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Big techs devem fazer mais para prevenir os abusos online, afirma especialista do Vaticano

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16 Abril 2021

 

Um especialista na proteção de crianças disse que enquanto o mundo se torna mais digital, as grandes companhias de tecnologia não estão fazendo o suficiente para impor medida seguras, alertando que a prevalência de abusos sexuais infantis estão se expandido online, com um aumento drástico durante a pandemia de coronavírus.

Falando ao Crux, o padre jesuíta Hans Zollner afirmou que os desenvolvimentos avançados em tecnologia, da tecnologia da informação em particular, estão “permitindo que novas formas de abusos se enraízem”.

A reportagem é de Elise Ann Allen, publicada por Crux, 12-04-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“A internet e as novas tecnologias representam um terreno fértil no qual os abusos sexuais contra menores e adolescentes podem encontrar novas formas de expressão, como o sexting, extorsão sexual, aliciamento e abusos por vídeo, através de vendas, envios, compartilhamentos e distribuição de imagens e conteúdos de sexo explícito”, disse.

De acordo com Zollner, relatórios públicos apontam que as formas digitais de abuso estão “aumentando exponencialmente ano após ano”, e possivelmente levarão ao abuso sexual no futuro.

Esse tipo de abuso aumentou “dramaticamente” durante a pandemia de coronavírus. Como muito do mundo dependente da internet e das plataformas digitais para funcionar, ele disse, notoriamente em alguns países, o número de pessoas acessando websites que oferecem materiais de abuso sexual infantil “foi muito maior desde o início da pandemia”.

“Então, aqueles que trabalham na indústria de tecnologia têm um grande dever cívico de se educar sobre abusos e como as crianças são mais vulneráveis do que eram antes”, afirmou.

Zollner disse que a colaboração próxima entre especialistas de proteção de crianças e líderes de indústrias tecnológicas é “crucial” para a prevenção, e demarcou a necessidade de medidas de proteção claras em sites ou plataformas onde as crianças podem ser aliciadas.

No encerramento de um Congresso Mundial sobre Dignidade Infantil na Era Digital de 2017, o Papa Francisco, disse ele, apelou aos envolvidos na política, pesquisa e aplicação da lei, bem como representantes de organizações internacionais e líderes religiosos, a trabalharem mais de perto na prevenção de abusos online.

Ele enfatizou a necessidade das grandes empresas de tecnologia “investirem uma quantia substancial do dinheiro que ganham na criação de mais medidas de segurança para as crianças”.

“Infelizmente, a resistência para fazer isso é forte, e é por isso que precisamos promover essa preocupação e fazer nossa parte para educar, conscientizar e fornecer ferramentas de proteção”, disse Zollner, apontando para os esforços de Julie Inman-Grant, a Comissária de Segurança na Austrália e sua equipe como exemplo.

Zollner é chefe do Centro de Proteção a Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e também membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores.

Recentemente, ele fez parte da lista de palestrantes de um simpósio virtual de dois dias intitulado “Fé e florescimento: estratégias para prevenir e curar o abuso sexual infantil”, organizado em conjunto pela Universidade de Harvard, a Universidade Católica da América e a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores.

Em sua entrevista ao Crux, Zollner disse que os líderes religiosos também têm a responsabilidade de fazer mais em termos de reconhecimento e conscientização do problema – que em muitos lugares ainda é considerado um tabu – e prevenção.

“Vemos em todas as instituições, credos, culturas e comunidades em todo o mundo uma hesitação em reconhecer e falar sobre o abuso sexual e sua assustadora escala”, disse ele, insistindo que os líderes religiosos são responsáveis por “dar o exemplo para toda a sua comunidade de fé sobre como lidar com o abuso sexual que ocorreu dentro de seus próprios ambientes”.

Os líderes religiosos “estabelecem padrões de como aqueles que fazem parte de sua comunidade religiosa abordam os tópicos de salvaguarda, proteção infantil, abuso sexual, encobrimentos, prevenção e intervenção, etc.”, disse ele.

