Egípcios se sentem enganados pela revolução ao se verem sem opção de escolha no segundo turno das eleições presidenciais

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14 Junho 2012

O segundo turno da eleição presidencial do Egito será entre um ex-assessor de Mubarak e um islamista. Para muitos egípcios, nenhum dos dois merece os seus votos. Devido a isso, o país poderá enfrentar uma nova onda de convulsão social.

A reportagem é de Daniel Steinvorth, publicada no Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 13-06-2012.

Uma busca pela alma do povo egípcio poderia ter início nas ruas estreitas e poeirentas de Shubra al-Khaima, um subúrbio no norte do Cairo. Carroças de burros passam pelos caminhos esburacados enquanto vendedores de ferro velho e de verduras disputam espaço. Em frente às casas, crianças brincam perto de homens idosos sentados em cadeiras de plástico.

Aqui, em meio à maior área metropolitana do norte da África, em um labirinto de tijolos de arenito e argila, pode-se encontrar pessoas como os torradores de café Antar e Amgad Farid, dois dos quase 51 milhões de indivíduos que serão convocados a eleger um novo presidente nos dias 16 e 17 de junho.

Esta será a primeira eleição democrática de um chefe de Estado egípcio, algo que se tornou possível devido a uma revolução que inspirou o mundo e derrubou Hosni Mubarak, o ex-presidente autocrático e que atualmente sofre de câncer, que no dia 2 de junho foi condenado à prisão perpétua.

Antigamente os irmãos Antar e Amgad mal podiam esperar para participar dessa experiência única. O orgulhoso Egito, o país árabe de maior população, iria se transformar em uma democracia após décadas de regime autoritário.

Mas agora os irmão Farid – dois jovens amigáveis, ligeiramente obesos e de bigodes – estão de pé no seu pequeno estabelecimento comercial sentindo-se frustrados. O clima no lugar é quente e seco, e os lentos ventiladores de teto pouco contribuem para aliviar o calor, enquanto moscas voam em torno das máquinas de torrefação. Assim como milhões de outros egípcios, eles sentiram-se enganados pela revolução.

Um general e um engenheiro
Eles ficaram perplexos com o fato de dois elementos de linha dura terem passado para o segundo turno após as eleições de 23 e 24 de maio: Ahmed Shafiq, um general da reserva da força aérea egípcia de 70 anos de idade que participou do regime de Mubarak; e Mohammed Mursi, um engenheiro de 60 anos de idade que faz parte da liderança do núcleo conservador da islamita Irmandade Muçulmana. Os irmãos Farid, assim como a maioria das pessoas do bairro, votaram no candidato de esquerda Hamdeen Sabahi.

"Agora nós estamos diante de uma opção entre um indivíduo que odeia a revolução e um outro que deseja implementar a Sharia (código de leis muçulmanas)", lamenta Amgad. "Deus tenha piedade de nós".

Os dois irmãos provavelmente votarão no ex-militar Shafiq no segundo turno da eleição, neste fim de semana. Antar, que tem um pequeno crucifixo tatuado no seu braço direito, argumenta que Shafiq é menos pior dos dois males. Os irmãos Farid são membros da igreja copta, a maior minoria cristã do Egito. "Os planos de longo prazo dos islamitas são perigosos", afirma Amgad.

Cerca de um terço da população de Shubra al-Khaima consiste de cristãos, e calcula-se que entre 5 e 8 milhões de cristãos, ou cerca de 10% da população, vivem no Egito. Mas ninguém sabe ao certo o número exato.

É bastante óbvio, no entanto, que a maioria dos coptas tem a mesma opinião que os irmãos Farid. Os cristãos do Egito têm um medo profundo da intolerância religiosa. Embora vários cristãos deparem-se com uma probabilidade maior de serem pobres e de viverem em desvantagem social, isto não fez com que eles aceitassem a Irmandade Muçulmana, que alega ser o maior movimento de caridade do país. A rede social dos islamitas restringe-se aos muçulmanos.

