Xenofobia

Foto: Stuart Anthony | Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

28 Setembro 2018

"Medos são como tumores malignos: podem ser analisados, radiografados, dissecados e submetidos ao bisturi. Este rasga o tecido não para expô-lo aos olhares alheios, mas para curá-lo. Dominados e controlados, os medos transfiguram-se em fonte de esperança, sonhos e construção de alternativas", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

O medo é um dos sentimentos mais reservados e que mais se escondem. Mas, ao mesmo tempo, é também um dos que mais se condividem. Este aparente paradoxo é de fácil entendimento: existem medos estritamente pessoais, íntimos, ocultos, fechados, sepultados no fundo de nossas entranhas; e existem medos coletivos, que envolvem uma família, um determinado grupo humano, uma comunidade e até mesmo toda uma sociedade. A “fobia” – palavra que deriva do grego phóbos – representa um medo misto. Tem um lado pessoal, uma espécie de pânico persistente, por vezes silencioso, irracional e patológico... Porém, pode contagiar todo um povo, uma nação, uma cidade, uma cultura – contra uma etnia específica, pessoas de outra cor, sexo, religião. Quando a pretensa ameaça desenvolve-se em virtude do temor “ao outro, ao estrangeiro, ao diferente”, trata-se, em ambos os casos, de xenofobia. O estranho e desconhecido, da mesma forma que uma novidade inusitada, inspira um medo não raro obscuro, absurdo e desproporcionado.

Em outros termos, tudo que é “novo” amedronta, porque foge ao comportamento rotineiro e cotidiano, às respostas programadas, à atitude habitual. O “outro” adquire a função de espelho: rompe com toda espécie de máscara, revela a nudez da própria fragilidade e impotência. Daí o receio diante de riscos possíveis, previsíveis ou imprevistos. O perigo bate à porta e provoca pânico. Faz-se necessário construir muros visíveis ou invisíveis em vista da autodefesa. E tal defesa, por sua vez, frequentemente converte-se em ataque e perseguição, em intolerância e discriminação, em violência ou aberta perseguição. Resulta que o medo dista pouco das formas extremas de neonazismo e neofascismo. Instala-se a divisão entre “nós” e “eles”, ou entre os de “dentro” e os de “fora”. Do ponto de vista cultural e religioso, a fronteira divide, por uma parte, os que falam a nossa língua, seguem nossos costumes e se guiam por nossos valores e, por outra, os extra-comunitários. Do ponto de vista socioeconômico, os estrangeiros são aqueles que ameaçam nosso emprego, nossa família e filhos, nossa paz e nosso futuro. Politicamente, apela-se para o discurso da própria segurança nacional e a paz.

Neste momento, o cenário adquire formas concretas de tensão, conflito, rejeição, intransigência e rechaço. Quando o medo se expande e se torna generalizado entre amplos setores da população, gera-se um contexto propício à multiplicação de fortalezas, onde corações, portas e fronteiras são cuidadosa e hermeticamente fechadas. Cada pessoa ou família protege-se atrás dos próprios muros. Parte da mídia, como verdadeiros abutres esfaimados, espalha a sensação de mau agouro. Mas o medo pode ser também sufocado, silenciado, dissimulado, reprimido. O silêncio vira mutismo de uma agressividade represada a custo. Olhares oblíquos e palavras envenenadas cruzam os ares. A sociedade reveste a forma de uma cemitério da esperança, onde os vivos erram como fantasmas assustados e assustadores.

Pior de tudo quando o medo é instrumentalizado pelas autoridades de um país, pelas campanhas eleitorais e pela prática política em geral. Se as crises históricas são fonte de medo, ameaça e perigo, semelhante contexto converte-se em alicerce para o autoritarismo ou totalitarismo, combustível das ditaduras e dos tiranos. O medo se transforma em arma populista contra as bases populares. Setores de extrema destra, com a bandeira de um nacionalismo exacerbado, sabem como manipular o medo, dirigindo-o contra um certo alvo – um bode expiatório – que podem ser os bárbaros e selvagens, os loucos e vagabundos, as bruxas e feiticeiras, os judeus e muçulmanos... Ou, nos tempos que correm, os migrantes, os refugiados e os prófugos. No seu modo de ver, são estes que atravessam desertos e mares, cruzam todas as fronteiras, invadem nossa sociedade, ameaçam a ordem, ignoram nossos valores mais profundos, fruto lento e árduo de “séculos de civilização”.

O medo xenofóbico, entretanto, pode ser dominado. O jardineiro, ao cultivar as flores, tem o cuidado de eliminar as ervas daninhas e os espinhos nocivos. Medos são como tumores malignos: podem ser analisados, radiografados, dissecados e submetidos ao bisturi. Este rasga o tecido não para expô-lo aos olhares alheios, mas para curá-lo. Dominados e controlados, os medos transfiguram-se em fonte de esperança, sonhos e construção de alternativas. Entra aqui o papel das autoridades, dos organismos internacionais, das Igrejas, das organizações não governamentais, das entidades e movimentos populares...

Leia mais