A cara do Brasil que se reprimariza. Artigo de Marcio Pochmann

(Foto: Rovena Rosa | Agência Brasil)

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Julho 2023

Desindustrialização mudou perfil demográfico do país. Sem oportunidades, 2,4% dos brasileiros estão no exterior. População deixa metrópoles e incha cidades médias, dinamizadas pelos serviços aos ruralistas e constituindo sua base sociopolítica.

O artigo é de Marcio Pochmann, economista, pesquisador e político brasileiro, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ex-presidente da Fundação Perseu Abramo e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em artigo publicado por Outras Palavras, 10-07-2023. 

Eis o artigo. 

O Brasil do primeiro quarto do século XXI se apresenta profundamente diferente daquele que existia antes do ingresso na globalização dos anos 1990. Sinteticamente, a nação vergou.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a participação do Brasil no PIB mundial (em preços correntes e em poder de paridade de compra) declinou de 4,3%, em 1980, para 1,7%, em 2022. Da sexta maior economia do mundo, retrocedeu à nona posição global.

Para as Nações Unidas, a presença do Brasil na população mundial decresceu de 2,7%, em 1980, para 2,5%, em 2022. Da quinta maior população, regrediu para a sétima. A se manter essa trajetória demográfica, o Brasil pode deixar de estar entre os dez países mais populosos do mundo no final do século XXI.

Considerando as informações do Censo de 2022, chamam a atenção três grandes mudanças identificadas no Brasil desde o início do século XXI.

A primeira diz respeito à longa estagnação da renda per capita nacional, que terminou por impactar direta e indiretamente nas decisões dos brasileiros, especialmente no que diz respeito à trajetória da natalidade. A aceleração na queda dos nascimentos em relação ao total da população se mostrou decisiva para que a transição demográfica se aprofundasse muito rapidamente.

Assim, o Brasil, que tinha o seu passado de forte crescimento populacional, inverteu o sinal ao longo do início do século XXI. Caso não seja alterada a política demográfica, por exemplo, a população do país se manterá estabilizada, podendo ainda diminuir em termos absolutos, enquanto no século XX, o número de brasileiros foi multiplicado por dez vezes e, no século XIX, multiplicado por cinco vezes.

A segunda grande alteração é o inédito processo da desmetropolização populacional, com a mudança do sistema industrial, outrora complexo, diversificado e integrado regionalmente, para o modelo econômico primário-exportador acompanhado pela desindustrialização nacional.

No ano de 2022, por exemplo, o conjunto das grandes cidades constituídas por 500 mil e mais habitantes reduziu a participação relativa no total da população para 29%.

Em 2010, as metrópoles brasileiras responderam por 29,3% do total da população, bem acima do ano 2000, quando era de 27,6%. Em contrapartida, o conjunto das cidades médias constituídas por 100 mil a 500 mil habitantes cresceu a presença relativa no total da população para 28%, enquanto em 2010 era de 25,4% e, em 2000, de 23,2%.

Destaca-se que as regiões metropolitanas, em sua maioria situadas nas áreas litorâneas do país, exerciam até os anos 1980 uma forte centralidade no progresso da industrialização nacional. Atualmente, após o longo percurso da desindustrialização, as bases da moderna sociedade urbana e industrial encontram-se arruinadas, com as metrópoles do país concentrando atrasos da pobreza, desemprego e violência.

Uma verdadeira síntese da cara do Brasil forjado pelo novo sistema jagunço a dominar pelo fanatismo religioso e pelo banditismo social as multidões de sobrantes sem destino que vagueiam nas periferias dos centros urbanos desmetropolizados. Em contrapartida, avança a modernidade na forma de enclaves econômicos cada vez mais conectados ao exterior com o turismo e, sobretudo, o agrarismo exportador.

Neste contexto do enriquecimento interiorizado nas cidades médias, crescendo no ritmo “chinês”, o vazamento da riqueza atrai um segmento crescente e variado de ocupações “servis, indispensáveis à reprodução do modelo consumista copiado do american way of life e situado na “cobertura aberta no andar de cima” da sociedade brasileira. Assim, a dinâmica contida do emprego na atividade econômica primário-exportadora termina por ser “compensada” pela difusão de serviços de atenção à reprodução dos novos-ricos do país.

Por fim, mas não menos importante, os múltiplos impactos decorrentes da inclusão da população brasileira na Era Digital – em grande medida, a defasagem dos atuais padrões tributário e federalista, próprios do passado da sociedade industrial que ficou para trás. Neste sentido, o decréscimo da população e o seu deslocamento geográfico no território nacional revelam a reconfiguração social do país.

A nova cara do Brasil rebate direta e indiretamente nos municípios, especialmente naqueles que perdem e nos que convivem com a estagnação dos seus habitantes. Na Era Digital, o motor dos negócios não mais se assenta na exclusividade do dinamismo tradicional exercido pela ocupação realizada fora do local de moradia.

Sem condições de oferecer condições de vida e trabalho decentes, o país passou a conviver com o ineditismo da diáspora de brasileiros que emigraram para outros países. No ano de 2022, as estimativas apontam 2,4% da população nacional vivendo fora, enquanto em 1980 era menos de 1%.

Leia mais