dizer que é o primeiro papa "a partir do" Vaticano II, no sentido de que ele não esteve pessoalmente envolvido no evento, nas suas tensões e nas suas polêmicas interpretativas. Também pelo fato de ele pertencer a um ambiente católico diferente dos seus antecessores.

Isso poderia ser uma vantagem em vista de uma aplicação "serena" do Concílio, alheia às nossas contraposições europeias e especialmente italianas. Não é por acaso que as relações de Bergoglio são investigados para ver se ele é conservador ou liberal, mais ou menos favorável ao Comunhão e Libertação ou ao Opus Dei. É o reflexo de uma Igreja dividida que projeta as próprias vicissitudes sobre tudo e sobre todos, e em que a comunhão pode ser trazida novamente por alguém que vem de "fora".

Certamente, isso também implicará uma reflexão sobre o pontificado de Joseph Ratzinger. Não se pode negar que houve descontinuidades com relação ao pontificado anterior. A palavra descontinuidade não pode ser um tabu. O ponto é a unidade sobre o que é essencial e irrenunciável. E, naturalmente, estou convencido de que ela existe, mas há outro aspecto a se refletir.

O papa teólogo introduziu uma novidade que não pode ser ignorada. Bento XVI era portador de uma teologia própria forte e caracterizada que precede em muito o seu papado. Essa teologia naturalmente entrou no seu exercício do ministério petrino. Tempos atrás, somente poucas palavras do papa alcançavam a catolicidade. Hoje, para um papa, multiplicaram-se as ocasiões de intervenção, e com os meios de comunicação dispomos de uma quantidade interminável de pronunciamentos para cada pontífice.

No caso de Bento XVI, o que é pertinente ao ofício de confirmação da fé do povo de Deus e o que pertence à sua orientação teológica pessoal? Porque um aspecto problemático é que houve quem apresentasse a teologia ratzingeriana como a única possível na Igreja Católica. Agora, apenas para citar um nome, Kasper, a meu ver, é um teólogo do mesmo nível de Ratzinger, mas as suas posições certamente não são idênticas.

Lembro que justamente Bento XVI afirmou no livro Luz do Mundo que o papa não produz infalibilidade continuamente. "Só em determinadas condições, quando a tradição é clara e ele sabe que naquele momento ele não age arbitrariamente, então o papa pode dizer: Esta determinada coisa é fé da Igreja, e a sua negação não é fé da Igreja". Isso acontece muito mais raramente do que se pensa. Isso não significa que as palavras do papa então não contam nada, mas sim que os vários pronunciamentos têm diversos graus de autoridade.

Acredito que, com o tempo e com um discernimento eclesial meditado, será importante avaliar o magistério de Bento XVI para lhe dar uma correta interpretação.