Desejo de estabilidade
Sigamos para o chique Clube Garden City, no Cairo, um refúgio exclusivo no qual cubos de gelo ressoam nos copos de uísque da elite empresarial da cidade, que está aqui para fugir do barulho e do calor, vários andares acima dos telhados desta megacidade. Os homens que estão aqui a tomar uísque, nenhum deles membros da Irmandade Muçulmana, estão conversando sobre o segundo turno eleitoral. E as opiniões deles sobre Shafiq, o indivíduo que não faz muito tempo Mubarak elogiava como sendo um "modelo", também divergem bastante.

"Nós precisamos de um presidente que seja menos polarizador", afirma um dos homens. "Shafiq é um militar. Se vencer a eleição, a primeira coisa que ele fará é dissolver o parlamento, que é dominado pela Irmandade Muçulmana. Isso seria um erro fatal".

Cristãos e liberais não são os únicos que se encontram apreensivos quanto à possibilidade de terem um presidente que pertença à Irmandade Muçulmana. Muitos líderes econômicos, membros das forças armadas e do antigo aparato de segurança, bem como aqueles egípcios que desejam "condições estáveis", preferem Shafiq. Este general da reserva, que era um aliado próximo de Mubarak e do ex-presidente Anwar Sadat, jurou restabelecer um "Estado forte" e acabar com "o caos". As suas tentativas de atrair aqueles que apoiaram o movimento de protesto e de "devolver a revolução a eles" não têm convencido. De fato, a insinceridade de Shafiq ficou patente no comentário do seu porta-voz que afirmou, na véspera da eleição, que "a revolução acabou".

Como último primeiro-ministro empossado por Mubarak, o próprio Shafiq é responsável por grande parte da violência letal ocorrida na Praça Tahrir. Ele também enfrenta acusações de atos de corrupção que teriam sido praticados quando ele foi ministro da Aviação Civil. "Cooperar com o criminoso Shafiq está completamente fora de cogitação", diz um jovem revolucionário.

"O Egito tem muitos problemas"

Os seus oponentes alegam que Shafiq não deveria ter obtido permissão para disputar as eleições. Segundo uma lei aprovada pelo novo parlamento, membros graduados do antigo regime devem ser excluídos do processo eleitoral, mas mesmo assim a comissão eleitoral aprovou a candidatura do general – o que para muitos egípcios comprovou o quanto o conselho militar governante ainda controla o país.

Os vínculos de Shafiq com as forças armadas e o antigo sistema judicial fazem com que paire uma sombra sobre o candidato. Mesmo após o julgamento histórico do ex-presidente Mubarak, ele deixou clara a sua lealdade ao velho regime. O julgamento terminou com a absolvição dos filhos de Mubarak, Gamal e Alaa, o que fez com que milhares de manifestantes saíssem às ruas expressando raiva e frustração. Enquanto a multidão protestava, Shafiq pedia aos egípcios que aceitassem a decisão do tribunal.

Poderia o adversário de Shafiq, Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana, se beneficiar da revolta da população?

Ibrahim Saleh, um empresário e cidadão suíço de 83 anos de idade, é um velho amigo e aliado de Mursi. Ele mora em uma mansão na zona sudeste do Cairo.

Saleh, que extraoficialmente é o número três na hierarquia da Irmandade Muçulmana e um dos ideólogos mais avançados da organização, está sendo atualmente alvo de muita atenção tanto no mundo muçulmano quanto na Europa. Ele estudou engenharia na Alemanha na década de cinquenta e, assim como muitos egípcios, é um grande admirador da tecnologia alemã. Saleh diz que "não tem lógica" o fato de o Ocidente ainda manifestar reservas quanto ao movimento dele. "O Egito tem muitos problemas, e nós os resolveremos", afirma ele.

