Os “lobos” também querem morder Francisco

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10 Setembro 2018

A guerra à luz do dia contra o Pontífice é mais do Vaticano do que da Igreja.

O artigo é de Juan Arias, jornalista, publicada por El País, 08-09-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.


Eis o artigo.

A guerra à luz do dia contra o papa Francisco é mais do Vaticano do que da Igreja. São interesses político-econômicos mais do que dogmáticos. Situam-se nas igrejas conservadoras da América de Trump e na Europa com nostalgias fascistas, e não nas jovens igrejas latino-americanas, africanas ou asiáticas que apoiam a revolução evangélica do Papa. É a dos lobos que obrigaram o papa Ratzinger a abdicar e que, ao que parece, continuam vivos e com gana de morder Francisco também.

A outra Igreja, a que exige a fidelidade a suas origens contaminada pelos poderes mundanos que acabaram se incrustando na hierarquia vaticana, essa é a que aplaude Francisco. É a Igreja que se manteve fiel à revolução aberta pelo Concílio Vaticano II. A investida contra o papa Francisco era de esperar. Trata-se do primeiro sucessor de Pedro que chegou a Roma se despojando da mundanidade da Cúria Romana e abrindo as portas da Igreja à caravana dos que haviam sido afastados dela, os mesmos que Jesus preferia.

Talvez Francisco seja só um Papa de transição que possa ainda acabar devorado por quem prefere a antiga Igreja do poder romano, mais centrada na burocracia do que no Evangelho. Se assim for, deixará uma porta aberta à esperança.

Francisco poderia fazer algo mais. Por que não imitar seu antecessor, João XXIII, que em tempos mais difíceis ainda surpreendeu com a convocação de um Concílio Ecumênico? Tinha a mesma idade que Francisco tem hoje. A Cúria conservadora o tinha sob observação. Temia-o. Chegaram a pensar em depô-lo por ousadia. Quando já não puderam, tentaram manipular o Concílio. João XXIII, com sua liberdade de espírito, acabou ganhando a batalha.

Foi a força daquele Concílio que tornou possível que, meio século depois, chegasse ao trono de Pedro, vindo da periferia do mundo, um papa como Francisco que se negou a ser uma cópia dos antigos imperadores romanos. Pode ser que também a ele lhe tenha salpicado a velha estratégia da Igreja de esconder os pecados sexuais de seus representantes. Ainda não o sabemos. O que é certo é que seu pontificado criou um terremoto na Igreja, deslocando seu eixo de poder. A uma Igreja que até agora havia sido fundamentalmente europeia, afirmou em sua primeira saudação que estava chegando “de muito longe”. Chegava dos subúrbios do mundo.

E teve a ousadia, já naquele primeiro momento, de não se limitar a oferecer urbi et orbi a tradicional benção papal. Pediu aos presentes na Praça de São Pedro que também eles “abençoassem o bispo de Roma”, quase uma heresia. Renunciando aos palácios pontifícios, foi viver em uma simples residência para sacerdotes. E ali continua. Mais vulnerável ou mais forte?

Quaisquer que sejam os pecados que as forças conservadoras lhe acusam, o certo é que Francisco supõe um perigo para a Igreja que sempre se negou a ser refundada. Não é fácil quebrar paradigmas que pareciam eternos.

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