Entre pimentas e melancias. Artigo de Gianfranco Ravasi

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25 Mai 2021

 

"Um antigo ditado rabínico afirmava que mais vale um grão de pimenta do que uma cesta de melancias. Uma educação (e uma pregação) rabugenta e cheia de bons e santos clichês nos deixa totalmente indiferentes".

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 23-05-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“O amor não consiste em acariciar uma coxa.” Até os cônegos acordariam se o bispo dissesse tal coisa do púlpito. Então, ele diria: “Amar significa amar os outros mais do que a nós mesmos”. Aqui, os cônegos adormeceriam imediatamente de novo.

É uma pena que não se leiam mais os romances de Bruce Marshall, o conhecido escritor católico escocês, que morreu aos 80 anos de idade em 1979. É o caso de “A bela noiva”, do qual tiramos tal citação um tanto travessa, mas irrefutável.

Ela oferece o ponto de partida para sublinhar a necessidade de um pouco de sabor e de tempero para comunicar a verdade. Um antigo ditado rabínico afirmava que mais vale um grão de pimenta do que uma cesta de melancias. Uma educação (e uma pregação) rabugenta e cheia de bons e santos clichês nos deixa totalmente indiferentes.

Além dessa óbvia observação de método, também se pode colher uma nota de conteúdo a partir das palavras de Marshall. O amor é muito mais do que a carnalidade, e a sua descoberta ocorre no caminho do coração, do sentimento e da doação.

No entanto, não se deve ter a mente estreita ao julgar o comportamento de uma pessoa, criticando-o apenas por um ato de fraqueza carnal. Saber amar é bem mais do que “acariciar uma coxa”; mas não se deve ser um guardião implacável e rígido de uma moralidade medida apenas sobre os gestos exteriores.

No entanto, não devemos nos reduzir àquele homem e àquela mulher de meia-idade que o Pe. Gaston, outro personagem de Marshall, tem em sua frente no trem: “Tão indiferentes um ao outro a ponto de se pensar que eram casados”.

 

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