Privatização das águas: o fracasso da Inglaterra

Foto: aleksandarlittlewolf | Freepik

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

21 Dezembro 2022

Há 33 anos, Thatcher vendia os serviços de água e saneamento do país. Hoje, britânicos enfrentam aumentos abusivos de tarifa, danos ao meio ambiente, rios e mares sujos e má gestão. OMS recomenda “aumento drástico” de investimentos públicos.

A reportagem é publicada por OutraSaúde, 20-12-2022.

Na semana passada, quando o grupo de Cidades da equipe de transição de Lula propôs rever a privatização das águas e do saneamento no Brasil, começou a gritaria. Em manchete, o Estadão queixou-se: entre as ideias da equipe está a de não vender as empresas estaduais que abastecem a população, nem oferecer dinheiro público aos privatizadores. Nessas condições, prosseguiu o jornal, será difícil executar os planos construídos no governo Bolsonaro e transformar a água em mercadoria…

A mídia brasileira não noticiou, mas no mesmo período, a Autoridade Reguladora dos Serviços de Água [Water Services Regulation Authority (Ofwat)], órgão responsável pelo controle e fiscalização do setor privatizado de água e esgoto no Reino Unido, emitiu um alerta inusual para o alto nível de poluição das águas e a baixa qualidade dos serviços de tratamento e distribuição por parte das empresas responsáveis. Os dados são dramáticos. Para a população, água poluída nas torneiras, inundação de esgoto nas casas e praias inservíveis. Para os acionistas das corporações, lucros abundantes.

As empresas Northumbrian Water, Southern Water, South West Water, Thames Water, Welsh Water e Yorkshire Water foram descritas pelo relatório como atrasadas no método de atendimento aos cidadãos e na administração de seus sistemas. O pronunciamento da Ofwat representa uma mudança de postura, após anos em que as empresas não foram devidamente regulamentadas, analisou o The Guardian.

“As companhias de água e esgoto estão falhando quando se trata de cuidar dos clientes, do meio ambiente e de sua própria resiliência financeira. Essas empresas precisam resolver esse desempenho inaceitável com urgência” declarou David Black, executivo-chefe da Ofwat. “Em 2021 e 2022 houve um aumento do número de incidentes graves de poluição, além do descumprimento das obras de tratamento. Apenas quatro empresas atingiram o nível de desempenho para reduzir o alagamento de esgoto nas residências”, concluiu. O relatório aponta um baixo investimento nas estações de tratamento e o aumento de incidentes relativos à inundação de esgotos.

O problema vem gerando mais preocupação diante da perspectiva de crescimento populacional e agravamento dos efeitos das mudanças climáticas. O país privatizou seu serviço de saneamento em 1989, durante o governo neoliberal de Margaret Thatcher. Na década de 1980, as infraestruturas para gestão e tratamento da água sofreram com problemas de subfinanciamento por parte da administração pública. No final da década, o governo vendeu também os ativos do setor à iniciativa privada na bolsa de valores. O modelo adotado se beneficiou da estrutura institucional regionalizada, centralizada e sem intervenção de poderes locais implementada anteriormente à privatização, conforme uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, publicado em janeiro de 2000.

Antes da privatização, frequentemente a água não-tratada era despejada ao mar, enquanto o sistema de saneamento de Londres ainda datava da época vitoriana e carecia de estrutura para impedir enchentes durante períodos de fortes chuvas. Mas como ficou claro, a privatização não resolveu o problema. O despejo de esgoto em praias continua uma realidade: em agosto deste ano, a região da Cornualha, no oeste inglês, teve 14 de suas 80 praias interditadas devido ao esgoto.

Críticos apontam que a privatização vem gerando, nos últimos anos, uma evasão fiscal generalizada, ocultando informações sobre um serviço vital através da confidencialidade comercial – além de um aumento de 42% nas contas de água, descontados os valores da inflação.

Em seu editorial de 22 de junho de 2022, o The Guardian afirmou que “a privatização é o deus que falhou”. O jornal afirmou que a promessa de que a privatização traria “bons serviços, economia para o governo e mais investimentos” nunca se concretizaram. Naquele momento, a Anglian Water, uma das maiores prestadoras privadas dos serviços de água e esgoto, acabara de pagar um dividendo de 92 milhões de libras [R$ 591 milhões] aos seus acionistas, entre os quais estão a Abu Dhabi Investment Authority e o Canada Pension Plan Investment, mesmo causando enormes danos ambientais ao país. A empresa havia sido multada pela Agência do Meio Ambiente no primeiro semestre deste ano devido ao lançamento de esgotos em rios e lagos; a população atendida pela Anglian tinha recebido um aumento em suas tarifas de 5%, enquanto Peter Simpson, presidente-executivo da empresa, e Steve Buck, diretor financeiro, receberam juntos mais de 2,2 milhões de libras como bônus em 2021.

Uma semana após o pronunciamento da Ofwat, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou a Análise Global e Avaliação de Saneamento e Água Potável (GLAAS) da ONU e defendeu “ações globais e locais urgentes para garantir água, saneamento e higiene geridos de forma sustentável e para todos”, a fim de evitar “impactos devastadores na saúde de milhões de pessoas”. Enquanto 45% dos países estão a caminho de atingir suas metas de cobertura de água potável definidas nacionalmente, apenas 25% dos países estão a caminho de atingir suas metas nacionais de saneamento, segundo o relatório; menos de um terço dos países relataram ter recursos suficientes para realizar as principais funções de água potável, saneamento e higiene. Por fim, 75% das nações relataram financiamento insuficiente para implementar planos e estratégias no setor.

“Enfrentamos uma crise urgente: o acesso deficiente a água potável, saneamento e higiene ceifam milhões de vidas todos os anos, enquanto a frequência e intensidade crescentes de eventos climáticos extremos continuam a dificultar a prestação de serviços seguros”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, que pediu pelo “aumento drástico” de investimentos em água e saneamento.

Leia mais