"Compreender as razões desse ódio é o único modo para viver juntos." Entrevista com Michel Onfray

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05 Abril 2016

"É difícil pensar sobre esses tempos como ateus", lamenta Michel Onfray, mas, com esse espírito, ele leu o Alcorão, sura após sura. De acordo com o filósofo francês, "o Islã terrorista foi criado em parte pelo Ocidente beligerante".

A reportagem é de William Bourton, publicada no jornal La Repubblica, 04-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No seu último livro, Pensare l'Islam [Pensar o Islã], que acaba de ser publicado pela editora Ponte alle Grazie, Onfray se propõe a pensar sobre o retorno do religioso, "que no Ocidente assumiu a forma do Islã", no espírito de Spinoza: "Fora de toda paixão, sem ódio e sem veneração", "só para compreender".

Eis a entrevista.

Depois de ler o Alcorão, você constatou que algumas suras convidam para a guerra, para o massacre dos infiéis e assim por diante, enquanto outras convidam para o amor e para a misericórdia. Há dois modos de ser muçulmano?

Há tantos quantos os leitores... É o mesmo para qualquer livro, em que sempre se pode extrapolar uma frase para fazer com que ela diga ao seu autor o contrário do que diz toda a obra. Penso em Nietzsche, que havia sido instrumentalizado politicamente por certos nazistas. O Novo Testamento consente que se justifique tanto o pacifismo quanto o belicismo. O mesmo vale para o Alcorão.

O Antigo Testamento também está repleto de versículos que exortam a "atacar com o fio da espada" ou a "perfurar com flechas", mas não se encontra mais por aí nenhum cristão que tire daí uma justificação para os seus crimes...

Porque o cristianismo é uma religião em declínio, e, consequentemente, a civilização judaico-cristã não tem mais os instrumentos da violência. A Igreja do Concílio Vaticano II reconhece essa incapacidade de poder e finge optar por aquilo que lhe é imposto. Mas, para chegar a isso, foi necessário nada menos do que meio século de Razão descristianizadora.

Alguns defendem a necessidade de uma "atualização" do Alcorão, como o Código de Direito Canônico foi "atualizado" na segunda metade do século XX, sob o impulso do Papa João XXIII...

João XXIII convocou o Concílio Vaticano II porque a Igreja estava esgotada e se livrou dos pesos para salvar o cristianismo. O cristianismo tornou-se um humanismo insípido, despojado do sagrado e da transcendência. Deus não está mais no centro do dispositivo cristão: o homem o substituiu. Mas, para se chegar a isso, foi necessário o emprego da razão crítica que durou séculos. A totalidade do mundo islâmico, da Hégira em diante, ainda não produziu pensadores como Ockham ou Erasmo, Montaigne ou Voltaire, Nietzsche ou Freud.

Você denuncia "a política islamófoba levada adiante pela França". O Islã terrorista responde ao Ocidente beligerante?

Eu defendo o direito de pensar o terrorismo fora da láurea e do anátema. Para fazer isso, eu inscrevo o terrorismo no longo prazo. De onde vem o terrorismo? O que ele é? Quais são as suas causas? Só podemos combatê-lo se soubermos o que o produz. Entre as causas – e sublinho o plural, porque não é a única – daquela que von Clausewitz chamava de pequena guerra e que tem o nome de terrorismo, está a resposta do fraco ao forte, que, desde 1991, se comprometeu ao lado de Bush para "bater" em um certo número de países muçulmanos, sob o pretexto de que eles ameaçavam a nossa segurança.

Em novembro, você tinha desistido provisoriamente de publicar o seu livro. Por quê?

A imprensa francesa da esquerda de governo começou a atirar contra mim. Diziam que eu fazia o jogo da Frente Nacional. Uma das minhas afirmações tinha sido retomada e distorcida pela mídia do Estado Islâmico. Eu era islamófilo e islamófobo... Como Pensare l'Islam devia ser publicado na semana do aniversário dos atentados contra o Charlie Hebdo, eu escolhi adiar a publicação. Eu queria evitar entrar na armadilha que prepararam para mim naquele período de comemoração, que precisava, no mínimo, de reflexão.