Batalha contra a pedofilia clerical só será vencida com verdade e autocrítica

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20 Agosto 2018

O jesuíta Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, grande especialista na questão dos abusos sexuais e incansável animador das iniciativas da Universidade Gregoriana de “cura e renovação”, quando perguntado por Andrea Tornielli sobre a sua opinião sobre o relatório do Grande Júri da Pensilvânia deu esta resposta: “Ele nos diz: durante décadas, houve padres que abusaram de menores, e a cultura predominante na Igreja foi a do encobrimento, da negligência e da omissão”.

A reportagem é de Luis Badilla, publicada em Il Sismografo, 18-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na quinta-feira, 16, à noite, uma declaração da Santa Sé sobre o caso estadunidense – “horríveis crimes (que causam): vergonha e dor” – ressaltou: “A Igreja deve aprender duras lições do passado e que deveria haver uma assunção de responsabilidade por parte tanto daqueles que abusaram, quanto daqueles que permitiram que isso acontecesse”.

Depois, o documento acrescenta esta reflexão: “A Santa Sé encoraja reformas constantes e vigilância em todos os níveis da Igreja Católica para garantir a proteção dos menores e dos adultos vulneráveis. Também ressalta a necessidade de obedecer à legislação civil, incluindo a obrigação de denunciar os casos de abusos de menores. O Santo Padre compreende bem como esses crimes podem abalar a fé e o espírito dos fiéis e reitera o apelo a fazer todos os esforços para criar um ambiente seguro para os menores e para os adultos vulneráveis na Igreja e em toda a sociedade. As vítimas devem saber que o papa está do lado delas. Aqueles que sofreram são a sua prioridade, e a Igreja quer escutá-los para erradicar esse trágico horror que destrói as vidas dos inocentes”.

Palavras e reflexões justas, oportunas, necessárias... Embora, diante de tal “catástrofe moral e crise espiritual”, como dizem os bispos dos Estados Unidos, nunca serão suficientes.

Neste ponto, porém, se formos honestos principalmente com nós mesmos, o que diz respeito a cada consciência individual, a Igreja toda, hierarquia, clero e povo de Deus, deve se fazer uma pergunta, deixando de lado os eufemismos, as meias-verdades, as acrobacias verbais e os esconderijos cúmplices: por que, durante tantos anos, do papa até a última diocese, foi encorajada a política de ocultamento dos abusos? Por que a Santa Sé, o Papa João Paulo II, a sua comitiva polonesa, o secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano, e outros, durante anos, ocultaram os terríveis horrores de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo?

Aqueles que, nesse período, tiveram uma participação determinante nesses eventos e ainda estão vivos, em particular o cardeal Angelo Sodano, hoje decano do Colégio Cardinalício (91 anos) e o cardeal Stanisław Dziwisz, emérito de Cracóvia, 79 anos, nunca foram chamados a dar respostas a algumas perguntas sobre como decidiram lidar com a questão dos abusos?

É algo sobre o qual todos falam, na Igreja, entre o clero e também na hierarquia, entre vaticanistas e outros observadores das questões eclesiais, mas sempre permanece oculto, escondido, como tabu, talvez porque, mais cedo ou mais tarde, vai tocar a figura do papa santo João Paulo II.

A Igreja nunca vai vencer a batalha da pedofilia clerical se não fizer as contas com a sua história verdadeira dos últimos anos em matéria de abuso, se não fizer a autocrítica sincera e completa, se não reconhecer aberta e humildemente os seus pecados e crimes em matéria de abandono dos menores recebidos justamente para que fossem protegidos e custodiados, e, depois, por negligência, cumplicidade, covardia e omissão, foram deixados à disposição de sacerdotes indignos, “criminosos”, diz o comunicado vaticano de quinta-feira.

* * *

Quando toda a comunidade eclesial, do primeiro ao último dos seus membros, vai pôr a mão até o fundo naquilo que o padre Zollner denuncia como “cultura predominante na Igreja” em matéria de abusos, isto é, “a do encobrimento, da negligência e da omissão”?

* * *

O comunicado da Santa Sé da quinta-feira, 16, enfatiza e deseja: “Deveria haver uma assunção de responsabilidade por parte tanto daqueles que abusaram, quanto daqueles que permitiram que isso acontecesse”. Há muitos anos, a política do ocultamento, do acobertamento e também do descrédito das vítimas impediu ou retardou a ação da Igreja destinada a erradicar essa chaga.

Então, a pergunta é simples: quando se porá a mão até o fundo na teia dos ocultamentos e dos ocultadores, impondo regras tão severas quanto aquelas contra quem abusa sexualmente de um menor ou de uma pessoa vulnerável?

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