Estamos acabando com o mundo e vamos cada vez pior: a economia circular perde força

Foto: Galo Naranjo | Flickr

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07 Fevereiro 2020

Segundo os dados apresentados no novo Relatório sobre a Lacuna Circular, a proporção de materiais e recursos que se reusam e reciclam a nível global diminuiu de 9,1% do total a 8,6%, enquanto que a humanidade usou mais materiais do que nunca, chegando às 100 bilhões de toneladas de recursos em apenas um ano.

O artigo é de Eugenio Fernández Vázquez, consultor ambiental do Centro de Especialistas e Gestão Ambiental no México, publicado por CPAL Social, 03-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Se o mundo retroceder nas medidas para reduzir a crise climática e ambiental que vivemos as coisas irão ainda pior, apesar de como já arderam em chamas a Austrália, Amazônia e Califórnia. Assim mostra o novo Relatório sobre a Lacuna Circular que acaba de ser publicado (disponível em inglês, neste link).

Segundo os dados apresentados, a proporção de materiais e recursos que se reusam e reciclam a nível global diminuiu de 9,1% do total a 8,6%, enquanto que a humanidade usou mais materiais do que nunca, chegando às 100 bilhões de toneladas de recursos em apenas um ano.

Princípios da Economia Circular

O novo relatório é elaborado pela Plataforma para Acelerar a Economia Circular, uma iniciativa abrigada pelo Instituto de Recursos Mundiais (WRI, em inglês) e liderada por Royal Philips e o Fundo para o Meio Ambiente Mundial.

O que mostra essa nova publicação é um mundo que não tomou medidas de contundência necessária para reduzir os impactos da economia em dois flancos fundamentais: a extração de recursos e seu descarte.

Pelo lado da extração, esse relatório encontrou que entre 2015 e 2017 os recursos extraídos passaram de 84,4 bilhões de toneladas de materiais para 92 bilhões de toneladas, um aumento de 9%.

Ademais, o total de desperdícios no mundo passou no mesmo período de algo abaixo de 20 bilhões de toneladas para quase 33 bilhões de toneladas. Ainda que o relatório demonstre que grande parte do aumento pode ser um artifício da mudança de metodologia, o crescimento está aí, ainda que seja um pouco menor que o aparente, e isso segue sendo uma notícia muito ruim.

Enquanto isso, os recursos reutilizados, a duras penas, alcanças as 9 bilhões de toneladas, e ainda que neste item o relatório registre um aumento de quase 1,5 bilhões de toneladas, essa melhora é enfraquecida diante dos retrocessos que ocorreram.

A economia se fez menos sustentável, apesar dos esforços de muitos e da enorme quantidade de promessas e salivas gastas pelos líderes do mundo.

Apesar de o relatório em si mesmo ser um avanço, porque põe o tema da economia circular sobre a mesa e permite entender o que ocorre na matéria, tem um problema visível: que seus autores seguem esperando que o crescimento econômico possa ser feito sem destruir o mundo.

Assim é aparente, na forma em que catalogam os países, usando entre outros indicadores esse. O uso desse índice não é ruim em si – é um dos mais compreensivos dos que dispomos a nível global – porém o informe destaca como algo positivo que um país tenha uma economia “poderosa e em crescimento”, e isso é como pedir a alguém que perca peso ao mesmo tempo que lhe receitamos mais açúcar.

O problema em pedir às economias que cresçam – em lugar de, por exemplo, gerar maior igualdade e prosperidade para todos, independentemente de seu tamanho – é que para conseguir necessita-se ganhar em escala, concentrar a riqueza e explorar os de baixo para ter maiores excedentes a investir e aumentar o que se faz.

Uma economia que cresce, ainda, necessariamente necessita consumir mais materiais, com poucos incentivos para busca-los entre o reusáveis ou reciclados.

A alternativa, ainda, está em imaginar um novo caminho e um novo destino para as economias do planeta.

Mais que pensar em crescer, há de se pensar em redistribuir; mais que aplaudir uma enorme corporação global se compromete a não usar sacolas plásticas ou a comprar este ou outro material orgânico, há que se fortalecer as economias locais, as pequenas empresas ou as cadeias curtas.

Fazer isso é, sem dúvida, difícil. Levará tempo e um trabalho descentralizado e muito plural para construir novos laços, apesar das investidas de governos e transnacionais.

No entanto, já se registraram alguns avanços como os das iniciativas de comércio justo e das cooperativas de consumo. Esses triunfos, ainda que tímidos, mostram que outro mundo é possível. O Relatório sobre a Lacuna Circular mostra que, ainda, é necessário.

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