Deportados chegam ao México com medo, porque não falam espanhol

Fronteira entre San Diego e Tijuana. Foto: Tomas Castelazo

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16 Julho 2018

As deportações estão entre os fatores que contribuem para a flutuação do número de estudantes no Estado de Baja California, no México. Dos 56 mil alunos estrangeiros que ingressaram na rede, 3,2 mil chegaram no meio do ano letivo.

A reportagem é de Letícia Duarte, publicada por O Estado de S. Paulo, 15-07-2018.

As deportações estão entre os fatores que contribuem para a flutuação do número de estudantes no Estado de Baja California, no México. Dos 56 mil alunos estrangeiros que ingressaram na rede, 3,2 mil chegaram no meio do ano letivo. Na Escola Secundária Ignacio Manuel Altamirano, cerca de 30 dos 860 alunos vieram de fora. “Eles não gostam da mudança.

Chegam com medo, porque não falam espanhol. No início, há muita resistência. Depois, percebem que não têm outra opção e acabam se adaptando”, disse a professora de espanhol Alma Santiago.

Ela lembra do caso de um aluno americano que, ao ser transferido, aparecia um dia e faltava outros quatro. Ao conversar com ele, descobriu que ele tinha vergonha de ir à aula. “Por que ir se eu não entendo, se riem de mim?”, questionou o menino, que hoje está adaptado.

Para facilitar a inclusão, a instituição promove atividades para estrangeiros. No mês passado, 25 alunos americanos foram levados para um passeio em San Diego, na Califórnia. “Queremos que se sintam integrados. Eles voltaram contentes, livres, sentindo que também são parte de lá”, conta Alma.

Outra estratégia é estimular alunos fluentes nos dois idiomas a atuar como tutores dos novatos. Nascida nos EUA, Bethany Cornejo, de 13 anos, auxilia neste trabalho. Como seu pai foi deportado em 2006, ela se mudou ainda pequena para Tijuana. De lá para cá, Bethany tem alternado temporadas em escolas americanas e mexicanas. “Nunca estou na mesma escola por mais de um ano.”

Ela diz que se sente bem ajudando os colegas com traduções. Mas, na hora de escrever, hesita ao transitar entre uma língua e outra. “Não acho difícil, mas às vezes me confundo, pois uma coisa é falar. Outra é escrever.” Assim como a filha, os pais também enfrentam dilemas. A mãe de Bethany, Veronica Cornejo, de 37 anos, que é americana, preferia que a filha e seus dois irmãos continuassem a estudar nos EUA, mas a falta de permissão de residência impediu a matrícula, mesmo que sejam cidadãos americanos.

Por dois anos, Veronica e os filhos chegaram a fixar moradia nos EUA, visitando o pai nos fins de semana. No ano passado, regressaram para Tijuana. “Eu me perguntava, o que é mais importante? A família unida ou uma boa educação para os filhos? Por que não podemos ter ambos?”, questiona a mãe, professora primária nos EUA.

Mestre em educação, Veronica pretende transformar o dilema familiar em seu novo ramo profissional. “Quero ajudar outras crianças americanas que estão aqui, passando pela mesma situação”, afirma. Em casa, a família fala inglês. Por viverem mais a cultura americana, o pai, Alex Cornejo, diz que uma das maiores dificuldades é ajudar Bethany e os irmãos nas tarefas da escola mexicana. Ele trabalha em telemarketing em Tijuana, prestando atendimento em inglês para empresas americanas – um dos empregos mais comuns entre os deportados.

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