Cardeal Scola volta para casa: Milão

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24 Junho 2011

É iminente a nomeação do atual patriarca de Veneza a arcebispo de sua diocese natal. A história e o retrato de um homem que cresceu na escola de dois grandes mestres: Giussani e Ratzinger.

A análise é de Sandro Magister, publicada em seu sítio Chiesa, 24-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Retornar como arcebispo e cardeal de Milão, na mesma arquidiocese que, há 40 anos, não quis nem ordená-lo padre, é uma bela revanche para Angelo Scola.

Se tivesse sido decidida coletivamente, pelo alto clero e pela maioria do laicato milanês, sua nomeação jamais teria passado. Menos ainda se Bento XVI tivesse ouvido seu secretário de Estado, o cardeal Tarcisio Bertone. O manso Joseph Ratzinger foi inflexível com relação isso. Um nome, um só nome é que o papa tinha em mente para a maior e mais prestigiada diocese do mundo. E manteve-se firme contra toda oposição.

Bento XVI não entrará para a história como um grande homem de governo. Ele deixou a cúria vaticana como a encontrou, na desordem em que já estava afundada com o seu antecessor Karol Wojtyla, muito mundialista para se ocupar com o jardim de casa. Para as mais altas posições curiais, o Papa Ratzinger se limitou, em seis anos, a pouquíssimas  nomeações, nem todas bem sucedidas, de homens conhecidos por ele pessoalmente. A primeira, a de Bertone à Secretaria de Estado, logo se revelou para o papa como uma fonte de problemas do que vantagens. Mas a última, a do cardeal canadense Marc Ouellet a chefe da congregação que avalia e propõe ao papa a nomeação de cada novo bispo, promete dar-lhe mais consolações. Sobre o envio de Scola a Milão, o entendimento foi perfeito entre Ouellet e Ratzinger.

E devia ser assim. A aliança entre os três é antiga, temperada por batalhas comuns. A revista teológica internacional Communio, fundada em 1972 por Ratzinger, Hans Urs von Balthasar e Henri De Lubac, como contrapartida conservadora para o sucesso da revista progressista Concilium, teve justamente em Scola e Ouellet os seus adeptos de primeira hora, e ganhou corpo em Friburgo, na Suíça, na Faculdade Teológica onde o próprio Scola estudava.

Scola havia chegado em Friburgo depois de um percurso tortuoso, ordenado padre aos 29 anos em 1970, não em Milão, a sua arquidiocese natal, mas pelo bispo de Teramo, Abele Conigli, que lhe havia hospedado depois que os seminários milaneses, aos quais Scola havia batido na porta três anos antes de sua graduação em filosofia na Universidade Católica, não lhe haviam deixado entrar por causa da sua militância no Comunhão e Libertação, movimento ao qual o arcebispo de Milão da época, Giovanni Colombo, tinha forteS reservas.

O jovem Scola era um dos rebentos de maior destaque do fundador do Comunhão e Libertação, Pe. Luigi Giussani. Por cerca de dez anos, ele foi o número dois do movimento em Milão, antes e depois do turbulento 1968, antes e depois de se tornar padre. Em 1973, o Pe. Giussani – ele teria escrito em suas memórias – pensou seriamente nele como seu sucessor.

Mas, no ano seguinte, e durante dois anos, Scola sofreu problemas de saúde. E o Comunhão e Libertação deu uma guinada antiburguesa e terceiro-mundista, que não agradou ao Pe. Giussani, e à qual o próprio Scola parecia se comprazer, como chefe naqueles mesmos anos do Istra, Instituto de Estudos para a Transição, onde corajosamente cruzava teologia e teoria política, ciências da linguagem e antropologia, Hosea Jaffe e Samir Amin. Giussani ordenou o fechamento do Istra em 1976 e tomou nas mãos todo o movimento. Desde então, o caminho de Scola continuou sendo marcado pelo pertencimento ao Comunhão e Libertação, mas sem mais cargos operativos.

Com o advento, em 1978, de João Paulo II, um papa amigo, a estrada para o Pe. Giussani e o seu movimento foi aplainada. Scola começou a ensinar teologia em Friburgo. Depois, a partir de 1982, em Roma, na Pontifícia Universidade Lateranense. Em 1986, tornou-se consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, da qual o cardeal Ratzinger era prefeito.

