Sem o laicato, na Igreja da Amazônia, a coisa não anda

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Agosto 2020

"Esse isolamento histórico de muitas comunidades amazônicas tem se visto incrementado neste tempo de pandemia, uma situação que tem que nos levar a refletir, a não ter medo em apostar decididamente em uma Igreja laical, ministerial. As propostas recolhidas no Documento Final do Sínodo para a Amazônia, assumidas pelo Papa Francisco na exortação pós-sinodal Querida Amazônia, devem ser instituídas no chão amazônico, se fazendo realidade uma Igreja com rosto amazônico, onde tradicionalmente a Igreja foi sustentada pelo compromisso dos leigos e leigas", escreve Luis Miguel Modino, padre espanhol e missionário Fidei Donum.

Eis o artigo.

O mês vocacional, especialmente esta semana em que a Igreja do Brasil lembra e agradece a Deus pelo laicato, me traz de volta muitas das reflexões presentes ao longo do processo do Sínodo para a Amazônia. A gente pode dizer que as características da Igreja da Amazônia são especiais, a miscigenação cultural e a geografia da região considero que são dois elementos que não podemos deixar de lado.

A Igreja da Amazônia está inserida em uma realidade onde a presença eclesial, quando ela se reduz aos ministros ordenados, é muito difícil. São muitas as comunidades onde para chegar nelas, usando os meios habituais de transporte, é necessário viagens de vários dias, o que demanda novos modos de presença institucional e sacramental, algo que parece que a gente tem medo de discutir abertamente, mas que antes ou depois, esperemos que não seja tarde demais, vai ter que ser debatido.

Existem Igrejas, como acontece com a Alemanha, onde essas questões estão sendo discutidas abertamente. O Sínodo da Igreja Alemã está colocando em pauta todos os temas que fazem parte da vida da Igreja, mas também da vida do povo. Discutir as diferentes questões, com honestidade e respeitando as diferentes posturas, é algo que ajuda a crescer e encontrar novos caminhos, fruto do discernimento, que é um princípio que tem como fundamento o Evangelho.

Nos últimos dias, o bispo de Hamburgo reclamava a discussão aberta, sem medo, sobre o papel da mulher na Igreja, inclusive seu possível acesso ao sacerdócio. Os bispos da Alemanha mostraram sua disconformidade com as novas diretrizes para a catequese promovidas pelo Vaticano. Diante dessa postura, o cardeal Stella, prefeito da Congregação do Clero, convidou os bispos a se encontrar no Vaticano. Eles aceitaram, mas colocaram como condição que estivessem acompanhados pelos leigos, pois os bispos insistem em que os leigos são tão importantes quanto os sacerdotes no dia a dia das paróquias.

A vocação fundamental é a de discípulos e discípulas, algo que a gente assume pelo batismo. Partindo daquilo que une a todos aqueles que fazem parte da Igreja, os ministérios, sejam ordenados ou laicais, devem ser entendidos como serviços ao Povo de Deus. Quando a gente entende que a vocação não pode ser contemplada desde as ordens sagradas ou a consagração religiosa, vamos enriquecendo a caminhada eclesial, dando sentido ao sacramento primeiro e fundamental na vida de todo cristão.

Esse isolamento histórico de muitas comunidades amazônicas tem se visto incrementado neste tempo de pandemia, uma situação que tem que nos levar a refletir, a não ter medo em apostar decididamente em uma Igreja laical, ministerial. As propostas recolhidas no Documento Final do Sínodo para a Amazônia, assumidas pelo Papa Francisco na exortação pós-sinodal Querida Amazônia, devem ser instituídas no chão amazônico, se fazendo realidade uma Igreja com rosto amazônico, onde tradicionalmente a Igreja foi sustentada pelo compromisso dos leigos e leigas.

A Igreja da Amazônia não pode se amedrontar diante de pressões que vêm de fora, muitas vezes de pessoas que não conhecem a realidade das comunidades amazônicas. Pela falta de coragem para assumir novos caminhos, onde os leigos têm um papel em destaque, muitas comunidades são privadas dos sacramentos, especialmente da Eucaristia, que é a fonte e o ápice da vida cristã. Vivemos tempos em que a realidade nos mostra a necessidade de mudar de rumo, também na caminhada eclesial. Se em todo lugar essa mudança é urgente, na Amazônia é inadiável, é tempo de sinodalidade, de caminhar juntos, de fazer realidade uma Igreja fundamentada no sacerdócio comum dos fiéis.

Leia mais