Fréjus-Toulon: suspensão das ordenações, o castelo de cartas desaba

Abadia de Fréjus-Toulon (Foto: Alain Bourque | Wikimedia Commons)

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20 Junho 2022

 

Há vários anos, chegam a Roma reclamações sobre o acolhimento de novas comunidades na diocese de Fréjus-Toulon. A suspensão das ordenações no seminário de La Castille é a consequência.

 

A reportagem é de Timothée De Rauglaudre, publicada por Témoignage chrétien e reproduzida por Fine Settimana, 16-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

A decisão romana ressoou como um trovão: as dez ordenações previstas para o final de junho no prolífico seminário de La Castille estão suspensas por tempo indeterminado. Ao mesmo tempo, D. Rey rogava a seus padres, com um e-mail interno ao qual tivemos acesso, que não falassem com a imprensa: “Neste momento, não há outras informações. Pede-se a todos que indiquem aos jornalistas de entrar em contato com o serviço de comunicações”.

 

E por um bom motivo: o prelado não cai das nuvens. Há dois anos, soubemos de fontes diocesanas, vêm chegando ao Vaticano reclamações sobre a "governança do bispo". Algumas vêm de seu entourage próximo, incluindo um de seus três vigários gerais. No começo de 2020, um ex-diretor do seminário de La Castille enviou uma carta aos vigários gerais e episcopais, na qual lançava "fortes gritos porque o seminário estava sendo reconfigurado de maneira muito tradicionalista", revela um padre da diocese.

 

Há duas décadas, a diocese de Fréjus-Toulon assumiu a aparência de um enorme castelo de cartas que corre cada vez mais o risco de ruir. As bases já haviam sido lançadas pelo predecessor do bispo, D. Joseph Madec, que decidiu em 1983 reabrir o seminário. Defensor fervoroso da nova evangelização cara a João Paulo II, foi o primeiro a acolher na França a Communauté Saint-Martin. Ele também ordenou o prior tradicionalista de Sainte-Croix de Riaumont e defendeu a Communauté Saint-Jean das acusações contra o fundador.

 

D. Rey, quando, em 2000, se tornou o primeiro bispo francês vindo da Comunidade do Emmanuel e da Renovação Carismática, retomou e ampliou a orientação de Mons Madec: acolher todo tipo de novas comunidades para enfrentar a crise das vocações. Algumas são carismáticas, como a brasileira Canção Nova et Shalom, outros tradicionalistas ou "tradismáticas", como os Missionários da Divina Misericórdia, fundadas por um ex-lefebvriano, desejoso de evangelizar os muçulmanos, outras mais clássicas... Seu número chegou a cinquenta.

 

Resultado: a diocese conta com mais de duzentos padres em atividade. Mas a que preço?

 

Logo algumas comunidades foram apontadas pelos riscos de derivas sectárias. Entre estas, Points-Coeur, cujo fundador foi condenado em 2011 pelo tribunal eclesiástico de Lyon por "abuso sexual, abuso de poder e absolvição de um cúmplice". D. Rey, ciente de uma investigação canônica, mesmo assim acolheu a comunidade em sua diocese em 2008. Ele iria aguardar até 2016 para tomar as sanções.

 

A Fraternité Eucharistein, nascida na Suíça, também pode ser mencionada. Em 2003 o bispo ordenou seu fundador dispensando-o do seminário. Quando avisado da existência de exorcismos selvagens e da natureza manipuladora do fundador, ele não reagiu. “Sua estratégia é um acolhimento 360 graus para recuperar os padres quando as novas comunidades se desintegram”, acredita um ex-membro da Eucharistein.

 

Na diocese se ouvia falar da visita de D. Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, há pelo menos um semestre. O futuro cardeal notou disfunções no seminário. De fato, muitos dos seminaristas foram formados em comunidades novas ou no exterior. O papa teria se surpreendido ao encontrar em Roma estudantes de um seminário paraguaio objeto de uma investigação do Vaticano e refugiados na diocese de Fréjus-Toulon. “Padres, que nunca deveriam ter sido ordenados, ao contrário, foram ordenados contra a opinião do ex-responsável do seminário e de alguns professores”, afirma uma fonte diocesana.

 

O que vai acontecer agora? Talvez a demissão próxima do bispo seja apenas um boato. Enquanto isso, o bispo supostamente recusou que o Vaticano nomeasse um coadjutor pelo tempo necessário para esclarecer a situação. Enquanto isso, como Roma mantém um silêncio sepulcral, os seminaristas veem a perspectiva de sua ordenação por um fio. Certamente não acontecerá quando retornarem em setembro, quando o seminário de La Castille celebrará seu centenário.

 

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