Saleh deseja resolver os problemas mais graves do Egito com um "modelo econômico muçulmano" baseado em projetos governamentais de grande magnitude e em um "capitalismo sem juros". Ele deseja um "renascimento agrícola em toda a costa mediterrânea, como na época do Império Romano" e a criação de uma moeda comum para o mundo muçulmano.

Saleh diz que o seu movimento é simples, pragmático e favorável ao empresariado. Ele insiste que essas características aplicam-se também ao seu amigo Mursi.

Possível boicote às eleições

Mas por que então o candidato obteve apenas 24,8% dos votos no primeiro turno, enquanto o seu partido recebeu quase 40% na eleição parlamentar que terminou em janeiro? Seria devido à falta de carisma de Mursi e à sensação de que ele era a "segunda opção", depois que a comissão eleitoral desqualificou o empresário e multimilionário Khairat el-Shater?

Ou será que isso teria ocorrido por causa do comportamento inicial questionável dos islamitas no parlamento, algo que contribuiu para a desmistificação do movimento, e que inclui bizarros debates teológicos e a recusa de alguns membros de conversar com mulheres? Em aparições subsequentes na televisão, Mursi tentou acalmar os críticos da Irmandade Muçulmana e aproximar-se dos coptas e dos liberais. Mas foi então que um jornal publicou uma declaração dele de que a aplicação da Sharia no país seria "um procedimento normal".

Muitos egípcios estão alarmados com a possibilidade de uma tomada total do poder pela Irmandade Muçulmana, que já é a força mais poderosa no parlamento.

Devido a tais preocupações, parece cada vez mais provável que muita gente venha a boicotar o segundo turno da eleição. "O comparecimento dos eleitores cairá para menos de 15%", adverte um especialista. Se isso ocorrer, o novo presidente carecerá de uma legitimidade significante.

Independentemente de quem vier a suceder Mubarak, os egípcios desejam um novo homem forte, especialmente devido aos desafios quase impossíveis que o novo presidente enfrentará. A população do Egito cresceu drasticamente de 46 milhões em 1981, quando Mubarak assumiu o poder, para os atuais 86 milhões de habitantes e, segundo estimativas, ela deverá aumentar ainda mais, chegando a 120 milhões de habitantes por volta de 2050. Com desertos que representam mais de 80% do seu território, o Egito tem que importar milhões de toneladas de trigo e de outros alimentos. Muitos egípcios já dependem de carnês de alimentação para sobreviver.

Apenas o início

Durante anos os demógrafos vêm fazendo advertências sobre declínios acentuados da produção alimentícia, uma pobreza intensa e rebeliões provocadas pela fome. A economia egípcia encontra-se esfacelada, fábricas estão fechadas e os investidores estrangeiros não querem saber do país. Os números relativos ao desemprego não passam de pura especulação, mas até mesmo no Egito pré-revolucionário cerca de 40% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Hospitais, escolas, estradas e pontes estão em condições péssimas.

Os problemas sociais e o desapontamento popular em relação aos islamitas também explicam o desempenho surpreendentemente bom do candidato secular esquerdista Hamdeen Sabahi nesta eleição. Embora não tenha conseguido passar para o segundo turno, Sabahi conquistou surpreendentes 20,8% dos votos no primeiro turno.

Em vez de afirmar que o islamismo é a solução para todos os problemas, Sabahi conquistou eleitores desiludidos com a Irmandade Muçulmana ao concentrar-se na questão da "justiça social".

O próprio Sabahi acredita que o seu desempenho poderá ser o primeiro sinal de uma "terceira abordagem" que continuará a desempenhar um papel importante no futuro: um amplo movimento popular que superaria o islamismo e o nacionalismo egípcio tradicional.

Se ele estiver certo, este domingo não marcará o fim da eleição no Egito, a maior experiência democrática já realizada no mundo árabe. Na verdade, isso será apenas o começo.

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