Por que somos estigmatizados? 

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18 Julho 2018

"O preconceito está tão internalizado nos indivíduos e na sociedade como um todo, que certas vezes já não é mais possível perceber quando ele está sendo praticado", escreve William Martins, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, estagiário do Instituto Humanitas Unisinos - IHU e Bolsista de Iniciação Científica. 

Eis o artigo. 

O racismo no Brasil atinge os negros não só por meio da violência física ou verbal. Existe uma violência, que não está caracterizada como crime, mas que afeta o sujeito tanto quanto uma das outras duas. A violência simbólica, que é a mais recorrente e está impregnada no cotidiano dos negros, é a pior das violências. São os atos sem defesa, que não temos como denunciar.

Ontem, por causa do frio, estava usando uma touca. Enquanto voltava do trabalho, já com a noite caindo, caminhando até em casa fui observando as pessoas que o meu caminho cruzavam. Notei que a minha presença causava um certo desconforto em algumas delas. Por exemplo, a senhora que puxou a bolsa quando passei pela parada em que ela esperava o ônibus, os olhares de receio, de medo, a moça que queria atravessar a rua antes que eu passasse por ela... Essa é a violência simbólica de que estou falando. A violência que me sinto impotente para lutar contra.

Há no Brasil, o mito de uma democracia racial. Acredita-se, dissimuladamente, que não existe uma grande vala de diferença no tratamento entre negros e brancos. Isso acontece, pois ocorre uma cordialidade falaciosa em muitos ambientes em que circulamos. Aceitam-se os negros, entretanto fazem piadinhas sobre período histórico obscuro do Brasil que os castigou, a escravidão. Como se não fosse um momento doloroso do país e da história de cada negro.

O preconceito está tão internalizado nos indivíduos e na sociedade como um todo, que certas vezes já não é mais possível perceber quando ele está sendo praticado. Há alguns dias peguei um Uber e o motorista resolveu puxar assunto sobre eleições e política de cotas nas universidades. Ao falar sobre sua preferência de voto para presidente, calei-me e preferi não argumentar. Mas em relação as cotas discutimos. Ele contra, eu a favor. Por fim, e o que me fez seguir mais firme nas minhas convicções, foi seu comentário final:

- Negro na minha casa come ATÉ na mesa. Esse negócio de preconceito não existe. E se as pessoas pensarem igual a mim, o mundo vai pra frente.

Estou calado até então.

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