O que você não entendeu sobre Bad Bunny, Donald Trump? A coisa do reggaeton? Ah, fala sério!

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10 Fevereiro 2026

O presidente dos EUA, que disse que as mulheres deveriam ser agarradas pela vagina, entendeu perfeitamente o maravilhoso espetáculo do porto-riquenho, a maior bofetada política que já recebeu em público.

O artigo é de Jesus Ruiz Mantilla, jornalista e escritor, publicado por El País, 10-02-2026.

Eis o artigo.

Durante dias e noites, as redes sociais têm fervilhado com o incrível show que Bad Bunny fez no Big Bowl. E isso não me surpreende. E eu adorei. E nada me deixa mais feliz. Depois de mais de um ano de impotência acorrentada, de frustração constante, de curvar nossas cabeças diante da humilhação completa e sistemática desse retorno do fascismo e seu desfile global diante de nossos olhos, a resistência começa a se armar e explodiu em fúria e alegria ao ritmo dos ritmos latinos.

O movimento "basta!" começou depois do Natal, nas ruas frias de Minneapolis, quando milhares de cidadãos confrontaram a SS que reapareceu, com os rostos cobertos por agentes do ICE. Mas, na noite de domingo, no Levi's Stadium, em Santa Clara, Califórnia, durante o intervalo do jogo entre Patriots e Seahawks, o grito de rejeição contra o que estamos sofrendo se intensificou...

Os Seahawks venceram, mas quem se importa? O que ficará marcado nos anais do entretenimento não foi o jogo, mas a rebeldia ardente e apaixonada de um porto-riquenho orgulhoso chamado Benito Antonio Martínez Ocasio, consciente de que tinha em mãos uma arma de mobilização em massa: a música. É a linguagem mais bem compreendida por todos os grupos do mundo. É por isso que a revolta de domingo atingiu um nível de importância que transcende a esfera política — até então incapaz de confrontá-la — para ser liderada pela esfera cultural. É isso que mais os assusta. Todos aqueles que, como ele, aspiram a nos silenciar. É por isso que o clamor de Bad Bunny não deve se limitar a Porto Rico; ele precisa se alastrar para outras regiões. É preciso coragem e força para dar esse passo. O músico deu, e ao fazê-lo, transcendeu os limites de sua própria persona para se tornar um ídolo carismático das massas, expandindo seu alcance e penetrando outras esferas, mesmo aquelas não relacionadas ao seu fenômeno artístico. Ele ascendeu a uma posição de destaque na sociedade, um ícone cultural indispensável, com uma atuação repleta de significados claros, para iniciar uma batalha que outros, mesmo sendo pagos para isso e tendo como obrigação defender a democracia, não se atrevem a travar.

A resposta de Donald Trump foi imediata. Ele havia sido vaiado por dezenas de milhares de pessoas ao vivo em novembro e, pela primeira vez, convenientemente humilhado durante um jogo da NFL. Ele não gostou do espetáculo da final, disse depois. Achou terrível, uma das piores atuações da história. "Ninguém entende o que esse cara está dizendo!", declarou em sua plataforma de mídia social de mentiras, Truth.

O que exatamente ele não entendeu? O twerking? Estranho vindo de alguém que certa vez afirmou que as mulheres deveriam ser agarradas pela vagina, do líder da Liga MAGA, sexista em nível global. Mais uma vez, ele tentou nos enganar, sem dúvida. Ele entendeu imediatamente. O fato de não ter gostado do que aconteceu ali por 13 minutos — uma eternidade para ele — é outra história.

Trump não gostou daquele anjo latino vestido de branco. A força da convicção e da rejeição às suas políticas, que ele encenou com um protesto meticulosamente planejado e executado, foi impressionante. Naqueles breves quinze minutos, ele fez um discurso, acompanhado de música, sobre tudo aquilo que milhões de pessoas ao redor do mundo estavam loucas para lhe dizer pessoalmente.
Com alegria, aliás, com júbilo, com esperança. Palavras que nem o presidente nem seus capangas entendem. Ao som da salsa, do reggaeton, com a força rítmica que ressoa na alma, contagiante das maracas, dos instrumentos de sopro e dos tambores, enquanto acompanham as indispensáveis bandeiras. Bad Bunny desfraldou todas as bandeiras que compõem a América. Nomeou-as uma a uma para proporcionar um voo verdadeiro e inegável que dignifica uma aspiração e um mundo não exclusivo daqueles que o humilham do norte. A palavra que dá nome a um território onde a maioria fala espanhol e que tem sido pronunciada em nossa língua desde o seu batismo. Precisamente a língua que Bad Bunny usou no domingo à noite, quando se posicionou com toda a sua força contra os excessos do novo imperador.

Donald Trump não entendia que até mesmo uma loira lendária como Lady Gaga podia se identificar com a questão racial mista e a pele morena, que Ricky Martin podia falar com ele com uma voz quase rouca, mas intacta, sobre gentrificação, raízes e meio ambiente, ou que alguém podia se jogar no vazio de costas, sem medo, porque sabia perfeitamente que dezenas de braços o amparariam e não o deixariam cair no chão, como fez Bad Bunny.

Nem sequer lhe passara pela cabeça o novo tirano global que veria uma criança muito parecida com aquela que seus capangas haviam prendido semanas antes em Minneapolis aceitar o Grammy que o artista havia ganhado, gritando: "ICE fora!". Nem que com esse gesto, muito mais digno do que a vergonhosa farsa de Corina Machado ao lhe entregar o Prêmio Nobel na Casa Branca, ele elevaria e reacenderia a esperança em milhões de corações abatidos e amedrontados por todo o país, corações dominados pela constante ameaça de deportação que pairava sobre eles.

E certamente aqueles que, ao longo deste triste e atroz ano, se curvaram ao tirano sem resistência, compreenderam a lição moral, ética e artística de Bad Bunny. Líderes submissos e chefes de países democráticos, eleitos por seus cidadãos, que o visitaram, o entreteram e toleraram suas barbaridades, que lhe disseram "amém", que se curvaram e, com isso, nos privaram da dignidade necessária e urgente de lhe dizer, com toda a justificativa que temos: Basta!

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