Irlanda: depois do choque dos abusos, a reação da sociedade

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Julho 2011

Seis dias depois do relatório que evidenciou os abusos de menores na diocese de Cloyne, cresce a raiva popular. Segundo o Pe. Lombardi, "jamais convidamos as dioceses a não denunciar os pedófilos".

A reportagem é de Alessandro Speciale, publicada no sítio Vatican Insider, 19-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O efeito sobre a sociedade irlandesa foi devastador: o relatório da Comissão de Inquérito irlandesa sobre os casos de abuso de menores cometidos por membros do clero na diocese de Cloyne – da qual Dom John Magee foi bispo por 23 anos, tendo sido também secretário pessoal de três papas, de Paulo VI a João Paulo II, passando por João Paulo I – conseguiu abalar uma sociedade que, nos últimos anos, viu se multiplicarem os escândalos por causa dos casos de pedofilia na Igreja.

O primeiro-ministro de Dublin, Enda Kenny, convocou o núncio vaticano na Irlanda, e alguns parlamentares apresentaram a hipótese de chamar o embaixador da Irlanda junto à Santa Sé. Uma nova lei sobre os abusos infantis que será publicada no outono deve prever a obrigação para que os padres revelem todos os casos de abuso que ficassem sabendo – mesmo que isso viesse a acontecer no segredo do confessionário.

"O ponto – explicou o ministro da Infância Frances Fitzgerald – é que, se há uma lei no país, ela deve ser seguida por todos. Não há exceções, não há isenções".

Segundo a imprensa irlandesa, também seria cancelado uma visita – jamais anunciada, mas já em fase de preparação – do Papa Bento XVI ao país prevista para 2012.

Raiva episcopal

Comentando o relatório durante a homilia da missa do domingo passado, o arcebispo de Dublin, Dom Diarmuid Martin, confessou aos fiéis a sua raiva pelo fato de que ", em Cloyne – e talvez em outros lugares – existiam pessoas que colocaram suas opiniões acima da defesa das crianças".

O motivo de tanta "raiva" está no fato de que o relatório não só documenta casos de abuso muito recentes – ele abrange um período de tempo que vai de 1996 ao início de 2009 –, mas também mostra como os próprios bispos ignoraram suas próprias linhas diretrizes para prevenir e combater os abusos, colocando em dúvida assim toda a obra de renovação posta em prática pela Igreja nos últimos anos.

A "raiva" se concentrou principalmente sobre a carta confidencial enviada na metade dos anos 1990 pelo então núncio apostólico na Irlanda, Dom Luciano Storero, aos bispos irlandeses. A carta se refere às "sérias reservas" da Congregação vaticana para o Clero, dirigida então pelo cardeal Darío Castrillón-Hoyos, acerca da obrigação de denunciar os padres pedófilos, obrigação contida nas linhas diretrizes adotadas pela Conferência dos Bispos em 1995.

"Isso – diz o relatório –, de fato, deu aos bispos irlandeses a liberdade para ignorar os procedimentos que eles mesmos haviam estabelecido, e consolou e apoiou aqueles que, como Dom O`Callaghan (vigário-geral da diocese de Cloyne na época), estavam em desacordo com a linha oficial da Igreja irlandesa".

A "reação do Vaticano" às rigorosas linhas diretrizes adotadas pelos bispos depois da primeira explosão da crise, que remonta ainda a 1994, foi "unhelpful" – "de nenhuma ajuda" – para aqueles bispos que "queriam colocar em prática os procedimentos" em defesa dos menores.

Seis dias depois da publicação do relatório, e enquanto aumentava o clamor na Irlanda diante do silêncio da Santa , hoje se pronunciou o porta-voz vaticano, padre Federico Lombardi, com uma nota publicada na Rádio do Vaticano que – ele fez questão de frisar – não constitui "de nenhum modo a resposta oficial da Santa Sé".

O padre Lombardi responde às críticas lembrando que as linhas diretrizes haviam sido enviadas à Congregação para o Clero "não como documento oficial da Conferência Episcopal, mas como Report of the Irish Catholic Bishops` Advisory Committee on Child Sexual Abuse by Priests and Religious". Assim, "o fato de a Congregação propor objeções era, portanto, compreensível e legítimo – nota o porta-voz vaticano –, tendo em conta a competência de Roma no que se refere às leis da Igreja, e – mesmo se é possível discutir a adequação da intervenção romana de então com relação à gravidade da situação irlandesa – não há nenhuma razão para interpretar essa carta como destinada a ocultar os casos de abuso".

Para o porta-voz vaticano, à luz do fato de que, na época – e ainda hoje –, a legislação irlandesa não prevê a obrigação de denunciar os casos de abuso de menores, é "curiosa a gravidade de certas críticas feitas ao Vaticano, como se a Santa Sé fosse culpada por não ter dado valor de lei canônica a normas às quais o Estado não havia considerado necessário dar valor de lei civil!". Assim, "não há absolutamente nada na carta que soe como um convite a não respeitar às leis do país".

Palavras insuficientes

Para o correspondente Irish Times em Roma, Paddy Agnew, que há anos acompanha a história, dificilmente as suas palavras serão suficientes para aplacar a indignação. Na resposta de Lombardi, não se faz nenhuma menção a Dom Magee, no centro de alguns dos episódios revelados no relatório.

Para uma parte da imprensa irlandesa, o ex-bispo de Cloyne se esconderia em Roma ou arredores, onde ele tem um sobrinho, para alguns até "protegido pelo Vaticano", e o próprio arcebispo que "investigou" a sua ex-diocese, Dom Dermot Clifford, espera fazer ouvir a sua voz para responder à dor das vítimas.

Para Agnew, Lombardi "não está totalmente equivocado" ao dizer que algumas reações irlandesas são exageradas. "Mas – lembra –, em algumas dioceses, nos últimos anos, a frequência na missa caiu de 90% para 10%, e certamente não é só culpa da secularização".

A crise da Igreja irlandesa – sobre a qual o Papa Bento XVI ordenou uma investigação nos últimos meses – é grave também à luz das inúmeras dioceses sem bispo, talvez à espera de uma reorganização completa, e das divisões no episcopado, reveladas pelo relatório, entre aqueles que querem o rigor e aqueles que, ao contrário, preferem evitar o escândalo o máximo possível.

Para Dom Martin, arcebispo de Dublin, cuja franqueza e decisão para enfrentar a crise lhe valeu a estima de amplos setores da sociedade irlandesa, a coisa mais paradoxal revelada pelo relatório é que, na Igreja, ainda em tempos muito recentes,  havia as pessoas que, "apelando de alguma forma à sua interpretação da lei canônica, haviam se colocado acima e além das regras que o papa atual promulgou para toda a Igreja".