“Quem promove mentiras não merece o voto”, afirma arcebispo de Porto Alegre

(Foto: Camila Oliveira | Vatican News)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Outubro 2022

Cristão não pode ser indiferente à fome, à miséria e à falta de trabalho digno, diz 1º vice-presidente da CNBB.

Catarinense de Gaspar, 62 anos, nomeado arcebispo de Porto Alegre pelo Papa Francisco em 2013, Dom Jaime Spengler afirma que o cristão é chamado a ser “sal da terra, luz do mundo, fermento na massa”. Assim, “não pode permanecer indiferente diante de situações que atingem a muitos: miséria, fome, falta de trabalho digno, falta de espaço para ter casa própria digna, segurança, saúde, educação com qualidade”.

A reportagem é de Walmaro Paz, publicada por Brasil de Fato, 29-10-2022.

Também primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, ele repara que o povo brasileiro assiste a uma instrumentalização da fé na busca de votos, atitude que contraria a promoção do bem comum. E aquele que, em busca do voto, falta com a verdade? “Quem promove mentiras não merece o voto, pois não é confiável”, afirma com convicção.

Ordenado sacerdote em 1990, na sua cidade natal, estudou muito. Cursou Teologia em Jerusalém e completou seu doutorado em Filosofia na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma.

Nesta conversa com o Brasil de Fato RS, sustenta que não é papel de padre ou pastor pedir votos para candidatos. Mas entende ser importante orientar os fiéis sobre como escolher aquele a quem destinará o voto. 

Eis a entrevista. 

Como o senhor avalia a perseguição que alguns religiosos estão sofrendo, mesmo dentro de igrejas. Ou mesmo a situação criada em Aparecida pelo presidente da República e seus apoiadores?

Assistimos a instrumentalização de aspectos que marcam a prática religiosa para angariar votos. Tal situação contradiz o que compete à atividade pública: a promoção do bem comum. O salutar debate político deveria trazer para os espaços de diálogo temas, questões que necessitam de atenção particular, urgente. Não é isto que estamos assistindo em alguns debates.

O senhor entende que seja obrigação do cristão participar da política? Como deveria ser essa participação?

O cristão é chamado a “ser sal da terra, luz do mundo, fermento na massa”. Todo cidadão é corresponsável pelo bem de toda a sociedade. O cristão não pode permanecer indiferente diante de situações que atingem a muitos: miséria, fome, falta de trabalho digno, falta de espaço para ter casa própria digna, segurança, saúde, educação com qualidade. Atento ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, o cristão é convocado a cooperar na construção de uma terra sem males.

Devemos eclesializar os partidos?

Os partidos políticos têm tarefas específicas. Cabe aos partidos oferecer à sociedade as linhas mestras de seus projetos para a nação. No Brasil há tantos partidos! Ousaria dizer que, embora esteja disponível para o conhecimento de todos, não se tem conhecimento do que verdadeiramente cada partido defende, e nem há um acompanhamento das atividades que os candidatos eleitos pertencentes a um e outro partido desenvolvem nas atividades parlamentares. Há entidades que procuram realizar tal acompanhamento e avaliação. Contudo, não é o comum da sociedade.

É necessário formar uma bancada evangélica ou católica? Partidarizar a Igreja?

A Igreja não promove ‘bancadas’. O que se faz necessário é estar atentos ao caráter dos candidatos a cargos públicos, que não estejam envolvidos em corrupção; que seja defensor da vida, desde a concepção até o seu ocaso natural; que seja uma pessoa de valor; que apresente e defenda um projeto objetivo de governo, sem esquecer dos mais pobres, fragilizados, descartados...

Na sua opinião, como deveria ser a atuação de políticos cristãos? Deveria defender posições análogas à de Cristo em partidos laicos?

A atuação de políticos cristãos deveria ser pautada pelo princípio do bem comum, da promoção e defesa do Estado Democrático de Direito e da ética, no respeito às diferenças e cuidado de todos, sem exceções.

Acredita que está em sintonia com a mensagem do cristianismo o uso da mentira ou espalhar fake news?

Quem promove mentiras não merece o voto, pois não é confiável. Não se pode esquecer que a política possui um papel essencial para garantir que todos tenham acesso à vida digna: casa, teto, trabalho, com educação, saúde, segurança...

No seu entender é correta a expressão "Deus acima de Tudo"? Ou devemos dizer “Ele está no meio de nós”?

Deus é para nós a referência maior. Ele caminha ao lado dos seus; ele prometeu estar com os seus todos os dias, até o final dos tempos. É esta convicção oferecida pela fé que oferece luzes para o empenho na promoção do Reino de Deus e sua justiça.

Na sua visão, o Estado laico como está na nossa Constituição defende a liberdade religiosa?

O Estado é laico. No entanto os cidadãos/ãs cultivam uma determinada prática religiosa e/ou são orientados por uma experiência de fé que dá sentido a toda a existência.

Muitos cristãos estão sofrendo por querer votar diferente da orientação do seu pastor ou padre. Acredita que é pecado votar contra a orientação de sua igreja?

O importante é cultivar uma consciência crítica. Cada um é livre para escolher aquele/a candidato/a que, segundo a própria consciência, os valores do Evangelho e a Doutrina Social da Igreja julgar mais apto para trabalhar em favor de todos, tendo como referência – repito – o bem comum e a ética.

Concorda que padres ou pastores, usando de sua autoridade pastoral, indiquem em quem os fiéis devem votar?

Não é função de quem quer que seja indicar votação neste ou naquele candidato. Não se pode esquecer que a boa política é uma das formas mais eficazes para ajudar as pessoas de uma forma mais integral. “A política é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (Papa Francisco). Infelizmente, em alguns setores, a política se tornou espaço de interesses, barganhas, "jogos" marcados por situações que a descaracterizam...

Qual mensagem o senhor deixaria para os católicos na hora de votar neste segundo turno?

A escolha que todos são chamados a realizar deveria estar marcada pela possibilidade de sonhar com dias melhores; com a atuação de estadistas que vivam a política como uma verdadeira vocação; com a promoção de eficiência e transparência nas diversas instâncias do poder público. Que ninguém se deixe influenciar por mentiras de quem quer que seja!

Leia mais