Rio Grande do Sul, o estado decadente que idealiza seu passado através da tradição

Mário Maestri (Foto: João Flores da Cunha)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Por: João Flores da Cunha | 18 Setembro 2016

“Tudo aqui no Rio Grande do Sul é melhor: nossas mulheres são lindas, nossos homens são fortes, o chocolate de Gramado é o melhor do mundo, nossa cerveja artesanal é ótima e nosso clima, uma maravilha”. Foi em tom irônico que o historiador Mário Maestri, professor da Universidade de Passo Fundo – UPF, descreveu a idealização do RS por seus habitantes e o sentimento de superioridade destes em sua palestra no IHU Ideias, realizada no dia 15-09-2016. O tema de sua fala foi O Rio Grande do Sul: a história e a política, ontem e hoje. O gaúcho real e o imaginário.

Em contraste com essa idealização, que resulta em parte do movimento de valorização da tradição, o RS passa atualmente por um cenário de decadência, afirmou Maestri. Ele citou a corrupção, os baixos salários dos professores da rede pública e a violência no estado, e afirmou que “não temos nada a nos orgulhar, e muito a nos envergonhar”. Para ele, “a depressão e a situação patética pela qual passa o estado encontram um reflexo estético perfeito na figura do atual governador”, José Ivo Sartori.

A tradição em choque com a História

De acordo com Maestri, “é preciso separar história e tradição. Há um choque direto entre elas”. Segundo o professor, a tradição, “ao contrário do que se pensa, não é algo que surge no passado e chega até o presente. Normalmente, ela é inventada” e se fundamenta em “raízes tortuosas”, para ele.

De fato, o recurso à tradição trata de uma “busca de raízes e de certezas no passado”, afirmou o historiador. Ela significa uma valorização desse passado, em busca de qualidades que já não existiriam mais no presente – e, segundo o professor, “talvez nenhum outro estado tenha uma tradição tão consolidada quanto o Rio Grande do Sul”.

Mário Maestri (Foto: João Flores da Cunha)

Os mitos da “revolução” farroupilha

Para ele, a tradição não realiza uma análise histórica ou uma análise da realidade. Assim, o movimento tradicionalista comemora um conflito entre os farroupilhas e o Império do Brasil que Maestri tratou não como “revolução”, mas como guerra. Um dos valores idealizados pela tradição é a “fraternidade que teria unido toda a sociedade” na empreitada contra o Império.

No entanto, a guerra farroupilha “não foi um movimento de todo o Rio Grande do Sul”, mas da metade sul do estado e do norte do Uruguai, afirmou Maestri. Os farroupilhas jamais conseguiram se impor no litoral e em Porto Alegre, de onde “foram expulsos a pontapés”, assinalou o historiador. Inclusive, o lema da capital do estado é “leal e valorosa” – por ter se mantido fiel ao Império e por ter resistido aos rebeldes.

Assim, a farroupilha “não era uma guerra rio-grandense”; de fato, foi combatida por rio-grandenses. O historiador notou que os colonos imigrantes foram contra o movimento, pois os farroupilhas eram “ideológica e economicamente contra a pequena propriedade”, afirmou ele.

Existe um “mito libertário da Revolução Farroupilha”, notou Maestri. Essa não era uma guerra social, mas conservadora: seus combatentes desejavam mais terras e mais cativos. Estes foram traídos após a derrota do movimento, e parte deles foi morta no massacre de Porongos. “Praticamente todos os negros que acreditaram nos farroupilhas foram mortos ou escravizados”, disse o historiador.

Assim, “a guerra farroupilha era uma guerra de latifundiários que queriam criar uma república pastoril”, afirmou Maestri. Para ele, o 20 de setembro “é algo a ser celebrado por proprietários de terras, mas jamais por trabalhadores assalariados que, logicamente, não concordam com ideias como a propriedade latifundiária e a exploração de trabalhadores escravizados”.

O separatismo gaúcho

Provocado por um integrante da plateia a discutir o movimento separatista rio-grandense, Maestri tratou este como “a síntese de um cenário de decadência”. De acordo com o professor, “nós vivemos de um petróleo subvencionado”, e o RS isolado “seria um Uruguai sem o porto de Montevidéu e sem as terras de qualidade” daquele país.

Ele afirmou que, em caso de uma hipotética vitória dos farroupilhas, “a crise de hoje seria ainda maior e mais profunda”. Segundo ele, “se a Farroupilha houvesse vencido, o RS teria hoje 3 milhões de habitantes” e o estado jamais teria se transformado em um polo industrial, pois os separatistas teriam interrompido os movimentos migratórios de alemães, italianos e poloneses. Nesse cenário, haveria latifúndios por todo o estado, e Porto Alegre seria uma cidade muito menor do que é hoje, de acordo com Maestri.

Quem é

Mário José Maestri Filho possui graduação em Ciências Históricas - Université Catholique de Louvain (1977), mestrado em Ciências Históricas - UCL (1977) e doutorado em Ciências Históricas - UCL (1980). Atualmente é professor titular do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo - UPF. Realizou estágio de pós-doutoramento na Bélgica e semestre sabático em Portugal. Tem experiência na área de história social, história e literatura, história e arquitetura, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: história do Brasil, história do Rio Grande do Sul, história da escravidão no Brasil, história da escravidão no Rio Grande do Sul; história da colonização italiana no Rio Grande do Sul. É autor de Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território (Passo Fundo: UPF Editora, 2006), entre outros livros.

Confira a palestra na íntegra:

Leia mais...

Até quando vamos endeusar a revolução farroupilha?

A crise gaúcha. A erosão da ética republicano-castilhista. Entrevista especial com Mário Maestri

"Há muita demagogia sobre a honestidade política das elites rio-grandenses". Entrevista especial com Mário Maestri

A presença do negro no Rio Grande do Sul ontem e hoje. Entrevista especial com Mário Maestri

14 de novembro de 1845, dia da chacina dos Lanceiros Negros, pelos vilões farroupilhas