Em 60 dias, Franco reverte ações de Lugo

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Agosto 2012

Dois meses depois de chegar ao poder com o contestado impeachment-relâmpago de Fernando Lugo, Federico Franco já dá sinais de que, em sua rápida passagem pela Presidência - até agosto de 2013 -, quer conduzir o país em direção oposta à traçada pelo antecessor.

Na política interna, o que se viu foi a rápida aprovação de medidas às quais Lugo resistia - como a autorização para plantio de algodão transgênico - e decisões sobre a gestão de terras já consideradas pelos sem-terra uma "contrarreforma agrária".

A reportagem é de Isabel Fleck e Flávia Marreiro e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 23-08-2012.

Uma delas foi o pedido de Franco ao Congresso para sancionar uma lei que permite vender, a "preço de mercado", terras que seriam destinadas à reforma agrária.

"É um retrocesso. Os camponeses não vão comprar porque não têm dinheiro. Vai cair justamente nas mãos dos sojicultores", diz o líder da Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Camponesas, Luís Aguayo.

Outras decisões que incomodaram os camponeses foram a possível revisão da lei que proíbe a estrangeiros terem propriedades na faixa de 50 km a partir da fronteira e a suspensão, por decreto, da auditoria sobre as terras do brasileiro Tranquilo Favero, maior sojicultor do Paraguai.

"Isso implica abrir a possibilidade de legalizar milhões de terras [irregulares] e põe em risco a nossa própria soberania", avalia José Rodríguez, presidente da Liga Nacional dos Carperos.

Segundo Luis Ortigoza, presidente do Indert (Incra paraguaio), tanto a decisão sobre a venda de terras públicas quanto a revisão da lei sobre a faixa de fronteira ainda não foram "concretizadas".

"Não vamos levar adiante nenhuma medida sem a devida consulta com os setores afetados", assegurou.

Ele ainda explicou que a auditoria nas terras de Favero encontrou apenas "pequenas parcelas de terras públicas", que não justificavam continuar as medições.

Para o empresário brasileiro Aurio Frigueto, que vive há 42 anos no Paraguai, o governo Franco já resgatou, em dois meses, a "segurança jurídica da propriedade privada".

"Agora podemos dormir tranquilos, porque sabemos que, no dia seguinte, vamos ter os nossos títulos respeitados", afirma o brasiguaio.

AMEAÇAS

No plano externo, Franco responde ao isolamento imposto pelo Mercosul e pela Unasul com declarações ambíguas sobre seus compromissos com os países vizinhos.

Na última semana, anunciou a intenção de realizar um referendo nas eleições de 2013 sobre a continuidade do país no Mercosul. No mês passado, declarou que o país não estava mais disposto a "ceder" ao Brasil e à Argentina sua energia excedente das usinas de Itaipu e Yacyretá.

As duas medidas, contudo, não são permitidas. A primeira, pela Constituição, e a segunda, por acordos bilaterais com Brasil e Argentina.

Coube ao chanceler José Félix Estigarribia baixar o tom, esclarecendo que os planos sobre Itaipu são aumentar a industrialização do país para consumir toda a energia a que o Paraguai direito.

O polêmico projeto para instalar uma fábrica da Rio Tinto Alcan no país faria parte deste projeto. "Um governo ilegítimo quer tomar uma decisão que pode afetar o país por décadas", critica Gustavo Codas, diretor-geral de Itaipu na gestão Lugo.

Para o analista Alfredo Boccia, a aliança entre Franco e o Partido Colorado (tradicional agremiação política) para a saída de Lugo começa a perder força. "Os colorados já veem o governo como adversário. Vão começar a bloquear projetos, como faziam com Lugo."

Instalar fábrica de múlti no país vira bandeira

O governo Franco adotou como bandeira um projeto que enfrentava resistência da ala esquerdista da gestão Fernando Lugo: a instalação de uma fábrica de alumínio da multinacional Rio Tinto Alcan.

Decreto de Franco de 16 de julho criou grupo para negociar com a empresa.

Estimado em US$ 4 bilhões, seria o maior investimento do setor privado na história do país.

Um fábrica como a cogitada absorveria o dobro do que o Paraguai consume em energia da usina de Itaipu hoje.

"Estamos continuando um plano do governo Lugo", disse à Folha Diego Zavala, coordenador dos estudos sobre a fábrica na época de Lugo e agora promovido a vice-ministro do Comércio e a chefe das negociações com a múlti. Ele diz que a ideia é viável, pois o Paraguai tem bons preços de tarifa elétrica e baixa carga tributária.

Para Gustavo Rodas, diretor-geral de Itaipu na gestão Lugo, o governo eliminou todas as vozes críticas do debate para impor uma espécie de "maquila" (empresa que monta produtos com base em componentes importados).

Ele acusa Franco de usar o discurso nacionalista sobre Itaipu para justificar a oferta de subsídios na tarifa elétrica em troca de poucos empregos.

Zavala nega que Franco dará subsídios e diz que as condições são tão atrativas que outras 17 empresas, inclusive brasileiras, já assinaram cartas de intenção para se instalar ao lado da Rio Tinto Alcan.