“Eles devem ser um exemplo para aqueles que formulam políticas – e desafiam os formuladores de políticas ao mesmo tempo – e também manter um diálogo aberto com as vítimas-sobreviventes, a fim de criar melhores procedimentos que lidem com o abuso sexual”.

Zollner disse que os líderes religiosos também desempenham um papel crucial em ajudar as vítimas-sobreviventes a se curar, um processo, que ele disse, começa ouvindo suas histórias.

“Este é talvez o passo mais essencial: ouvir como os sobreviventes e seus entes queridos foram afetados pelos abusos”, disse ele, observando que cada sobrevivente de abuso sexual tem seu próprio caminho para a cura e obtenção de justiça.

“Como líderes religiosos, devemos fornecer apoio a eles, de acordo com suas necessidades e expectativas”, disse ele, acrescentando que quando as vítimas finalmente se apresentarem, “deve haver procedimentos e recursos adequados disponíveis para eles que levem a sério o que dizem e os ajudem a receber a justiça que procuram”.

Eventos de grande escala, como o simpósio da semana passada e a conferência da Dignidade Infantil 2017, bem como outros workshops e conferências menores, são coisas que podem ajudar a espalhar a consciência e colocar diferentes setores da sociedade na mesma página, disse Zollner.

Eventos como esses são “evidências de um reconhecimento global da dor que foi infligida às vítimas de abuso sexual – algo que foi ignorado ou escondido em muitas sociedades, culturas e instituições por muito tempo”, disse ele, elogiando o progresso que foi feito.

No entanto, além desses eventos, deve haver um acompanhamento, disse ele, acrescentando, “é importante que exista um diálogo permanente entre aqueles que participam, dando origem a novas ideias sobre como enfrentar a questão do abuso, ao mesmo tempo que se aprofunda nossa compreensão do abuso e seus efeitos duradouros em qualquer cultura ou contexto”.

Como nem todas as culturas têm a mesma visão em termos de como lidar com o abuso sexual infantil, o intercâmbio entre líderes de diferentes comunidades e setores pode promover um entendimento e uma abordagem mais unificados, o que por sua vez pode ajudar na prevenção, disse Zollner.

Quando se trata do papel da Igreja Católica, as histórias dos sobreviventes devem ser levadas a sério e intervir quando algo não está certo, disse ele, afirmando que isso “ajudará a garantir à comunidade de sobreviventes que suas vozes foram ouvidas, que o abuso é reconhecido, algo está sendo feito a respeito”.

“Essa confiança em nossos esforços de salvaguarda se baseia em nosso reconhecimento dos crimes que foram cometidos no passado – os crimes de abuso, bem como de sua ocultação, encobrimento e negligência”, disse ele.

Como Igreja, “devemos nos perguntar constantemente: o que o Senhor crucificado e ressuscitado espera de nós no cuidado da dignidade do ser humano, especialmente dos mais feridos e/ou vulneráveis, e como seguimos Seu chamado para colocar o outro no centro e não nossa própria reputação, riqueza ou posição?”.

“Os fiéis e a sociedade esperam quem sejamos corajosos e consistentes em corresponder nossas palavras com nossas ações”, afirmou.

 

Leia mais

 

  • “Ainda hoje existem lugares em que a Igreja segue negando a evidência dos abusos”, afirma Hans Zollner
  • Zollner, conselheiro do Papa escreve aos sobreviventes de abusos sexuais cometidos pelo clero da Inglaterra e País de Gales
  • “Quarentena, risco para as crianças mais vulneráveis”. Entrevista com Hans Zollner
  • América Latina. Abuso sexual de menores aumenta durante a pandemia
  • Hans Zollner diz que Relatório McCarrick envia uma clara mensagem à hierarquia
  • Hans Zollner espera que o relatório McCarrick “tenha consequências”
  • Abusos, celibato, mulheres: simpósio em Roma debaterá o sacerdócio
  • Abusos: “De uma conscientização coletiva deve surgir uma responsabilidade colegial”. Entrevista com Nathalie Sarthou-Lajus, primeira editora da secular revista Études
  • Seminários precisam de claras diretrizes sobre assédio sexual para prevenir os abusos clericais

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