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27 Abril 2016

Este ano marca o 30º aniversário da catástrofe de Chernobyl: o pior desastre com o qual a humanidade já teve que lidar, ligado à incapacidade de cientistas e engenheiros de prever como problemas aparentemente pequenos podem se transformar em desastres de escala quase inimaginável.

A opinião é do político russo Mikhail Gorbachev, ex-líder da União Soviética entre 1985 e 1991, e presidente fundador da Cruz Verde Internacional. O artigo foi publicado no jornal La Stampa, 26-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quase 70 anos atrás, um grupo de cientistas do Projeto Manhattan, depois de constatar o poder destrutivo da energia nuclear, projetou aquele que foi chamado de Doomsday Clock. Um mecanismo concebido para avisar o mundo da ameaça de uma iminente catástrofe global.

Este ano, os ponteiros do "relógio do apocalipse" pararam a três minutos da meia-noite da humanidade. A mesma posição em que se encontravam no auge da Guerra Fria. Por quê? Em nível global, o número de ogivas nucleares voltou a crescer; mais de 30 países estão em posse de armas nucleares ou podem dispor delas rapidamente; a Coreia do Norte envia sinais perigosos; o furto, por parte do Isis, não é algo sem fundamento.

A tudo isso, acrescentam-se os riscos e os impactos de uma futura Chernobyl ou Fukushima; os acidentes dentro dos locais de estocagem ou ligados com o processamento e o transporte dos materiais nucleares; as mudanças climáticas, que afetam todos os organismos vivos.

Este ano marca o 30º aniversário da catástrofe de Chernobyl: o pior desastre com o qual a humanidade já teve que lidar, ligado à incapacidade de cientistas e engenheiros de prever como problemas aparentemente pequenos podem se transformar em desastres de escala quase inimaginável.

Na minha opinião, Chernobyl continua sendo um dos acidentes mais trágicos do nosso tempo. A partir do momento em que fui informado por telefone – às 5h da manhã daquele fatídico 26 de abril de 1986 – que um incêndio tinha começado no Reator 4 da central nuclear de Chernobyl, a minha vida nunca mais foi a mesma.

Embora, naquele momento, não se soubesse a real dimensão do desastre, ficou logo evidente que algo horrível estava acontecendo. As questões levantadas por Chernobyl e reiteradas por Fukushima, hoje, estão mais atuais do que nunca e ainda estão sem resposta.

Como podemos ter certeza de que as nações que possuem energia nuclear para fins civis ou militares vão aderir às medidas e normas de proteção necessárias? Como podemos reduzir o risco que pesa sobre as gerações futuras? Não será que estamos evitando dar as respostas a essas perguntas quando truncamos o debate, invocando razões de "segurança nacional" ou a nossa necessidade ilimitada de energia?

Ao contrário do que afirmam os defensores da energia nuclear, segundo os quais houve apenas dois acidentes importantes, se quantificarmos a gravidade dos acidentes, incluindo tanto a perda de vidas humanas quanto danos significativos às estruturas, surge um quadro muito diferente.

Desde 1952, ocorreram em todo o mundo ao menos 99 acidentes nucleares, que se encaixam nessa definição, com danos que chegam a um valor de mais de 20,5 bilhões de dólares. Ou seja, mais de um acidente nuclear e danos de 330 milhões de dólares por ano.

Tudo isso demonstra que há muitos riscos não geridos ou regulamentados de modo inadequado, uma coisa que, no mínimo, é preocupante, dada a gravidade dos danos que até mesmo um único acidente poderia provocar.

É fundamental que qualquer discussão sobre a energia nuclear seja abordada sob todos os pontos de vista e na sua complexidade. As usinas nucleares não são apenas um problema de segurança, de ambiente ou de energia. Mas todas essas coisas juntas.

E, como a Cruz Verde Internacional defende há anos, trata-se de aspectos do mesmo problema que devem ser debatidos como um todo.

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