Em 1991, foi consagrado bispo de Grosseto. Mas, quatro anos depois, esteve de volta em Roma como reitor da Lateranense, onde fundou e presidiu um Pontifício Instituto João Paulo II para os Estudos sobre o Matrimônio e a Família, com filiais em todo o mundo. Em 2002, foi nomeado patriarca de Veneza e, no ano seguinte, foi criado cardeal. Entrou no círculo dos papáveis, mas, quando o conclave chegou, em 2005, não corre por si mesmo, nem pensa nisso, mas sim pelo seu mestre Ratzinger.

Ratzinger, também como papa, tem uma atenção particular por ele. Quando – raramente – Bento XVI chama cardeais para consultas sobre as grandes questões da Igreja, Scola está entre eles.

De Veneza para o mundo

Veneza é uma pequena diocese com uma grande história mundial, que permite que o seu patriarca trabalhe com um amplo raio de alcance.

Scola fundou ali um "Studium Generale", intitulado a São Marcos, padroeiro da cidade, que se articula em todos os graus do saber, desde a infância até a universidade, com estudantes de muitos países, com cursos em diversas disciplinas e com a teologia que abraça a todas, com sua própria editora.

E depois criou uma revista e um centro cultural internacional intitulado Oasis, que serve de ponte rumo ao Oriente, do Leste Europeu e do Norte da África até o Paquistão, em vários idiomas, incluindo o árabe e o urdu, com forte atenção ao islã e ao cristianismo presente nesses países, com encontros regulares entre bispos e especialistas cristãos e muçulmanos.

De Veneza, Scola lança uma palavra de ordem para definir o encontro entre os povos e as religiões: "mestiçagem". No Oasis, o bispo de Túnis, Maroun Elias Lahham, contesta-a como equívoca e incompreensível para os próprios muçulmanos. Mas o patriarca a mantém firme, a defende. Ao contrário de Ratzinger, Scola não brilha pela clareza conceitual. A experiência de vida, o encontro pessoal com Cristo, dominam nele o argumento da razão, como o Pe. Giussani sempre lhe havia ensinado. Mas essa polivalência expressiva revelou ser, para ele, uma vantagem em nível de opinião pública. Quando contrapõe a "mestiçagem de civilizações" ao depreciado "choque de civilizações", o consenso progressista é seguro. Quando publiciza as iniciativas do Oasis, Scola atrai o consenso dos multiculturalistas. Apesar da sua proveniência de Comunhão e Libertação, e apesar da sua indubitável linha ratzingeriana, Scola goza de boa fama mais do qualquer outro líder eclesiástico italiano, à direita como à esquerda.

Certamente, a vida teria sido mais difícil se, da tranquila Veneza, Scola tivesse sido projetado para o centro da batalha eclesial e política, como presidente da Conferência dos Bispos da Itália. Era esse o local de desembarque que se perfilava para ele, quando, entre 2005 e 2007, foi disputada a guerra de sucessão do cardeal Camillo Ruini como chefe dos bispos. Ruini teria gostado dele como sucessor. Mas, no Vaticano, tanto o antigo quanto o novo secretário de Estado, os cardeais Angelo Sodano e Bertone, eram muito contrários. O segundo, principalmente, fez de tudo para queimar a candidatura de Scola. A sua nomeação, defendia, "dividiria" irreparavelmente o episcopado. Na realidade, teria zerado as ambições de Bertone para que ele fosse o chefe da Igreja italiana na arena política. Finalmente, quanto coube a Bento XVI decidir – porque na Itália é o papa que nomeia o presidente da CEI –, a sua escolha não recaiu sobre Scola, nem sobre o dócil bispo que Bertone queria impor, Benigno Papa, de Taranto, mas sobre o ruiniano Angelo Bagnasco. A nomeação fracassada não desagradou em nada ao cardeal de Veneza.

No horizonte, na verdade, se perfilava, enquanto isso, Milão. Depois de dois episcopados excêntricos como os de Carlo Maria Martini e de Dionigi Tettamanzi, Bento XVI havia se convencido de que havia chegado a hora de estabelecer lá, finalmente, um bispo mais alinhado com a sua própria visão. Na mente do Papa Ratzinger, a candidatura de Scola não tinha alternativas, certamente não aquelas que o secretário de Estado, Bertone, também desta vez muito ocupado para lhe obstaculizar o caminho, havia pensado até o final. A convicção de Ratzinger é a mesma de um outro idoso cardeal de origem milanesa, Giacomo Biffi, segundo a qual, para fazer com que a arquidiocese de Milão retome o reto caminho, é preciso retomar a tradição dos grandes bispos "ambrosianos", de temperamento forte e de orientação segura.

O último deles foi Giovanni Colombo. Isto é, por ironia do destino, precisamente aquele que não quis ordenar padre aquele Angelo Scola que agora, do céu, vê chegar como seu sucessor.

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