Abrir mão da Petrobras é abrir mão do Brasil

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Outubro 2016

Petróleo significa poder e entregar a produção nacional aos estrangeiros é desistir da soberania e da independência.

O artigo é de Pedro P. Bocca, professor de Relações Internacionais da Fundação Santo André e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI, em artigo publicado por CartaCapital, 20-10-2016.

Eis o artigo.

A votação na Câmara Federal, realizada no último dia 5, do Projeto de Lei 4567/16, que desobriga a Petrobras de ser a operadora de todos os blocos de exploração do pré-sal no regime de partilha de produção, é parte fundamental da agenda coordenada do novo governo ilegítimo e seus parceiros internacionais.

Proposto no Senado por José Serra (PSDB) – alçado não por acaso ao papel de ministro das Relações Exteriores pelo governo Michel Temer (PMDB) – o projeto retira da Petrobras o controle sobre as reservas do pré-sal, e abre caminho para a exploração estrangeira destes recursos.

A crise eclodida em 2008 reforçou a importância estratégia do controle dos recursos naturais. Se por um lado a crise propiciou condições para que economias emergentes, como o Brasil, crescessem ocupando espaços deixados pelos países centrais, acirrou a disputa por recursos naturais, fundamentais para a recuperação das economias desenvolvidas. Combustíveis fósseis, como petróleo e gás, ganham ainda mais importância neste processo.

A queda vertiginosa do preço do barril de petróleo nos últimos anos pode, e deve, ser encarada como uma ação política. Se em julho de 2014 o preço do barril era de 111,87 dólares, em setembro de 2016 é de 46,19 dólares, tendo sua maior queda em janeiro deste ano, quando chegou a 30,80 dólares.

Barato para quem precisa comprar, baixo para quem produz – em especial para os países cuja extração tem um custo mais alto, como no caso venezuelano e do pré-sal brasileiro. O preço, dizem os mais céticos, é regido pelo mercado. Mas quem rege o mercado?

Não pode ser tratado como uma mera coincidência, portanto, o fato de que diversos países que tenham nestes recursos elemento importante de sua economia ou ação geopolítica tenham sido, nos últimos anos, alvo de instabilidade política e econômica.

A invasão da Líbia (9ª maior reserva de petróleo do mundo), o conflito gerado na Ucrânia (envolvendo reservas de gás natural), a guerra civil forjada na Síria (país aliado da Rússia, que possui controle estratégico de gasodutos no Oriente Médio) e a crise político-econômica na Venezuela (maior reserva de petróleo do mundo, e um dos dez maiores produtores) fazem parte deste cenário.

Sendo assim, também não é coincidência que no Brasil, dono da sexta maior reserva comprovada de petróleo do mundo após a descoberta do pré-sal, a desestabilização do governo Dilma Rousseff tenha se iniciado justamente tendo como foco a Petrobras, no episódio conhecido como “Petrolão”, berço da operação Lava-Jato.

Como em um flashback noventista, o ataque à Petrobras e as acusações de corrupção têm um claro objetivo de denunciar a má gestão do Estado sobre a empresa e levar opinião pública, elite e (agora cada vez mais) governo à “inevitável” privatização – cuja tese ganha ainda mais peso em um momento de menor lucratividade produtiva.

Se a privatização da Petrobras – ou Petrobrax, retomando o projeto de “internacionalização” da marca no governo Fernando Henrique Cardoso – retiraria completamente do Estado a soberania sobre as reservas e a exploração do mais geopolítico dos recursos naturais, o projeto do neo chanceler ilegítimo cumpre parcialmente este objetivo.

Serra, em defesa de seu projeto no Senado, alegou que retirar da Petrobras a obrigatoriedade da operação das reservas do pré-sal não significa a perda da soberania do Estado sobre seus recursos, pois o poder de decisão sobre a exploração das reservas passa ao Executivo. É compreensível, portanto, que o projeto apresentado em 2015 venha a ser aprovado nos primeiros meses do governo de Michel Temer.

Se o governo Dilma Rousseff já sinalizava uma mudança de rumos da política externa altiva e ativa dos oito anos anteriores, mantendo algumas de suas principais características mas apostando na reaproximação com os Estados Unidos, a “política externa transilvânica” nas mãos de Serra e Temer no faz embarcar em uma cápsula do tempo que nos leva de volta aos anos 90.

As seguidas tragédias diplomáticas do governo ilegítimo em relação aos vizinhos latino-americanos, cuja integração era uma das bases da política anterior, é apenas parte do desastre maior.

Ao mesmo tempo em que minam a integração regional em nosso continente, Temer e Serra se aproximam das economias centrais que sempre relegaram ao País um papel subalterno na Divisão Internacional do Trabalho, trazem instabilidade aos BRICS e atuam na contramão das relações Sul-Sul que fizeram do Brasil importante ator da política internacional no último período, tanto como liderança regional, como dos países emergentes.

Ao negar este papel, o Brasil se apequena para o mundo e a entrega do pré-sal aos interesses estrangeiros reforça este movimento.

A descoberta histórica do pré-sal brasileiro – e o desenvolvimento da tecnologia necessária para sua extração – poderia alterar o papel do País do cenário internacional, reforçando sua liderança e garantindo autonomia para a consolidação de um projeto de desenvolvimento nacional.

As grandes potências sabem disso, e a reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, suspensa desde o fim da II Guerra Mundial, na costa do Atlântico meses após a descoberta das reservas litorâneas mostram isso. Mais do que a gasolina que abastece automóveis, o petróleo significa no atual contexto internacional um combustível ainda maior: poder.

Ao abrir mão desta riqueza econômica e política, Temer, Serra, o Senado e a Câmara Federal abrem mão de um projeto de nação soberana e independente. O que é coerente com o que tiveram que fazer para assumir o governo. Os vampiros se divertem.

Leia mais