''A condenação de Lugo já estava ditada antes do processo'', afirma provincial jesuíta paraguaio

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16 Julho 2012

Como integrante da Junta Diretiva da Conferência dos Religiosos do Paraguai (Conferpar), o sacerdote jesuíta Alberto Luna Pastore, de 51 anos, é um dos signatários do comunicado divulgado dias atrás pela entidade, denunciando o "julgamento político" ao qual o presidente Fernando Lugo foi submetido e expressando sua preocupação pelo futuro do país.

A reportagem é de José Luis Celada, publicada na revista Vida Nueva, 13-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na qualidade de membro da Conferpar – "e não em nome dela", matiza –, o atual provincial da Companhia de Jesus no Paraguai nos aproxima de uma situação que "violou gravemente o processo democrático, ferindo nossa frágil institucionalidade e dificultando a convivência social e política nacional".

Eis a entrevista.

O que está acontecendo hoje no Paraguai?


Ocorreu uma grave ruptura institucional com a destituição via julgamento político de Fernando Lugo como presidente da República e a posse de Federico Franco em seu lugar. Embora isso tenha sido executado aplicando uma faculdade constitucional, cremos que o Parlamento Nacional, a pedido dos diretórios dos principais partidos, abusou dessa faculdade e não respeitou as garantias e os prazos do devido processo ao qual toda pessoa tem direito antes de ser condenada. Além disso, vemos que a condenação foi estava ditada antes do processo, que foi a execução acelerada de um roteiro de formalidades com um fim predeterminado. Isso violou gravemente o processo democrático, ferindo nossa frágil institucionalidade e dificultando a convivência social e política nacional, o que, somado à suspensão do Paraguai do Mercosul e o escasso reconhecimento internacional do atual governo, instaurou uma situação de incerteza para o futuro do nosso país.

O que mais prejudicou Lugo: esses bastidores políticos ou sua falta de decisão?

Lugo foi vítima, de um lado, e desde o início do seu governo, de uma sistemática conspiração de interesses de grupos econômicos interessados em manter seus privilégios, vinculados sobretudo ao partido que ficou 60 anos no poder e que fora substituído por ele mesmo nas eleições de 2008. Esses grupos estavam em busca de oportunidades para tirá-lo do meio do caminho e recuperar o seu espaço. Por outro lado, ele foi vítima da sua falta de determinação para impulsionar as necessárias reformas sociais, de seus desacertos para negociar com a sua escassa margem parlamentar e para se articular com o partido que lhe deu a base para vencer as eleições, sem esquecer a conta pendente das suas desordens morais como bispo, usadas sistematicamente contra ele.

Que papel a Igreja desempenhou nesse processo?

Essa situação gerou e continuará gerando oposição e indignação entre setores sociais, políticos, econômicos e eclesiais, que põem em dúvida a legitimidade e a validade do processo de instauração do governo de Franco, assim como reações de adesão e de apoio nos setores sociais, políticos, econômicos e eclesiais que validam e legitimam a destituição de Lugo. Assim como na sua postulação e eleição em 2008 se viram posturas conflitantes entre bispos, sacerdotes, movimentos e grupos eclesiais, hoje voltam a aparecer diversos posicionamentos entre os católicos perante os novos desenvolvimentos. O problema reside, em parte, na falta de maturidade para encarar com abertura e pluralismo respeitoso um assunto político, que, por natureza, pertence ao campo do opinável e não está sujeito à disciplina eclesiástica, embora o ator principal seja um ex-bispo da Igreja Católica.