Comunicado dos religiosos do Paraguai sobre a destituição do Presidente Lugo

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Por: André | 28 Junho 2012

“Vemos na raiz destes fatos a cumplicidade dos três poderes do Estado, o abandono de uma reforma agrária integral, que não enfrentou o problema da distribuição da terra, submetida até agora ao monopólio, à irregularidade, à posse irregular, e o acobertamento sistemático destes problemas por parte da justiça e do parlamento”, expressa a Conferência dos Religiosos e Religiosas do Paraguai, em comunicado sobre a crise nacional.

O comunicado está publicado no sítio dos Jesuítas do Paraguai, 22-06-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o comunicado.

Sentimo-nos fazendo parte de uma Igreja comprometida com a paz que brota da justiça, que abraça com especial predileção os mais desfavorecidos.

Diante dos gravíssimos desvios que tiveram e estão tendo os trágicos acontecimentos da morte de camponeses e policiais na Estancia Campos Morombí, com a subsequente submissão a julgamento político do Presidente da República, e suas consequências para o presente e o futuro da vida social e política do país, a Junta Diretiva da Conferência de Religiosos do Paraguai (CONFERPAR), manifesta o quanto segue:

Desde a nossa visão cristã, o uso da violência e do crime nunca serão aceitáveis como meios para alcançar reivindicações nem para defender interesses. Lamentamos a morte dos camponeses e dos policiais e defendemos com firmeza o esclarecimento destes fatos, enquanto animamos a todos a seguir trabalhando pela paz como verdadeiros filhos de Deus e reafirmamos que a paz querida por Deus não virá do ocultamento dos problemas, mas como fruto de uma autêntica justiça social.

Vemos na raiz destes fatos a cumplicidade dos três poderes do Estado, o abandono de uma reforma agrária integral, que não enfrentou o problema da distribuição da terra, submetida até agora ao monopólio, à irregularidade, à posse irregular, e o acobertamento sistemático destes problemas por parte da justiça e do parlamento. Enquanto os três poderes do Estado não derem uma resposta séria e concertada a este problema, seguirão carregando nas costas a responsabilidade da violência que se gera ao buscar saídas sob pressão com suas imprevisíveis consequências.

Chama-nos fortemente a atenção a rápida reação dos partidos políticos e seus representantes que se colocaram de acordo para impulsionar o julgamento político do presidente nas duas câmaras do Congresso Nacional, que mesmo sendo um procedimento constitucional, se aplica e procede de tal forma que cria fundadas suspeitas de manipulação, afetando gravemente o processo legitimamente instaurado por eleição popular, como se esta fosse a saída para os nossos problemas e como se houvesse uma responsabilidade unilateral dos graves fatos que atentam contra a nossa convivência.

Vemos com preocupação a manipulação dos fatos, através de muitos dos meios de comunicação, por setores que buscam tirar proveito político, benefícios de impunidade e de manutenção de um estado de coisas que favorece os seus interesses pessoais ou corporativos. Vemos os partidos políticos mais preocupados em defender suas cotas de poder e com a partilha de cargos, do que buscando uma verdadeira resposta aos problemas que sofremos. Vemos como uma falta de respeito à vida e à dignidade humana que se usem os fatos da morte entre irmãos para criar um clima de instabilidade, para estigmatizar camponeses e criminalizar suas organizações, para exasperar policiais e militares, instaurando um ambiente de terror para dissuadir e desmobilizar os cidadãos indignados.

Surpreende o fato de que os mesmos parlamentares, há pouco tempo desprestigiados por seus vergonhosos procedimentos diante das reivindicações da população, sejam agora os mesmos que acusam e se erigem em juízes absolutos, posando como defensores da Pátria. Faz-nos pensar que com tudo isto, não por acaso, desapareçam do horizonte os questionamentos que surgiram do povo às listas fechadas, o pedido de julgamento político para os membros da Corte, os tímidos avanços para a implementação do imposto sobre a renda pessoal.

Como parte da Igreja que peregrina no Paraguai, respondendo ao nosso compromisso com Deus e com seu povo, convidamos a todos para participarem com responsabilidade pessoal e institucional na construção de um Estado de direito baseado na justiça social, na inclusão de todos os compatriotas, no respeito à vontade popular, integrados à marcha democrática dos países vizinhos.

Sentimo-nos fazendo parte de uma Igreja comprometida com a paz que brota da justiça, que abraça com especial predileção os mais desfavorecidos, e convidamos a todos os setores sociais a pôr o melhor de nós na tarefa de construir um país de irmãos, a trabalhar por uma maior equidade na distribuição dos bens, rumo a um futuro promissor.

Pela Junta Diretiva: Ir. Venancia González, FMA; Pe. José Ramón Torre-Marín, SS.CC.; Pe. Alberto Luna, SJ; Ir. María Elisa Ortiz, HC; Pe. Walter Jara, SDB; Pe. Federico Gayoso, TOR; Pe. Pedro Jubenville, CSSp.