Migrantes: de quem era o colete salva-vidas mostrado ao Papa Francisco

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09 Junho 2016

Um dia após tê-lo recebido de presente, o Papa Francisco o levou consigo para o encontro com 500 crianças, para lhes explicar o que um migrante. E, desde então, conta o jornal L'Osservatore Romano, ele o conserva entre as suas coisas mais queridas. O colete salva-vidas laranja que deveria ter salvado a vida da menina síria que o usava tentando chegar a Lesbos é o símbolo absoluto da tragédia dos migrantes que a Europa enfrenta, hoje, com o exame do Migration Compact [projeto italiano para reduzir o fluxo migratório] pelo Parlamento europeu.

A reportagem é de Francesca Caferri, publicada no jornal La Repubblica, 07-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A história do colete fala mais do que mil documentos oficiais. "Eu encontrei a menina que o usava na noite do dia 7 de outubro de 2015", conta Oscar Camps, diretor da ONG Proactiva Open Arms, que há alguns dias levou o colete ao papa. A Proactiva é um coletivo de salva-vidas espanhóis que, com os seus jet-skis e as suas embarcações, no último ano e meio, salvaram milhares de vidas ao largo da costa de Lesbos.

"Foi uma das noites mais horríveis da minha vida, nunca vou esquecê-la. O mar estava muito forte, e dezenas de pessoas já estavam afogadas. Eu alcancei o barco da menina com o meu jet-ski: ele estava invertido, havia dezenas de pessoas na água. Eram sírios. Havia gritos em árabe ao meu redor. Depois, eu a vi. Ela estava muito mal, não conseguia se manter fora da água: a mãe lutava com todas as suas forças para segurá-la. Junto com ela, estavam os pais e dois irmãos mais velhos. Com os nossos jet-skis, conseguimos levar uma pessoa de cada vez. Eles são rápidos, permitem que nos aproximemos, mas transportam apenas uma pessoa. Eu peguei ela, porque era a que mais precisava de ajuda."

"Eu a levei para o barco grande, correndo entre as ondas – continua Camps –, desabotoei o colete e a passei para os meus colegas. Depois, voltei para pegar os outros, mas não cheguei a tempo, era tarde demais: estavam todos afogados, toda a sua família. Eu pensei nela, supliquei que ao menos ela conseguisse, que chegasse a tempo de um médico. Mas, quando tudo acabou e voltamos, me disseram que ela também tinha morrido, não tinham conseguido levá-la viva para a terra: ela já estava muito mal. Eu não sei o seu nome e não sei onde a sepultaram: não posso perguntar, com o trabalho que eu faço, caso contrário não conseguiria fazê-lo. Já existem emoções demais, podem te destruir. Você deve manter uma distância, naquele pouco que você pode: mas eu nunca vou me esquecer daquela noite. Morreram 200 pessoas, não sei quantas nós salvamos, certamente não o suficiente. Na manhã seguinte, eu olhei para o meu jet-ski, e o colete dela tinha ficado preso nele. Eu sei com certeza que era o da menina, porque eu o tinha tirado dela, para fazê-la respirar. Ele tinha resistido a tudo: as ondas loucas, a alta velocidade, as milhares de viagens para o barco para resgatar as pessoas, a chuva. Eu pensei que era um sinal, que aquele fim horrível devia servir para alguma coisa, que ele não estava lá por acaso: aquele colete estava lá para dizer ao mundo como tinha morrido aquela que a tinha usado, com os seus poucos anos. Por isso, eu o guardei."

Camps é um homem forte: nos últimos anos, ele viu dezenas de pessoas morrerem diante dos seus olhos, enfrentou a desconfiança do governo grego e das grandes organizações, lutou para que o mundo saiba o que acontece em Lesbos e conquistou a confiança de milhares de pessoas que, hoje, financiam via crowdfunding o trabalho do seu grupo.

Mas, quando ele fala da menina sem nome, ele tem a voz cheia de lágrimas e raiva: "O papa entendeu quando colocaram esse colete na sua mão: ele sabe quem somos, o que fazemos. O fato de o ter levado com ele para mostrá-lo para as crianças é muito importante para nós. O mundo deve abrir os olhos para o modo como deixou essa menina se afogar junto com os seus irmãos e os seus pais. E o Papa Francisco é o líder que mais está fazendo para despertar as consciências. Ela era uma entre milhares: a esperança é de que a sua história obrigue a Europa a agir para que nenhuma outra criança tenha que morrer dessa forma".